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Eça de Queirós

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Um realista hesitante

O ano é o de 1865. O jovem José Maria Eça de Queirós está no penúltimo ano da Universidade de Coimbra, de onde sairá advogado formado, mas sem a menor vocação para o ofício. Já havia assistido outras manifestações rebeldes por parte dos estudantes - a rejeição a um discurso do reitor, protestos contra o governo local - mas esta polêmica marcará a história cultural e política portuguesa. O açoriano Antero de Quental, poeta respeitado e líder intelectual daqueles estudantes, inicia um debate público com Antonio Feliciano de Castilho, o maior escritor vivo de seu tempo, um venerando ultra-romântico, nacionalista e sentimental. É a chamada "Questão Coimbrã", na qual Quental defende o estilo realista e o engajamento revolucionário da literatura. Nascem os pressupostos que, poucos anos depois, uniriam vários expoentes da cultura portuguesa naquela que seria conhecida como a "geração de 70" - Antero de Quental, Teóphilo Braga, Oliveira Martins, Ramalho Ortigão e, o principal entre eles, o próprio Eça de Queirós, aquele jovem que, calado, tudo assistia das escadarias da Sé Nova de Coimbra, tímido demais para participar com mais veemência daqueles momentos efervescentes.

O que pensava o jovem José Maria daquela contenda? Certamente admirava os inovadores, seus amigos. Mas gostava de ler Teophile Gautier, Gérard de Nerval e Victor Hugo. E certamente não rejeitava Almeida Garret, Alexandre Herculano ou mesmo Antonio Feliciano de Castilho com o mesmo vigor de seus colegas. E Émilie Zola ainda não estava presente em sua cabeceira.


Engajado, enfim


Eça não queria exercer advocacia, como esperavam seus pais. Formado, não passa muito tempo em Lisboa: muda-se para Évora em 1867, onde fundou o semanário "O Distrito de Évora", de franca oposição ao governo. Escrevendo (e ele redigia o jornal inteiro), ele se sente mais à vontade para emitir suas opiniões - denuncia com vigor o clericalismo e o conservadorismo político e cultural como causas da apatia e do atraso português frente a França e Inglaterra.

De volta a Lisboa no ano seguinte, reencontra seus velhos amigos de Coimbra, e agora já não mostra a timidez anterior. Participa de um grupo que se intitula Cenáculo, com a presença de Antero de Quental. Juntos, discutem e divulgam opiniões sobre o movimento operário, textos de Proudhon, a possibilidade republicana em Portugal. Em 1869, Eça cria o alterego Fradique Mendes, poeta satânico e cronista mordaz. Neste mesmo ano, ele viaja para o Oriente Médio, e elabora extensas impressões e notas de viagem que só serão publicadas postumamente. De volta a Lisboa, encontra o grupo do Cenáculo em nova atividade: Ramalho Ortigão e Oliveira Martins haviam fundado A República, auto-denominado "o jornal da democracia portuguesa". Eça logo reintegra-se ao grupo e publica no jornal, em parceria com Ramalho Ortigão, um romance epistolar: O mistério da estrada de Sintra. Em 1871, essa mesma dupla inicia um novo periódico, As Farpas, um jornal de humor crítico, escrito com uma ironia corrosiva, que ataca não só os políticos mas também os costumes da burguesia lisboeta.

Neste mesmo ano, o Cenáculo organiza uma série de palestras que se tornaria célebre, as Conferências Democráticas do Cassino. Antes do governo português interditar o evento, Eça tem tempo de proferir "A nova literatura: a afirmação do realismo como nova expressão da arte". Aqui, ele já se sente capaz de afirmar a superação de nomes como Victor Hugo e Chateaubriand - o Romantismo era uma literatura que fugia à sua época, e, por isso, descambava para a falsidade. O grande parâmetro a ser seguido é Madame Bovary, de Gustave Flaubert. Segundo Eça, o Realismo estava regenerando os costumes pela arte, era regido pela justiça e pela verdade, e trazia o engajamento necessário para a revolução política e cultural portuguesa. A literatura não deve mais se destinar a causar belas impressões passageiras, mas deve ter um fim moral, uma missão social. Assim nascia a primeira cartilha do romancista português. Mas ela não perduraria para sempre


Amores ilegítimos


Em 1872, Eça já era diplomata concursado. Foi nomeado cônsul em Havana e, em missão oficial, pôde conhecer o Canadá, os Estados Unidos e a América Central. Em 1874, é transferido para Newcastle, ficando mais perto da Paris em que tanto ansiava residir. Mas é em solo inglês que inicia seus primeiros romances, que irão consagrá-lo imediatamente em Portugal. Em 1875 publica a primeira versão d'O crime do Padre Amaro e, três anos depois, outro estrondoso sucesso: O primo Basílio.
Os dois primeiros romances pareciam visar o choque coletivo: escandalosos para a época, retratavam o caso amoroso de um padre e um adultério com frieza e neutralidade, como fatos corriqueiros da vida social lusitana. Os tipos humanos são algo maniqueístas, e seus aspectos psicológicos não chegam a ser ricos, como bem notou Machado de Assis ao comentar as obras em jornais fluminenses. Mas a qualidade do retratista é inegável - a burguesia portuguesa reconheceu-se de pronto nos livros, e não era um belo retrato.

Eça cumpria à risca o que prometera em seu discurso. A estrutura dos romances e os personagens vinham carregados das tintas naturalistas e de crítica social, regeneradora. Mas ambas as obras traziam consigo uma marca que o autor nunca abandonaria: o tema dos amores ilícitos, uma obsessão queirosiana. E uma obsessão mais do que justificada...

A infância do escritor foi, no mínimo, solitária. O Dr. José Maria de Queirós, seu pai, manteve amores clandestinos com Carolina Pereira de Eça. Carolina tinha dezenove anos e sua mãe execrava essa ligação - consumada, pois Eça nasce em 1845. Só depois que ela morreu, em 1849, o casal legalizou sua situação. O pequeno José Maria já contava com quatro anos e, até então, esteve entregue aos cuidados de uma ama mulata, Ana Joaquina. Mas ela morreu em 1851, e o garoto foi enviado à casa da avó paterna. Quando, em 1855, esta também falece, ele foi internado no Colégio da Lapa. Viveu toda a infância longe dos pais, inexplicavelmente sendo visto como um fruto proibido, mesmo após o casamento. Nunca foi tratado da mesma forma que os seus irmãos, e só seria reconhecido como filho do casal (em sua certidão só constava o nome do pai) em 1885, quando fez quarenta anos. Eça sofreu na carne a hipocrisia e os preconceitos da sociedade que tanto fustigou.


Tempos felizes


O ano de 1885 é intenso para o escritor. Está envolvido com seu maior projeto literário, um romance monumental e definitivo sobre Portugal de seu tempo, baseado na saga da família Maia. Ao mesmo tempo, faz renascer o irreverente Fradique Mendes, desta vez escrevendo cartas a seus amigos reais. Vários de seus contos são reeditados ou traduzidos e, em visita a Paris, conhece Émile Zola. O reconhecimento público como filho legítimo vem junto com o seu pedido de casamento a Emília de Castro Pamplona, o que se daria no ano seguinte. Em 1887 publica A relíquia, uma de suas melhores novelas, e escreve o famoso conto Alves & Cia. Mas é no ano seguinte que o seu ambicioso romance é publicado: Os Maias, para muitos o maior romance de todos os tempos da literatura portuguesa. Nele já se nota a evolução dos personagens: menos caricatos, mais consistentes psicologicamente. E o tema, novamente, volta à seara dos amores impróprios, desta vez indo mais longe - o amor entre irmãos, um caso de incesto que, em determinado momento, é assumido conscientemente pelos protagonistas.
Ainda em 1888, funda com seus amigos intelectuais o grupo "Vencidos da vida", cujos jantares e manifestos se tornarão famosos. E é ainda neste mesmo ano em que alcança seu tão sonhado objetivo, o consulado em Paris.


Velhice precoce


Em 1891, o suicídio de Antero de Quental abala Eça profundamente. Já eram longe seus tempos de naturalista engajado, a maior parte de seus escritos apóiam-se agora na reflexão sobre valores morais e espirituais. Embora acompanhe temas políticos de perto e reedite suas crônicas d'As Farpas, Eça começa a escrever sobre as vidas dos santos. O conto Suave milagre também dá mostras dessa mudança radical do comportamento do escritor. Traduz de maneira muito pessoal o romance de aventuras As minas do Rei Salomão, de Henry Rider Haggard, um livro mais próximo das aventuras românticas que do espírito realista. Continua colaborando com jornais de Portugal e do Brasil, desta vez com uma coluna intitulada Ecos de Paris. Enfim, o Eça de Queirós d'A ilustre casa de Ramires e d'A cidade e as serras é um escritor muito diferente daquele d'O crime do Padre Amaro. Longe das polêmicas, com pouco mais de cinqüenta anos e sofrendo dos pulmões, doença que já levara três de seus irmãos, mantém-se cada vez mais recluso em sua residência francesa. Os últimos amigos a visitarem-no são unânimes em atestar seu envelhecimento precoce. José Maria Eça de Queirós falece em 16 de agosto de 1900. O maior romancista português morria junto com o seu século.

 

Trechos das Obras


A Relíquia


"De vez em quando o dr. Margaride esfuracava um queixal; depois limpava a face, os dedos; e recomeçava a mastigar devagar, com delicadeza e com religião.
Eu arrisquei outra palavra tímida.
- A titi, é verdade, tem-me amizade...
- A titi tem-lhe amizade - atalhou com a boca cheia o magistrado - e você é seu único parente... Mas a questão é outra, Teodorico, é que você tem um rival.
- Rebento-o! - gritei eu, irresistivelmente, com os olhos em chamas, esmurrando o mármore da mesa.
O moço triste, lá ao fundo, ergueu a face de cima de seu capilé. E o dr. Margaride reprovou com severidade a minha violência.
- Essa expressão é imprópria dum cavalheiro, e dum moço comedido. Em geral não se rebenta ninguém... E além disso o seu rival não é outro, Teodorico, senão Nosso Senhor Jesus Cristo!
Nosso Senhor Jesus Cristo? E só compreendi quando o esclarecido jurisconsulto, já mais calmo, me revelou que a titi, ainda no último ano da minha formatura, tencionava deixar sua fortuna, terras e prédios, a Irmandades da sua simpatia e a padres da sua devoção.
- Estou perdido! - murmurei."

O primo Basílio


"Luísa viu ao fundo uma cama de ferro com uma colcha amarelada, feita de remendos juntos de chitas diferentes; e os lençóis grossos, dum branco encardido e mal lavado, estavam impudicamente entreabertos...
Fez-se escarlate, sentou-se, calada, embaraçada. E os seus olhos, muito abertos, iam-se fixando - nos riscos ignóbeis da cabeça dos fósforos, ao pé da cama; na esteira esfiada, comida, com uma nódoa de tinta entornada; nas bambinelas da janela, duma fazenda vermelha, onde se viam passagens; numa litografa, onde uma figura, coberta duma túnica azul, flutuante, espalhava flores voando... Sobretudo uma larga fotografia, por cima do velho canapé de palhinha, fascinava-a: era um indivíduo atarracado, de aspecto hílare e alvar, com a barba em colar, o feitio dum piloto ao domingo; sentado, de calças brancas, com as pernas muito afastadas, pousava uma das mãos sobre um joelho, e a outra muito estendida assentava sobre uma coluna truncada; e por baixo do caixilho, como sobre a pedra dum túmulo, pendia dum prego de cabeça amarela uma coroa de perpétuas!
- Foi o que se pôde arranjar - disse-lhe Basílio. - E foi um acaso: é muito retirado, é muito discreto... Não é muito luxuoso..."


O crime do Padre Amaro


"Desceu para o seu quarto, desesperado. Pôs a vela sobre a cômoda; o espelho estava defronte, e a sua imagem apareceu-lhe; sentiu-se feio, ridículo com a sua cara rapada, a volta hirta como uma coleira, e por trás a coroa hedionda. Comparou-se instintivamente com o outro que tinha um bigode, o seu cabelo todo, a sua liberdade! Para que hei-de eu estar a ralar-me? pensou. O outro era um marido; podia dar-lhe o seu nome, uma casa, a maternidade; ele só poderia dar-lhe sensações criminosas, depois os terrores do pecado! Ela simpatizava talvez com ele, apesar de padre; mas antes de tudo, acima de tudo, queria casar; nada mais natural! Via-se pobre, bonita, só: cobiçava uma situação legítima e duradoura, o respeito das vizinhas, a consideração dos lojistas, todos os proveitos da honra!
Odiou-a então, e o seu vestido afogado e sua honestidade! A estúpida, que não percebia que ao pé dela, sob uma batina negra, uma paixão devota a espreitava, a seguia, tremia e morria de impaciência! Desejou que ela fosse como a mãe, - ou pior, toda livre, com vestidos garridos, uma cuia impudente, traçando a perna e fitando os homens, uma fêmea fácil como uma porta aberta..."

 

Machado fala de Eça
Machado de Assis, na revista O Cruzeiro, em 1878, refere-se a O crime do Padre Amaro:

"O Crime do Padre Amaro revelou desde logo as tendências literárias do Sr. Eça de Queirós e a escola a que abertamente se filiava. O Sr. Eça de Queirós é um fiel e aspérrimo discípulo do realismo propagado pelo autor do Assommoir. Se fora simples copista, o dever da crítica era deixá-lo, sem defesa, nas mãos do entusiasmo cego, que acabaria por matá-lo; mas é homem de talento, transpôs ainda há pouco as portas da oficina literária; e eu, que lhe não nego a minha admiração, tomo a peito dizer-lhe francamente o que penso, já da obra em si, já das doutrinas e práticas, cujo iniciador é, na pátria de Alexandre Herculano e no idioma de Gonçalves Dias.

Que o sr. Eça de Queirós é discípulo do autor do Assommoir, ninguém há que o não conheça. O próprio Crime do Padre Amaro é imitação do romance de Zola, La Faute de l'Abbé Mouret. Situação análoga, iguais tendências; diferença do meio; diferença do desenlace; idêntico estilo; algumas reminiscências, como no capítulo da missa, e outras; enfim, o mesmo título. Quem os leu a ambos, não contestou decerto a originalidade do Sr. Eça de Queirós, porque ele a tinha, e tem, e a manifesta de modo afirmativo; creio até que essa mesma originalidade deu motivo ao maior defeito na concepção do Crime do Padre Amaro. O Sr. Eça de Queirós alterou naturalmente as circunstâncias que rodeavam o padre Mouret, administrador espiritual de uma paróquia rústica, flanqueado de um padre austero e ríspido; o padre Amaro vive numa cidade de província, no meio de mulheres, ao lado de outros que do sacerdócio só têm a batina e as propinas; vê-os concupiscentes e maritalmente estabelecidos, sem perderem um só átomo de influência e consideração. Sendo assim, não se compreende o terror do padre Amaro, no dia em que do seu erro lhe nasce um filho, e muito menos se compreende que o mate. Das duas forças que lutam na alma do padre Amaro, uma é real e efetiva - o sentimento da paternidade; a outra é quimérica e impossível - o terror da opinião, que ele tem visto tolerante e cúmplice no desvio dos seus confrades; e não obstante, é esta a força que triunfa. Haverá aí alguma verdade moral?

Ora bem, compreende-se a ruidosa aceitação do Crime do Padre Amaro. Era realismo implacável, conseqüente, lógico, levado à puerilidade e à obscuridade. Víamos aparecer na nossa língua um realista sem rebuço, sem atenuações, sem melindres, resoluto a vibrar o camartelo no mármore da outra escola, que aos olhos do Sr. Eça de Queirós parecia uma simples ruína, unia tradição acabada. Não se conhecia no nosso idioma aquela reprodução fotográfica e servil das coisas mínimas e ignóbeis. Pela primeira vez, aparecia um livro em que o escuso e o - digamos o próprio termo, pois tratamos de repelir a doutrina, não o talento, e menos o homem, - em que o escuso e o torpe eram tratados com um carinho minucioso e relacionados com uma exação de inventário. A gente de gosto leu com prazer alguns quadros, excelentemente acabados, em que o Sr. Eça de Queirós esquecia por minutos as preocupações da escola; e, ainda nos quadros que lhe estoavam, achou mais de um rasgo feliz, mais de uma expressão verdadeira a maioria, porém, atirou-se ao inventário. Pois que havia de fazer a maioria, senão admirar a fidelidade de um autor, que não esquece nada, e não oculta nada? Porque a nova poética é isto, e só chegará à perfeição no dia em que nos disser o número exato dos fios de que se compõe um lenço de cambraia ou um esfregão de cozinha. Quanto à ação em si, e os episódios que a esmaltam, foram um dos atrativos do Crime do Padre Amaro, e o maior deles; tinham o mérito do pomo defeso. E tudo isso, saindo das mãos de um homem de talento, produziu o sucesso da obra."

 

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