Por Ruth dos Anjos
Pais sabem o melhor - Parte 3
O Centro, Blue Cover, Delaware
Um pouco depois da hora do almoço, Sydney estava em seu escritório. Pensativo, o doutor em psicologia tentava imaginar as conseqüências da liberdade para Jarod. Com certeza, se ele voltasse algum dia para o Centro, não seria mais o mesmo. Sydney temia por Jarod. A busca por seu passado desencadeou inúmeras situações que o tornaram ainda mais indispensáveis as atividades do Centro. Sydney sabia disso. Jarod era um simulador natural e estava aprimorando suas habilidades no mundo lá fora. Isso era perigoso tanto para o próprio Jarod, quanto para o Centro.
Sydney observou a caixa com biscoitos que estava ao seu lado e resolveu pegar um. Partiu-o no meio com as mãos, e surpreendeu-se com a mensagem: Quem sabe, cala. Quem fala, não sabe.
- Sydney, posso falar com você um instante? - perguntou Broots, entrando repentinamente.
O doutor ainda estava infiltrado em seus pensamentos, tentando imaginar o significado da mensagem, mas escutou quando Broots falou algo.
- Claro. O que foi? - disse ele.
- Sydney, eu estive pensando. - comentou Broots. - E se Jarod estiver mesmo na China?
Sydney deixou escapar uma discreta risada.
- O que Jarod iria fazer na China, Broots? Ele está procurando pela família. E a família dele não está na China.
- Como você tem tanta certeza? Você sabe onde a família do Jarod está?
Sydney lembrou da mensagem e disse mansamente:
- Quem sabe cala, quem fala não sabe, Broots.
Broots franziu a testa, demonstrando desentendimento.
- Não estou falando da China, China. Mas, a China daqui mesmo.
- Chinatown? - disse a srta. Parker, inesperadamente.
A moça havia entrando minutos depois de Broots, mas havia permanecido em silêncio. Sydney a percebera, mas não comentou nada.
Broots virou-se surpreso.
- Po...Po.. Pode ser, srta. - disse, hesitante. - É apenas uma idéia.
- Estamos sem idéias ultimamente, Broots. Vou mandar alguém verificar. - comentou Parker, saindo.
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Momentos depois, em Chinatown, Jarod e Peter Caine estavam em frente a um velho prédio no subúrbio da cidade.
Jarod fez um rápido reconhecimento visual do lugar e percebeu que aquele era o lugar apropriado para um sacerdote shaolin morar. Perto das pessoas mais humildes, cercado de problemas para resolver, no entanto, cercado de paz de espírito. Enquanto Jarod acompanhava Peter pela escadaria, lembrou-se de um dos ditados que havia lido noite passada; riqueza é para o sábio o que ele faz pelos outros, quanto mais ele oferece ao seu semelhante, mas rico se torna.
Jarod sorriu satisfeito. Mestre Caine realmente tinha muito a ensinar, especialmente ao seu filho. Jarod ficou imaginando o quanto Peter devia preocupar seu pai. Sempre cercado de perigo, e com a personalidade estourada que tinha, certamente arranjava problemas de vez em quando.
Apesar da simplicidade do lugar, era extremamente limpo e aconchegante. A porta estava aberta e Peter entrou, gritando:
- Papá! O senhor está aqui?
Papá? Pensou Jarod, percebendo o carinho que o detetive emanava por seu pai.
Sem respostas. Peter Caine chamou por mais algumas vezes, entrando nos outros aposentos da casa, mas não obteve respostas.
O rapaz massageou a nuca, nitidamente apreensivo e decepcionado. Ele tinha que falar com Kwai Chang Caine. Alguma coisa lhe dizia que aquelas imagens em sua mente eram importantes.
- Vi quando você entrou, jovem Caine. - disse o senhor asiático já com idade avançada, recém-chegado. - Seu pai não está, mas não vai demorar. - completou.
- Lo Si, você sabe onde ele foi? Queria muito falar com ele. - disse Peter.
Jarod podia jurar que aquele tal de Lo Si devia ter uns cem anos de idade.
- Logo ele volta. - respondeu Lo Si. - Algo o perturba, jovem Caine?
- Não é nada. - disse Peter. - Lo Si, esse é Jarod. Estamos investigando o paradeiro de Joseph.
- Olá. - cumprimentou Jarod, curvando a cabeça em sinal de respeito.
Lo Si retribuiu o gesto.
- Ele é conhecido em Chinatown como o ancião. É um membro muito importante da comunidade chinesa. - disse Peter. - E apesar de ser um homem bastante sábio e cheio de mistérios, fala como o Mestre Yoda de Guerra nas Estrelas, embora nunca tenha visto o filme. - acrescentou Peter, sorrindo, afagando o ombro do velho homem.
O detetive Caine tinha Lo Si como um grande amigo, talvez até mesmo como um avô.
- Yoda é o Mestre Jedi que ensinou sobre a força ao jovem Skywalker. - disse Jarod, pensativo. - Sinto-me honrado em conhecê-lo. - declarou Jarod.
- A honra é toda minha, meu jovem. - disse Lo Si.
Peter sorriu. Jarod era realmente um pouco estranho. Mas, quem não era estranho em Chinatown?
- Jarod, vou comer alguma coisa enquanto o meu pai não chega. Você também quer? - perguntou Peter, dirigindo-se a cozinha.
- Não, obrigado.
- Então está certo. Fique à vontade. - disse Peter. - Só não quebre nada... - completou, brincando ao sair.
- Peter Caine ser um jovem muito espirituoso. - comentou Lo Si.
Jarod sorriu. Ele deu uma boa olhada no lugar e percebeu as inúmeras velas espalhadas por todo o recinto, apenas algumas estavam acesas. Havia também algumas imagens de Buda e incenso queimando num canto da sala.
- Você é um rapaz confuso. Pensar em muitas coisas ao mesmo tempo. - disse Lo Si, acendendo outras velas.
Jarod surpreendeu-se.
- Gosto de manter a mente ocupada.
- Você procura respostas difíceis de encontrar, meu jovem amigo.
Jarod percebeu que Lo Si falava por enigmas e que sabia muito mais do que queria deixar que os outros soubessem.
- Mas, tudo ser possível se você seguir caminho certo. - acrescentou Lo Si.
- Estou no caminho certo?
- Inteligente é quem outros conhece, sapiente é quem conhece a si mesmo. Sua jornada é longa, mas seu destino já traçado. Para alcançar vitória, na pele do oponente você deve entrar.
Por um instante, Jarod sentiu-se exposto. Aquele senhor parecia conhecê-lo tão bem! Parecia até mesmo ler seus pensamentos!
- Cada um de nós possui quatro faces. Uma é a que mostramos, uma outra é a que é vista, uma é a que acreditamos ser a verdade, e a outra, é aquela que é a verdade. - disse Lo Si.
- Como o senhor sabe dessas coisas?
- Sou velho. Às vezes, sábio.
- O senhor também é sacerdote. - afirmou Jarod.
- Não o deixe lhe confundir, Jarod. - disse Peter, retornando. - Lo Si é Mestre. E sabe de uma coisa, ele pode até andar entre as paredes!
- Andar entre as paredes? - perguntou Jarod, intrigado.
- Eu não faço mais isso, jovem Caine. - comentou Lo Si. - Concentração muito difícil. Ancião ter receio de perder concentração em momento exato e ficar preso na parede.
Peter sorriu. Lo Si também podia ser engraçado às vezes.
- Seu pai chegou, eu ir agora. - declarou Lo Si.
- Até mais. - disse Jarod.
Antes mesmo que Kwai Chang Caine tivesse entrando pela porta, Lo Si já havia sentido sua presença. Telepatia? Adivinhação? Jarod estava impressionado com suas descobertas.
Assim que Kwai Chang Caine chegou em casa, guardou seu chapéu e sua bolsa calmamente, e olhou para suas visitas, curioso.
- Pap...Pai! Acho que o senhor já conhece o agente Jarod Holmes. - disse Peter.
- Sim, já o conheço. - respondeu Caine, cumprimentando-o.
- Olá, Sr. Caine. - disse Jarod. - Eu não sabia que o senhor era um sacerdote shaolin. Sinto-me honrado em encontrá-lo novamente.
- A honra é toda minha. - declarou Caine. De alguma maneira, Kwai Chang Caine sabia sobre os mistérios que cercavam aquele jovem. Ele pôde sentir que seu coração não era egoísta.
- Ouvi falar muito sobre o senhor. - comentou Jarod. - A senhora Smith chegou até a comentar que o senhor tem poderes.
- Alguns dizem que sou grande como se eu fosse algo especial. Sou apenas um homem. Não um bom homem. Não um homem mal. Mas, ambos. E se um homem vê um erro e não faz nada, como pode ele ainda ser chamado de homem? - disse Caine, pacientemente.
- Palavras sábias, Sr. Caine. - disse Jarod.
- A sabedoria consiste no Tao. Somos apenas instrumentos do incognoscível.
Caine era mesmo um homem extraordinário. Sábio em suas palavras, modesto em suas ações.
Peter estava bastante pensativo. O rapaz sentia-se inseguro toda vez que vinha conversar com seu pai sobre o misticismo da família Caine. Ele desviou seus olhos em direção as velas ao seu lado. Kwai Chang Caine era um sacerdote shaolin, mas ele não. Peter era um policial. Não importava o que os outros pensassem. O filho de Caine não perderia seu tempo com meditação, lutando contra sombras assassinas ou enfrentando espíritos da escuridão. Seu trabalho era mais real que isso. Mas, Peter também sabia que não adiantava negar. Aquelas coisas realmente existiam. Tantas foram as vezes que ele só queria ser capaz de não acreditar.
- Algo o perturba, meu filho? - disse Kwai Chang Caine, tocando-lhe a face carinhosamente.
Jarod sorriu comovido com o amor entre pai e filho. Caine não parecia um homem de muitas palavras, mas parecia amar muito Peter e demonstrava isso sem preocupação alguma.
- Não é nada, papá. - disse o detetive, um tanto arrependido de ter ido ali, afastando-se de seu toque.
Nada? Pensou Jarod. O rapaz quase desmaia na rua e talvez tenha tido uma visão! Bom, talvez fosse difícil para ele falar a respeito, uma vez que por mais de quinze anos, o detetive tenha ficado à parte do mundo de seu pai. Jarod pôs-se a pensar. E se quando ele encontrasse seu pai, também houvesse dificuldade para ambos se entenderem? E se fossem tão diferentes, conseguiriam recuperar o tempo perdido?
Peter andou de um lado para outro da sala, ainda pensativo. Caine apenas esperou o momento em que Peter decidiria falar.
- Posso sentir sua perturbação, meu filho. - disse ele. - Não permita que seus medos assombrem você. Eles são pequenos e sem conseqüências.
Peter respirou fundo e decidiu enfrentar seu medo de ser capaz de acreditar.
- Eu não sei o que é. Apenas vi algumas imagens em minha mente e acho que deve estar relacionado com o menino perdido.
- Você lembra o que viu? - perguntou Caine.
- Foi tão rápido. - respondeu Peter, franzindo as sobrancelhas, como se aquilo fosse capaz de apreender suas lembranças. - Havia árvores, terra. Não lembro mais. - disse. - O senhor pode me ajudar?
- Farei o possível.
- Papá, e se for tarde demais? - indagou o jovem Caine, receoso. - Senti tanto medo e dor na hora, que não sei se quero entender o que foi.
- Você não estará sozinho. Estarei com você, meu filho. - respondeu Caine, conduzindo-o até um colchão disposto no canto. Provavelmente para meditação.
- O que vai acontecer? - perguntou Jarod.
Caine ficou em silêncio por alguns segundos, procurando as palavras certas.
- Peter irá procurar a causa da perturbação de seu chi. - disse ele. - Não vai demorar. Você pode assistir. - completou.
Jarod estava extremamente curioso. Ele sentou-se o mais discreto que pôde numa cadeira e permaneceu em silêncio.
O detetive Caine parecia um tanto ansioso. O rapaz estava sentado em posição de lótus, mas não estava relaxado. Mestre Caine deu-lhe uma xícara de algum chá que o fez se acalmar e Peter fechou os olhos.
Kwai Chang Caine colocou a mão na testa de seu filho, até que repentinamente, Peter apresentou sinais de ter entrado em algum tipo de estado de transe.
Jarod ficou intrigado. Não foi como uma hipnose. A respiração de Peter ficara ritmada e profunda, mas ele não precisou de qualquer tipo de instrução para o fator hipnótico.
E, inusitadamente, o rapaz parecia infiltrado em outro mundo. Sua respiração tornou-se acelerada, e em sua mente, Peter conseguiu ver a seqüência de imagens que lhe afligia. Árvores, mato espesso, uma trilha de terra. Alguém corria assustado. Talvez numa floresta ou num bosque. Tropeçou numa pedra, caiu, levantou, caiu novamente. Peter podia sentir o medo e angústia no coração do menino.
Caine percebeu a horrível sensação de seu filho e disse, firmemente:
- Focalize, Peter. Concentre-se no lugar.
Peter obedeceu e prestou mais atenção a sua volta. Ele já estivera ali antes. Tentou reconhecer o lugar. E, inesperadamente, tudo escureceu e ele caiu desacordado no colchão.
- Ele está bem? - perguntou Jarod, aproximando-se.
Mestre Caine examinou seu filho com extremo cuidado e respondeu:
- Ele precisa descansar. Vai ficar bem.
- O que houve?
- Meu filho desconhece suas habilidades shaolins. Ele é muito sensível a vibrações negativas.
- Isso foi algum tipo de hipnose?
- Algum tipo. - respondeu Caine. - Através do chi, podemos perceber coisas que talvez não consigamos fisicamente. O ser humano é mais poderoso do que imagina. Poucos tentam entender a si mesmo.
- Mente, corpo e espírito. - disse Jarod.
- Exatamente. - disse Caine. - Você é um bom homem. Seu pai deve ter orgulho de você.
- Eu não conheci meu pai. - comentou Jarod, mansamente.
Caine apenas permaneceu em silêncio, fitando-o, esperando que ele continuasse a falar.
- Fui tirado da minha família quando criança. Não me lembro da minha casa ou de meus pais. - acrescentou Jarod, com pesar no seu tom de voz.
- Você ainda os ama?
- Sim. - respondeu.
- O lar não é um lugar. É um sentimento. É uma parte de você que não pode ser levada embora. - disse Caine. - Um dia você encontrará sua família e perceberá isso. - completou.
- O senhor acha que vou encontrar meus pais? - perguntou Jarod, demonstrando um pouco de euforia.
- Você acredita que vai encontrá-los?
- É o que mais quero nesse mundo. Saber quem sou.
Caine sorriu sutilmente.
- Pensei ter perdido o meu filho para sempre. - disse Caine, passando a vista no rapaz adormecido. - E, mesmo estando em confronto com a lógica, sempre acreditei que o encontraria novamente.
- O senhor teve fé.
Caine assentiu com a cabeça e disse:
- Se você acredita em algo verdadeiramente, não tem porque duvidar.
Jarod sorriu com o canto dos lábios.
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Pais sabem o melhor -
Parte4