Por Ruth dos Anjos  

Pais sabem o melhor - Parte 4

 

 O Centro, Blue Cover, Delaware

- Eu poderia beijá-lo, Broots! - disse a srta. Parker, entrando repentinamente.

- Poderia? - comentou Broots, surpreso, mas contente com a idéia.

A Srta. Parker viu a alegria estampada nos olhos do outro e disse, quase que instantaneamente, tornando seu semblante sério de costume:

- Mudei de opinião.

- Qual o motivo de tanta euforia Srta. Parker? - perguntou Sydney.

- O Sr. testosterona aqui. - disse ela, olhando para Broots. - Teve uma boa idéia.

- Jarod está mesmo em Chinatown? - perguntou Broots, ignorando o comentário.

- Fontes do Centro naquela localidade confirmaram a pista. Há um policial com as mesmas características do Jarod. - respondeu ela. - Policial... - comentou. - Jarod não cansa de bancar o bom samaritano.

E mais uma vez, Sydney encontrou-se num terrível dilema...

Ele queria que a pista estivesse certa, queria mesmo que Jarod voltasse para o Centro. Jarod era como se fosse seu filho e Sydney sentia falta da presença do rapaz. Mas, com certeza, voltar para o Centro não faria Jarod feliz. Sydney sabia disso e às vezes, achava melhor que o simulador fugitivo não entrasse mais em contato.

Jarod era esperto, muito esperto. Mas, o pessoal do Centro também era. Suas brincadeiras algum dia acabariam lhe traindo. Medir forças poderia proporcionar um empate ou alguém sair perdendo. Sydney temia por Jarod.

Momentos depois, a Srta. Parker, Sydney e Broots, juntamente com mais quatro varredores do Centro, estavam num dos jatos da organização a caminho de Chinatown. Jarod não costumava ficar muito tempo depois que deixava uma pista exposta. A Srta. Parker sabia disso e sabia também que Jarod sempre tinha uma carta na manga. Sempre estava um passo a frente dela.

__________________________________________________________________________________________

Com receio de prosseguir com seu plano e extremamente desconfiado, Donny Double D. aparece no 101º Distrito. O rapaz não era de entrar num lugar como aquele se não fosse obrigado, mas ele estava tão intrigado e porque não dizer, amedrontado, que achou necessário avisar pessoalmente a polícia.

A detetive Skalany surpreendeu-se quando o viu no departamento. Logo ele! Quando Donny avistava um carro da polícia vindo em sua direção, ele virava para a outra. Donny era o tipo de pessoa que estava sempre por dentro dos negócios das ruas, e se de repente, alguém o visse conversando com a polícia por livre e expontânea vontade? Traidor? Dedo-duro? Skalany não queria nem imaginar.

- Donny? O que houve? Algum problema? - perguntou a detetive Margaret Skalany.

Nitidamente apreensivo, o rapaz franzino olhou para a moça de cabelos longos e negros.

- Detetive Skalany, o Peter está por aqui? - perguntou hesitante.

- Não. Ele está numa investigação com o agente Holmes. - disse ela. - Aconteceu alguma coisa?

Apesar de parecer disposto a contar algo, Donny também estava com medo. Ele olhava a todo instante de um lado para o outro, como se estivesse sendo vigiado.

- Você disse Holmes, não foi?

- Foi. Por que?

- Não é nada. Depois eu falo com o Pete. - disse Donny, virando-se rapidamente, com o intuito de sair logo dali.

No entanto, ele foi barrado por um dos detetives que acabara de chegar de uma missão em outra cidade.

- Kermit! - cumprimentou Skalany. - Quando você chegou?

- Agora. - respondeu. - O que está havendo?

Donny preparou-se para correr, mas Kermit o segurou pela camisa.

Kermit Griffin era um sujeito alto, forte, conhecido por muitos como o comandante do grupo águia do deserto na Guerra do Golfo. Mas, ele nunca confirmou tal atuação. Donny já ouvira falar que ele foi um mercenário, juntamente com Paul Blaisdell, que os dois trabalharam para CIA, FBI e outras organizações do governo. Mas, como sempre, eram só boatos.

- O Donny queria falar algo com Peter. - disse Margaret.

- Alguma informação importante, Donny? - perguntou Kermit.

Donny engoliu em seco. Preferiu não responder.

- Eu não estou preso, estou? Então me deixe sair.

- Se você se deu o trabalho de vir até aqui, então não vai fazer questão de andar mais um pouco. - disse Kermit, arrastando-o ainda pela camisa até a sala ao lado. - O capitão está? - perguntou ele a Skalany.

- Está sim. - respondeu. - Kermit! Assim você vai acabar matando o Donny de susto! - comentou ela, sorrindo.

- O que foi que eu fiz? - perguntava Donny. - Eu não fiz nada! Eu não fiz nada! - repetia.

- Quem não deve, não teme. Se acalme homem. - disse Kermit.

Kermit abriu a porta da sala do capitão e encontrou Blaisdell bebendo água.

- Senhor. - cumprimentou Kermit.

- O que significa isso, detetive? Por que este indivíduo está em minha sala? - perguntou Blaisdell.

- Acabei de chegar de Oregon e encontrei o Donny procurando pelo detetive Caine. Como ele não está, achei que o Donny iria querer falar com o pai do detetive.

- Muito engraçado, Kermit. - comentou Donny.

Blaisdell sabia que Donny Double D. era um dos informantes de Peter. E se ele estava a procura dele, devia ser alguma coisa importante. Kermit também sabia disso e não deixou que ele fosse embora.

- Comece a falar. - ordenou o capitão.

Donny hesitou por um instante. Ele sabia que se não contasse tudo que deveria teria problemas com o capitão e com o detetive Griffin. Além do mais, com certeza não ganharia nenhuma recompensa pela informação...

- É sobre o parceiro do Pete. O tal Holmes. - resolveu dizer.

Kermit demonstrou desentendimento. Holmes? Pensou.

- O que tem ele? - insistiu Blaisdell.

- Ainda há pouco, fiquei sabendo que tinha dois sujeitos esquisitos atrás dele. Eles estavam armados e pareciam muito interessados em certifica-se de que o tal de Jarod estaria por aqui. 

- Jarod é do FBI, eles também devem ser. - disse Blaisdell.

- Se aqueles caras são do FBI, eu sou o reverendo da igreja. - comentou Donny. - Conheço caçadores de recompensa quando vejo um. E eles são.

 - Caçadores de recompensa? - indagou Kermit.

- Você é surdo? - disse Donny, aborrecido.  

 Kermit retirou seus óculos escuros e fitou o rapaz tão friamente que Donny tremeu de medo. O detetive Griffin raramente tirava seus óculos. Só em ocasiões especiais, quando estava zangado demais ou muito preocupado.

- Você tem certeza, Donny? - insistiu Blaisdell.

Donny apenas afirmou com a cabeça.

- Deixe-o ir, Kermit. - ordenou o capitão.

 O detetive obedeceu e disse:

- Mantenha-se longe de encrencas.

Donny saiu rapidamente sem sequer olhar para trás.

Blaisdell sentou-se na cadeira atrás de sua mesa, apanhou o currículo de Jarod Holmes, bastante pensativo, e disse:

- O agente Holmes me pareceu um bom sujeito. Sua ficha é excelente.  - comentou. - Mas, achei estranho que o FBI estivesse tão interessado no desaparecimento de um menino.

- O senhor está preocupado com o Peter. - disse Kermit. - Se Donny não o encontrou pelas ruas, Peter deve estar com Caine. - completou, tranqüilizando-o.

- Eu sei. - disse Blaisdell. - Kermit, veja se você descobre algo sobre... - dizia o capitão.

- Oh yeah... - interrompeu Kermit, antes mesmo que o capitão terminasse a frase.

Blaisdell sorriu. Kermit sempre fora o mesmo. Sempre um passo à frente.

Minutos depois, em frente ao terminal de seu computador, Kermit mascava um chiclete enquanto fazia algumas pesquisas. Ele não ligava para a fama de hacker que tinha, era verdade, fazer o quê? Se alguém poderia descobrir algum segredo pelo computador, esse alguém era Kermit. Sua especialidade depois de explosivos e espionagem...

No entanto, no diretório do FBI não havia mistério nenhum sobre o agente Holmes. Várias condecorações, honra ao mérito, resolveu todos os casos de seqüestros que investigou, blah, blah, blah, blah....

O detetive encontrou o número de telefone da irmã do agente Holmes e resolveu ligar.

Depois do telefonema, ficou um pouco desconfiado. A mulher parecia estar esperando a ligação...

Kermit lançou a foto de Jarod numa rede especial de informações que ele conhecia e ficou surpreso. O ex-mercenário retirou seus óculos escuros e leu com mais atenção o que acabara de descobrir.

Classificado. Assunto confidencial.

Não havia simplesmente nada relativo a fotografia.

Um agente secreto? Espião? Ex-mercenário? E se fosse tudo isso e muito mais? Pensou Kermit.

___________________________________________________________________________________________

Ainda num dos jatos do Centro, Broots dedilhava rapidamente o teclado do notebook. Parecia intrigado com alguma coisa.

- O que é Broots? - perguntou Sydney, percebendo sua aflição.

Broots coçou a cabeça, pensativo, e respondeu:

- Eu não sei Sydney. Tem alguém tentando acessar o diretório do Centro por vias secundárias.

- Como assim? Algum hacker?

- Se for realmente isso, é um dos bons. Pode ser o Jarod, mas não consigo rastrear a localização.

- E o que você encontrou nos arquivos da polícia? - perguntou a srta. Parker.

- Endereço do tal agente Holmes e o caso em que está trabalhando. E adivinha Srta. ? - disse ele.

- Não sou médium, Broots. - retrucou, séria.

- Desculpe. - declarou - É mesmo o nosso Jarod que está lá. - completou, mostrando a foto de Jarod no monitor.

Parker sorriu confiante. Talvez dessa vez, ela pudesse apanhar o Pretender fugitivo.

- Ele não é um charme? - comentou ela, olhando para a fotografia.

___________________________________________________________________________________________

Ainda na casa de Kwai Chang Caine, Jarod conversava e aprendia um pouco mais sobre a cultura chinesa, quando seu telefone celular tocou. O rapaz pediu licença e afastou-se para atender:

- Sim? - disse, assim que atendeu.

- Jarod? - perguntou a voz de mulher do outro lado da linha.

- Sim. Pode falar.

- Sou eu. Joyce!

- Olá Joyce? Tudo jóia?

- Está tudo ótimo, doutor! - respondeu Joyce. - Os filhotes da Pink estão lindos!

- Fico feliz em saber disso. Continue alimentando a Pink com a ração que indiquei, que ela terá bastante leite para todos os sete filhotes.

- O senhor é o melhor veterinário que já vi! Sem dizer que é bonitão também. - comentou a moça.

Jarod sorriu.

- Mas, não foi para isso que liguei. - declarou Joyce.

- O que houve?

- Um homem ligou aqui para casa perguntando sobre Jarod Holmes. Eu disse que era sua irmã, como foi combinado.

- Ele disse quem era?

- Hum... deixe-me lembrar... - dizia Joyce. - Sim! Um tal de Kermit Griffin.

Kermit Griffin? Pensou Jarod. Ele nunca ouvira falar desse nome antes. Quem seria? E por que estaria lhe procurando?

- Obrigado, Joyce. - disse Jarod. - Mas, se outra pessoa procurar por mim até o final da semana, continua como combinamos, certo?

- Claro! Pode deixar!

- Obrigado. - disse Jarod, desligando.

Estava escurecendo. A cortina da noite começava a cobrir o céu. Jarod estava muito preocupado com Joseph. Era um menino de apenas 10 anos de idade e já estava desaparecido há quatro dias. Jarod sentia-se muito mal com aquilo.

- Peter está acordando. - avisou Caine. - Talvez ele possa nos dizer onde Joseph está.

Jarod aproximou-se. A princípio, ele estranhou, pois o rapaz ainda estava inconsciente. Mas, estranhou mais ainda quando Peter Caine apresentou sinais de estar realmente despertando.

Jarod estava surpreso. Caine havia adivinhado? Havia sentido alguma vibração?

- Papá... - chamou Peter, ainda um tanto atordoado.

- Estou aqui, meu filho. - disse Caine. - Beba isso. - acrescentou, dando-lhe um pouco mais de chá. - Você irá se sentir melhor.

Pela careta que o rapaz fez ao tomar o chá, Jarod percebeu que era algum tipo de estimulante, talvez algum tipo de elixir.

Sentindo-se melhor, Peter sentou-se, tentando entender onde estava. Ele reconheceu a casa, fitou seu pai por alguns segundos e olhou para Jarod, e instantaneamente, lembrou-se:

- O garoto! - disse ele, exaltado.

- Calma, Peter. - disse Caine. - Calma. Está tudo bem agora. - completou, mansamente.

Peter parecia confuso. A visão, o sonho, não importa como se queira chamar, havia sido real. O detetive ainda estava com aquela imagem na cabeça. Medo, angústia, solidão. Por um instante, Peter lembrou-se da sensação de quando havia perdido seu pai há quinze anos.

- Você pôde ver onde Joseph está? - perguntou Jarod.

Enrubescido, Peter respondeu a pergunta com outra pergunta:

- E você acredita em visões?

- Aprendo rápido, jovem Caine. - disse Jarod.

Jarod sabia que a mente humana era capaz de muitas habilidades.

- Fale, Peter. - manifestou Kwai Chang Caine. - O que você viu?

- Joseph está com medo, cansado e sozinho. - declarou Peter.

Caine ouvia atentamente cada palavra que seu filho dizia. Mas, a tensão que seus olhos emanavam era mais expressiva do que qualquer palavra. Caine sentiu que Peter havia se identificado com o garoto.

- Onde, Peter? - insistiu Caine.

- Você falou sobre árvores, terra. - contou Jarod. - Pode ser uma floresta?

Peter forçou sua mente.

- Floresta... - repetiu, pensativo. - Diabos! Eu já estive lá! - disse, decepcionado por não se lembrar totalmente.

Jarod estava esperançoso.

- Há quanto tempo foi isso? - perguntou.

Peter permaneceu em silêncio por alguns segundos e disse:

- Um pouco depois da destruição do templo, quando eu ainda estava no orfanato.

Jarod sabia que aquelas deviam ser tristes lembranças.

- Eu costumava ir até lá para apanhar pedras, seixos, não sei ao certo. - continuou Peter.

- Seixos como esses? - indagou Jarod, retirando do bolso as pedras que encontrara no quarto de Joseph.

- Exatamente iguais. - respondeu. - Onde você encontrou?

- Na casa da senhora Smith.

Peter permaneceu olhando para aquelas pedras como se estivesse lembrando-se de algo. Caine percebeu e acrescentou:

- São pedras utilizadas para ornamentação de jardins zens.

- Uma pequena caixa com areia e alguns seixos dispostos simetricamente. - comentou Jarod.

Caine afirmou com a cabeça.

- Quando me sentia sozinho, eu ia até a floresta e ficava apanhando esses seixos. Eu me lembrava que o senhor costumava fazer esses jardins e ficar meditando horas e horas. - disse Peter, fitando seu pai. - Aquilo me fazia sentir que o senhor estava por perto e que eu não estava mais sozinho.

Caine deixou que um sorriso tristonho se formasse em seus lábios. Desde que encontrou seu filho, ele ficava cada dia mais orgulhoso dele. O rapaz havia conservado o seu sobrenome, embora tivesse sido adotado pelos Blaisdell, havia se tornado um homem bom, honesto, e apesar de um pouco confuso, devido as mudanças de vida na sua fase de crescimento, era o seu Peter de sempre. Às vezes, Kwai Chang Caine sentia-se um peixe fora d'água. Sentia-se não fazer mais parte do mundo de seu filho. Mas, quando Peter apresentava sinais de nunca o ter esquecido durante esses anos, seu coração enchia-se de alegria e tristeza ao mesmo tempo. Caine lamentava cada minuto que ficou distante de seu filho.

- Eu sempre estive com você, assim como você sempre esteve comigo. - disse Caine. - Aqui. - completou, levando a mão em seu coração.

Peter sorriu com o canto dos lábios.

Jarod sorriu comovido. O amor de um pai pelo filho foi até mesmo capaz de enfrentar a morte. Jarod percebeu que os quinze anos que eles passaram um distante do outro não havia abalado as raízes familiares.

- Acho que sei onde o garoto está. Não é muito longe daqui. Fica no lado norte da cidade. - disse Peter, levantando-se, calçando seus sapatos que seu pai havia retirado para maior comodidade.

- A reserva florestal. - afirmou Caine, olhando discretamente para a janela. Kwai Chang Caine sentiu uma presença.

Jarod também percebeu o vulto e foi verificar. Ele viu o mesmo sujeito asiático que estava no distrito policial sair correndo. E de relance, Jarod também avistou algo que o deixou desconfiado. Seu semblante transparecia preocupação. Jarod notou o carro negro sem identificação estacionado pelas imediações. Portas fechadas e janelas escuras impossibilitavam de se ver quem estaria dentro. E inusitadamente, o misterioso carro negro saiu vagarosamente, como se estivesse fazendo uma detalhada vistoria.

Jarod conhecia o sistema. Espionagem, averiguação, captura. O Centro não queria falhas e nem perder a oportunidade. Jarod arrepiou-se com a possibilidade de retornar ao Centro. Eles estavam perto, bastante perto.

- Algo o perturba? - perguntou Caine, notando a preocupação estampada em sua face.

- Está escurecendo. A floresta é um lugar perigoso à noite, especialmente para uma criança. - disse Jarod, disfarçando, mas sem simulação alguma.

- Acho que deixei algumas lanternas por aqui. - comentou Peter. - Onde estão, Papá?

- No armário da cozinha.

Peter Caine foi rapidamente apanhá-las.

- Com licença, Sr. Caine. - disse Jarod, afastando-se com o celular em mãos.

Jarod fez a ligação e escutou a voz do outro lado da linha:

- Sydney falando.

- Olá, Syd.

- Jarod... - disse com a voz curiosa. - Você está bem? - perguntou, como se tivesse algo a dizer, mas que insistia em esconder.

- O melhor que posso. - respondeu. - Acho que Miss Parker ouviu o Broots dessa vez. - disse.

Sydney percebeu que Jarod já sabia que estavam a caminho.

- Ela está fazendo isso cada vez mais, Jarod.

Jarod desligou o telefone.

___________________________________________________________________________________________

Pais sabem o melhor - Parte5

Home - Fanfics

Hosted by www.Geocities.ws

1