ObjetivismoBR
Metafísica Objetivista
A construção filosófica de Ayn Rand começa por responder questões sobre a natureza do universo em que vivemos. Alguém pode se perguntar se esse papel já não é desempenhado pela "ciência". A resposta é sim, mas apenas parcialmente. A pesquisa científica procura desvendar os mistérios do passado do universo, da origem e dos mecanismos da vida, da estrutura e do comportamento da matéria e tantos outros campos, cada um com suas comunidades de especialistas. Existem questões, entretanto, com as quais a ciência nunca, ou quase nunca, se ocupa, mas que brotam naturalmente na mente de qualquer pessoa que pare para refletir sobre sua própria existência e sobre o mundo em que vive. A lista abaixo se encontra no livro "Thinking Things Trough", de Clarck Glymour:
| Há algum motivo para a existência? (ou, segundo Caetano Veloso, "Existirmos, a que será que se destina?") | |
| Como se pode saber se existem mesmo as partículas sub-atômicas? | |
| O que constitui um explicação científica? | |
| Como se pode saber se o processo científico conduz à verdade? | |
| Há uma verdade ou há tantas quantas mentes houver? | |
| Como se pode saber se existem mesmo outras mentes? | |
| Há limites para o conhecimento? | |
| O que é uma prova? | |
| O que significa "impossível"? | |
| O que é preciso para que uma crença seja racional? |
Ainda segundo Glymour, "são questões que têm algo a ver com física e psicologia (ou com matemática e lingüística), mas que não são tratadas em livros dessas matérias. São normalmente ignoradas, ou então respondidas mais ou menos sem argumentos. São questões tão vagas, ou gerais, que não se sabe como conduzir experimentos, ou observações sistemáticas para procurar suas respostas.(...) A filosofia tem estoques de respostas para esse tipo de questionamento; algumas são obscuras, incoerentes, conflitantes ou inconsistentes; outras são trabalhadas com suficiente precisão e completeza para serem chamadas de teorias; algumas se tornam tão fortes e frutíferas que se transformam em fundações de disciplinas científicas inteiras, entram em nossa cultura, nossa ciência, nossa política e guiam nossas vidas".
O estudo dessas questões que vão além da física é conhecido como Metafísica. A metafísica é o ramo da filosofia que estuda a existência. Ela diz ao homem em que tipo de mundo ele vive. Cabem, agora, algumas questões propostas por Ayn Rand:
| O universo é regido por leis naturais estáveis, firmes, absolutas e cognoscíveis... ou o universo é um caos incompreensível, um reino de milagres inexplicáveis, imprevisíveis, incognoscíveis - que a mente humana é incapaz de compreender? | |
| As coisas à sua volta são reais... ou as coisas à sua volta são uma ilusão? | |
| As coisas existem independentemente de um observador... ou as coisas são criadas pelo observador? | |
| As coisas são o "alvo" da consciência... ou as coisas são a própria consciência? | |
| As coisas são o que são... ou as coisas podem ser mudadas conforme a vontade? |
As primeiras opções são as objetivistas, mas as respostas a essas perguntas não podem ser comprovadas nem desmentidas. Cada um faz suas escolhas com base em suas convicções religiosas ou ideológicas, seu conhecimento científico, sua experiência, etc. Algumas dessas perguntas, entretanto, conduzem a falácias: se por um lado não se pode provar que as coisas à sua volta são reais, deve-se lembrar que o conceito de prova pressupõe a existência da realidade. Alguém precisa existir para provar algo (relativo à realidade) a outro alguém (também existente). Esta é uma falácia do tipo Conceito Roubado, que se caracteriza pelo uso de um conceito para provar que o próprio conceito não existe, ou é falso.
Você pode saber mais sobre os diversos tipos de falácia visitando a página "Falácias".
Embora sejam extremamente abstratas e, à primeira vista, tenham pouca aplicação no dia a dia, essas escolhas podem determinar o tipo de ação e a perspectiva de vida de uma pessoa.
A Metafísica Objetivista é tema de diversos livros (infelizmente muito poucos em português) que a tratam em diversos graus de profundidade. Neste texto não se pretende tratá-la mais que superficialmente e, para tanto, pinçaram-se algumas definições provocativas e estratégicas para mostrar qual é a visão objetivista do mundo:
| Universo: O universo é tudo que existe. Obviamente, portanto, não pode haver algo que seja a "causa" do universo. O universo é infinito? Não. Tudo que existe é finito, inclusive o universo. O que está fora do universo, já que ele é finito? Pergunta inválida! "Fora do universo" é uma afirmação desprovida de referência. Não pode haver algo lá fora, porque não existe "lá fora". (Leonard Peikoff) |
Sobre isto é interessante lembrar uma comparação feita por Carl Sagan, na série televisiva "Cosmos", que pode ajudar a aceitar a idéia de um universo finito: Imaginem-se seres cuja mente só compreendesse largura e comprimento. Estes seres não teriam qualquer sentido que lhes proporcionasse o sentido da altura. O espaço, para estes seres, seria bidimensional. Imagine-se, também, que estes seres vivessem na superfície de uma esfera imensuravelmente grande para seus padrões e cuja curvatura fosse totalmente imperceptível para eles (como se fossem vírus vivendo sobre a superfície de uma bola de futebol). Ora, para estes seres, que só entendem duas dimensões, seria mais fácil aceitar que seu universo (a bola) é infinito, porque eles jamais vão encontrar "o fim" da bola, por mais que viagem sobre ela. Entretanto, a bola é efetivamente finita. A sugestão de Sagan é que possamos ser uma versão tridimensional destes seres e que não possamos compreender uma eventual quarta dimensão.
| Espaço: O espaço, assim como o tempo, é um conceito relacional. Não designa uma entidade, mas um relacionamento entre entidades. Não faz sentido perguntar onde é o universo, porque (sendo o universo tudo que existe), lugares existem no universo e não o contrário . (Leonard Peikoff) | |
| Tempo: O tempo é uma medida de movimento e só se aplica quando se define um padrão (o giro da Terra ao redor do Sol, por exemplo). Quando se pensa no universo como um todo, obviamente nenhum padrão pode ser usado. Não se pode ir para fora do universo e portanto ele é eterno no sentido literal do termo. É não-temporal, é fora do tempo . (Leonard Peikoff). | |
| Criação: O termo criação só faz sentido se significar o trazer à existência um nova combinação de elementos que não existisse antes. Criar não pode significar o poder de trazer algo à existência a partir do nada. Isto se aplica a tudo. Mesmo a imaginação nada mais é que um rearranjo das coisas observadas na realidade . (Ayn Rand) |
O universo, portanto, nunca foi criado.
| Deus: Existir é ter identidade e ninguém diz qual é a identidade de deus. Eles ficam dizendo o que deus não é, mas nunca dizem o que ele é. Deus é algo que nenhum humano pode conhecer ó e afirmam que isto é conhecimento. Deus é o que o homem não é; o paraíso é o que a terra não é; a alma, o que não é o corpo; a virtude, o que não é benefício; percepção, o que não é sensorial; conhecimento, o que não é razão; A, o que não é A. Estas definições não são atos de definir, mas de fugir. (Ayn Rand) |
Coerentemente com sua metafísica (e com a epistemologia, que será vista em seguida), o objetivismo é ateu.
O objetivismo rejeita toda dimensão, força, forma, idéia, entidade ou poder "espiritual", de existência transcendente.
O objetivismo aceita a realidade, apenas a realidade.
A metafísica objetivista parte do axioma de que a realidade existe, independentemente da observação do homem, de seus sentimentos, desejos, esperanças ou medos.
Existir, por sua vez, significa necessariamente existir com características distintivas, natureza e atributos específicos. Daí a sentença: A é A, que significa que, independentemente de que se tenha consciência disto, uma coisa é o que ela é (e não pode ser sua própria negação ou o contrário de si mesma).
Ora, se existência implica em identidade, para haver identificação deve haver consciência. Isto leva ao segundo ramo da filosofia: a Epistemologia, que é conseqüência da Metafísica.
