| -me num mosteiro beneditino perdido no meio das montanhas. Ainda me lembro perfeitamente do dia em que l� cheguei e da raiva que senti por ele. Nesse dia, com a inoc�ncia dos meus doze anos, jurei perante todos os monges ali presentes vingar-me por tudo aquilo que me estava a fazer. Mal sabia eu... Durante doze anos ali permaneci, e nesses doze anos conspirei. O fogo da vingan�a que existia em mim passou a gelo. Com muita paci�ncia tracei os dias fat�dicos do tirano, movendo a popula��o contra ele pelos boatos que transmitia aos mercadores que encontrava durante as minhas fugas, e pela chantagem que fazia ao seu chefe da guarda. Conhecia todas as concubinas dele, e, por elas, sabia o que ele fazia. A pouco e pouco consegui fazer com que todos o tomassem por um louco, at� que a minha irm� (que tinha tratado de mim depois da morte da nossa m�e no meu parto) apareceu para reclamar a posse da terra em meu favor. O tirano riu-se de in�cio, mas logo espumou de f�ria quando viu que ningu�m da sua casa o apoiava. Esse foi o dia que eu mais ansiava. Esse foi o seu �ltimo dia... e o meu tamb�m. H� muito que estava a ser observado. Das sombras do mosteiro algu�m me espiava e registava cada passo da minha vingan�a. Julgava eu que era uma pessoa afortunada quando consegui escapar a salteadores que me perseguiam, ou quando um assassino a soldo do meu irm�o n�o conseguiu os seus intentos por escorregar de um muro e ter partido o pesco�o antes de me alvejar com uma besta. Mas afinal nada disto teve a ver com a sorte. De facto, desde o primeiro ano que via sombras estranhas passeando-se no mosteiro pela noite. Todas as minhas d�vidas foram aclaradas a partir desse fat�dico dia. Lando diCarlo era o verdadeiro senhor do mosteiro. Controlava-o a partir das sombras da noite com a ajuda dos seus servos. Foi ele que me trouxe para um novo mundo dentro deste mundo. Foi ele que me ensinou o poder das sombras. Muito aprendi no mosteiro. Sempre consegui furtar-me aos votos: ou fugia, ou escondia-me, ou fazia-me passar por doente com a ajuda de po��es que inventava com as ervas que recolhia nas minhas sa�das. Mais aprendi desde ent�o. O meu senhor e "pai" Lando foi o meu tutor nos primeiros anos da minha exist�ncia cainite, mas logo fui enviado para Avignon, onde servi o ilustre D'Almas, que me instruiu na pr�tica sobre os principais procedimentos de um cainite Lasombra, bem como nas Seis Tradi��es. Sessenta anos depois estava pronto para enfrentar o mundo, pelo menos achava eu. Uma coisa era ver como se faz, outra era eu pr�prio a fazer, e muito tive ainda de aprender nas estradas da Europa. Foi um mundo diferente com que me deparei! Uma sociedade baseada na lei do mais forte e do mais capaz. Ser um "amaldi�oado" da noite n�o � f�cil. Os mais novos t�m de aprender a viver sem o abra�o quente e terno do Sol. Agora � o pr�prio que nos persegue em nome de Deus, nosso Senhor. O seu abra�o agora queima como o fogo, aquele que purifica os hereges e os seguidores do inomin�vel senhor das trevas. Das trevas, mas n�o da noite! Trazemos no nosso sangue o mal que Caim fez ao ter assassinado Abel, e � esse o mal que o Sol procura purificar com o seu calor. Que saudades tenho do nascer do dia no mosteiro! Quando os bra�os do sol se estiravam por entre as montanhas alpinas, como virgens vestidas, e iam ao meu encontro para me desejarem um bom dia. Ah! Eram outros tempos! Tempos onde a minha ignor�ncia sobre o mundo me davam uma sensa��o de seguran�a... e uma certa felicidade! Mas quis Deus, Nosso Pai, dar-me uma miss�o. Uma miss�o de sacrif�cio e de morte. Primeiro pensei que ser imortal era um privil�gio, uma ben��o que Nosso Senhor me tinha dado. Mas agora entendo que foi um sacrif�cio necess�rio para que os Seus Des�gnios se cumpram em mim: morrer para o dia para viver para a noite! E que se fa�a em mim a Sua Vontade! Aprendi muito nos primeiros anos, por entre as sombras da noite. As mesmas que me assustavam quando era "vivo" s�o agora as que me protegem e que ocultam a vergonha da maldi��o que corre no meu sangue. Era estranho, este novo mundo. Antigo e muito estranho. Os vampyr (como somos conhecidos na regi�o dos C�rpatos) existem desde o primeiro momento que o Homem pisou esta terra e desde que o dia � dia e a noite � noite. Deus deu ao Homem o controle sobre todas as coisas vivas da terra e a pr�pria terra. A n�s foi-nos dado o controle sobre o Homem. Se o Homem � o maior predador, os vampyr s�o os predadores do Homem. O que � que nos impede de destruirmos e de escravizarmos o Homem? A resposta est� entre as �ltimas e as primeiras horas da noite. Eles s�o mais e s�o ignorantes. N�s somos menos, apesar de poderosos, e n�o somos unidos. No total s�o 13 os cl�s de vampyr e desde sempre que se travaram aut�nticas guerras entre eles pelo controle de algum reino mortal. Guerras essas que muitas vezes s�o os pr�prios mortais a trav�-las e a morrer nelas. N�o podemos revelar a nossa condi��o com o risco do Homem nos perseguir e nos destruir sem d� nem piedade. A desuni�o que existe entre os cl�s seria o suficiente para o Homem conseguir os seus intentos. A M�scara � ent�o muito importante. E quem a por em causa � pura e simplesmente perseguido e destru�do. Essa � uma das Tradi��es. S�o seis as Tradi��es. Em resumo, s�o um c�digo sucinto de conduta entre cainites. Existem desde sempre e devem ser cumpridas a rigor. Qualquer deslize e ser� a �morte final�. Pois... n�s os �imortais� n�o somos imortais de todo. Existem maneiras de nos destru�rem... |
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| " Escrevo esta nova cr�nica para reorganizar todos os acontecimentos passados que presenciei. Durante a minha curta exist�ncia como cainite (ou filho de Caim) passei por v�rias prova��es, presenciei acontecimentos hist�ricos e participei em epis�dios terr�ficos, repletos dos pormenores mais monstruosos que algu�m mortal possa imaginar. Espero que estas p�ginas, que n�o passam de um comp�ndio resumido do que tenho observado, possa ser o testemunho daquilo que presenciei e que sirva de li��o e exemplo aos que as lerem. Caso os olhos que passam por estas palavras sejam os de um mortal, esse que fique desde j� prevenido que a sua exist�ncia como tal ser� breve, pois, a maior parte dos factos aqui revelados lhe est�o vedados. J� pouco me lembro da minha dif�cil exist�ncia mortal. Era o terceiro filho de um senhor de uma pequena localidade nos Alpes na pen�nsula italiana cujo nome n�o me quero lembrar. Quando o meu pai morreu tinha eu 10 anos. O meu irm�o mais velho ficou ent�o com o seu dom�nio, tratando logo de evitar poss�veis confrontos fraternos pela terra, fazendo casar a minha irm� e metendo- |
| Christian diCarlo |
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