O Milagre da Vida. O ciclo humano é muito simples: o Homem nasce, cresce, vive, reproduz-se e morre. Cinco etapas únicas cuja importância ele sente aumentar com o aproximar daquela última, a morte. Este é o percurso que a maioria das pessoas toma por certo e infalível. Mas será que o milagre da Vida se resume a isso? Haverá algum sentido para cada Ser Humano passar por todas essas fases, tendo até por vezes vidas extremamente duras e mortes horríveis? Na verdade o que o Homem tem de realmente certo é o seu nascimento e a sua morte, entendendo como nascimento o momento da concepção. O que se passa entre ambos os acontecimentos é que varia em tempo e espaço de uma forma única para cada um e representa o cerne da sua experiência. É no decorrer desse tempo que ele experimenta o mundo, aprende e apreende o que o rodeia, sente, interage, se auto-constrói e se desenvolve, para chegar a um dado momento da sua vida e desaparecer da face do planeta, assim se perdendo todo um esforço, toda uma construção... Todo um Ser. Será...? A Revelação. Para quem acredita num Deus não será muito difícil aceitar o que vou dizer a seguir, é talvez a maior revelação e fonte de discórdias de entre tudo o que direi depois, mas a sua enunciação torna-se necessária neste momento para poder explicar tudo o resto. Ora então aqui vai: A Vida não acaba com a morte. Se acha esta afirmação ridícula mais vale dissuadir-se de ler mais, mas se levar a sério esta possibilidade verá que tudo fará sentido mais tarde. Para começar, vamos pensar no porquê de existirmos. Afinal por que razão estamos na terra, envergando corpos tão limitadores e frágeis? Uma das perspectivas que mais me agrada vem directamente do livro de Neale Walsch Conversas com Deus, segundo o qual Deus é uma entidade cósmica, da qual todos nós fazemos parte. Só que em determinado momento parte dessa entidade sentiu necessidade de experimentar a matéria, criando instabilidade. Assim, separou-se da entidade principal e desceu ao nosso planeta, encarnando em corpos físicos e mortais suficientemente terrenos para poderem experimentar o mundo físico e material. A terra teria pois sido criada pela própria entidade, ou Deus, para permitir aos seus filhos a segurança e a possibilidade para realizar o seu desejo e depois voltar à união primitiva. Esta é apenas uma teoria que achei plausível, mas não nos vamos concentrar muito nela pois o que realmente importa não é o começo, mas sim o percurso que lhe segue. Independentemente da forma como aparecemos, uma coisa surge em comum seja com esta teoria seja com a maioria das religiões: O mesmo Deus que nos criou quer-nos de volta. Seja ao pé dele, por sermos seus filhos (a acreditar na religião) seja dentro dele, por dele fazer-mos parte (acreditando na teoria de Neale Walsch). O que importa realçar é que uma vez na terra o Homem perdeu-se, agarrou-se de tal maneira aos bens materiais que esqueceu os seus valores originais de paz, amor e justiça. Quando era suposto ele apenas experimentar a realidade física, ele acabou por trocá-la em detrimento da realidade espiritual. Matando, roubando, destruindo ele só se afastou de Deus, seu pai e seu criador... Um Ser perfeito que viu os seus filhos tornarem-se tão imperfeitos. O afastamento do nosso Deus foi de tal magnitude que perdemos a noção muito importante da temporalidade da felicidade que adquirimos na terra. Isto é, colocámos o foco da nossa felicidade em objectos e até mesmo pessoas, de cuja posse e usufruto depende o nosso bem-estar, esquecendo-nos de que tudo isso é transitório, temporário. Refiro-me a objectos como casas, carros, dinheiro, buscando uma estabilidade terrena que não passa de uma ilusão passível de desaparecer de um momento para o outro dada a precariedade da vida humana. Refiro-me, também, a relações obsessivas que obnubilam a mente do Homem levando-o a agir de formas egoístas e até doentias. Ganhámos medos e dependências. Tudo isto transformou o Homem num autêntico autómato (1), prisioneiro do mundo e da sociedade. Ele tornou-se num dependente do mundano, buscando por aquilo que pensa lhe trazer felicidade mas sem reparar que é manipulado pela sociedade, agindo em conformidade com valores sociais e não com os seus. Dependente de rotinas, distorcendo a sua personalidade, esquecendo-se e distanciando-se impressionantemente daquilo que realmente é: um ser de luz, indiferente a tudo o que seja material; um ser eterno cuja felicidade reside no facto de não precisar de nada, de nada temer e de poder partilhar a única coisa que detém - o amor. Portanto, sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste (Mateus 5:48). Em busca da Perfeição. Como remediar tudo isto para regressar às origens e recuperar o verdadeiro sentido da nossa existência? Simplesmente vivendo e aprendendo. Passando por todas as situações possíveis e necessárias para que reaprendamos que a verdadeira felicidade está em amar e partilhar, pois afinal de contas somos todos irmãos pois descendemos do mesmo Pai. No dia em que cada um perceber isso e viver verdadeiramente de acordo com esses valores deixará de haver fome, miséria, crime, guerra, competitividade, egoísmo e reinará a generosidade, a bondade e a igualdade. Teremos atingido a perfeição e estaremos prontos para regressar ao nosso Pai. Parece uma tarefa fácil, pode até parecer que muitos de nós vivemos já dessa forma. Acredito que todos percebamos o que acabei de dizer, mas será que o demonstramos diariamente nas nossas acções? Será que vivemos realmente uns para os outros? Não, não creio. Cada pessoa encontra-se num estado de evolução diferente e são necessárias várias vidas recheadas de experiências diversas para a fazer subir mais um degrau na escada da evolução espiritual. Em verdade te digo: quem não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus. (João: 3:3). Como é que isto se processa? Durante cada vida dispomos apenas das memórias que vamos adquirindo ao longo desse tempo, memórias resultantes das experiências actuais. No entanto, há todo um conjunto de memórias armazenadas no nosso inconsciente que foram adquiridas em vidas passadas e que de forma inconsciente influenciam a nossa personalidade, bem como as escolhas que fazemos na vida actual e as reacções que possamos apresentar relativamente a determinado fenómeno. Por exemplo, imaginemos um homem que passa uma vida inteira a trabalhar em vários sítios para reunir dinheiro para construir uma grande casa, sacrificando durante largos anos a sua vida familiar. Um dia até reúne as condições para a construir e sucede uma fatalidade, a morte da sua mulher. Este homem compreende então, da pior forma, que a sua felicidade dependia mais da esposa que perdeu do que da casa que idealizou, e esta não lhe trás qualquer contentamento. Ora, esta experiência, apesar de ser negativa serviu para aquele homem reformular o seu sistema de prioridades e valorizações. Numa vida posterior, em princípio, ele não voltará a ter o mesmo tipo de atitude, portanto, evoluiu. Infelizmente nem tudo se passa de forma linear, há pessoas que precisam de ensinamentos mais leves, outras de ensinamentos mais pesados. Tais ensinamentos são entendidos erroneamente pelos afectados como injustiças, como se Deus se tivesse esquecido deles. Na verdade Deus lembra-se de nós e é por isso que nos põe à prova desta forma, incitando-nos a mudar, a aperfeiçoarmo-nos, para dele nos aproximarmos. O que estou a tentar explicar é o seguinte: nada acontece por acontecer. Tudo tem uma razão de ser. Desde as injustiças sociais, às doenças, mortes, despedimentos e até mesmo riquezas absurdas. São todas elas situações necessárias à evolução de cada pessoa que por elas passa, em busca da perfeição. Então e o Destino? Na realidade o destino existe mesmo, mas de uma forma relativa. Passo a explicar, enquanto um ser deve aprender determinadas lições de vida bem específicas, podemos falar de destino. Mas a forma como as aprende pode variar de acordo com a sua livre escolha, ou livre arbítrio, talvez a única faculdade que não nos é imposta. Aliás, esse livre arbítrio começa com a morte. Quando morremos, há uma tomada de consciência em que o nosso Eu desenvolvido na vida que terminou encontra-se com o Eu verdadeiro onde residem todas as memórias de vidas passadas, bem como as memórias anteriores às nossas vidas terrenas e que no fundo se encontra escondido em nós toda uma vida, todas as vidas, ele pode ser entendido como a nossa Alma. Acontece literalmente uma tomada de consciência em que nos é possível rever a nossa evolução, se melhorámos ou piorámos na vida que findou, que aspectos devemos melhorar na vida que vai começar e em que condições devemos nascer para que tais melhoramentos aconteçam. É, portanto, durante a morte que escolhemos o local em que vamos nascer, as pessoas que se cruzarão connosco, o nosso estrato social, a nossa condição física, entre muitas outras variáveis. Assim, podemos entender a morte não só como uma passagem para a vida seguinte mas também como um marco, uma altura de reflexão em que temos acesso a tudo aquilo que somos, acesso ao nosso Eu Superior. Conceito amplamente difundido nos livros de Alexandra Solnado e também nos Evangelhos, se bem que de forma muito subtil já que naquele tempo as mentalidades não estavam preparadas para entender tal concepção É por isso que lhes falo em parábolas: pois vêem, sem ver e ouvem, sem ouvir nem compreender (Mateus 13:13). No entanto no Evangelho apócrifo de Tomé esse conceito aparece bastante explícito com a designação aquele que é vivo (2). O conceito de Déjà-vu, sensação de já termos vivido ou sonhado determinado momento (que dura por vezes alguns segundos) exactamente da mesma forma que se está a vivenciar naquela altura, adquire uma lógica especial neste contexto. O Déjà-vu, pode muito bem ser um ajuste de realidade exercido pelo nosso Eu superior, que nos força, por alguma razão, a actuar de determinada forma e a sensação de já termos vivido aquele momento advenha de uma espécie de programação ou indução feita anteriormente pelo nosso inconsciente / Eu Superior. Existe um outro tipo de Déjà-vu que consiste em termos a certeza de que conhecemos uma determinada pessoa sem nunca a termos visto antes, ou que já estivemos num dado local apesar de ser a primeira vez que ali estamos. Na realidade isso pode muito bem ter já acontecido, mas numa vida anterior e que, por alguma razão que apenas o nosso inconsciente sabe, fomos induzidos a repetir. (1)Este Jesus Cristo que vos fala, pag. 85, Vol. II. (2)"O Evangelho segundo Tomé, pag. 67, lógion 59. |