Ao som das pedras do moinho

“Hoje gosto e estou cá por amor à arte” disse Júlio Ferreira, um homem criado em Serpins, com uma longa história de vida, desde pequeno habituado a trabalhar no moinho com o seu pai,
Nos dias de hoje considera que esta profissão é uma arte para a qual afirma que é necessário “ter paciência e gosto”.
Aos 62 anos pode-se dizer que Júlio Ferreira passou por muito na vida. Começando logo pelos seus belos 20 anos, altura em que foi para a tropa, mas o seu pai continuou a labuta do dia a dia no moinho. Sem regressar à terra natal, foi para a Guiné onde se manteve durante cerca de dois anos.
Na sua permanência na guerra do Ultramar, Júlio ficou contagiado por umadas mais graves doenças daquela zona, chamada paludismo.
Em 1965 retorna a Portugal, encontra o pai ainda a trabalhar como moleiro, uma vez que toda a sua vida foi dedicada a esta profissão.

Após o seu regresso da guerra e não tendo onde trabalhar, foi informado de que na altura a Câmara Municipal da Lousã estava com inscrições abertas, para ocupar o lugar de cantoneiro, trabalho que conseguiu e efectuou durante seis anos. Passado esse tempo, optou por ir trabalhar para a Alemanha uma vez que estavam a aceitar portugueses para efectuar trabalhos na construção civil.
Quando para lá foi, deixou em Portugal um pedido de trabalho na Fábrica do Papel do Boque, em Serpins, recebendo uma resposta passados sete anos de estar na Alemanha.
Neste vaivém de luta pela vida, Júlio Ferreira, para além de trabalhar na fábrica, ainda conseguia ajudar o pai que na altura se encontrava doente, mostrando-se impossibilitado de auxiliar no moinho.
Esta ajuda nas horas vagas durou cerca de 12 anos, conciliando o trabalho da fábrica com o trabalho do moinho. Mas a fábrica encerrou e Júlio Ferreira ficou no desemprego com 45 anos de idade.

A partir desse momento, Júlio começou a pensar no que iria fazer daí para diante. Uma hipótese que ponderou foi passar a ser ele a tratar do moinho. Após uma longa conversa com o seu pai, concluíram que sendo este o trabalho que sempre gostou Júlio de fazer, ficou, assim, a trabalhar por conta própria, pagando um aluguer de dois contos por mês ao pai, mas confessou que era muito difícil porque o dinheiro era pouco e tinha três filhos para criar.
Por intermédio do filho mais velho conseguiu ir para o Canadá, tendo de imediato surgido uma proposta de trabalho que aceitou, e aproveitou para levar os seus dois filhos, ficando sete anos por lá.  

De regresso a Portugal

“Nós somos quatro irmãos e todos temos uma arte. O mais velho era carpinteiro, o segundo alfaiate e o outro electricista. A mim foi-me prometida a arte do moinho.”
No tempo que passou lá fora, quem ficou a cuidar do rnoinho foi o seu irmão que era alfaiate. No entanto, ele não tinha gosto, nem paciência para este trabalho, tanto que quando Júlio chegou do Canadá o moinho estava praticamente parado, pois o irmão já não tinha milho para moer, nem fregueses para atender. Mas Júlio conseguiu salvar a situação, porque só ele sabia a arte do bem fazer.
Por conhecimento próprio, Júlio revelou que, para além de actualmente estar apenas um moinho em funcionamento, ainda havia mais sete, encontrando-se inutilizados nos dias de hoje. De todos estes que se encontram inutilizados, um deles foi reconstruído, em Serpins, para um bar, que pertence a um dos seus filhos.

Relembrou que “antigamente, o meio de transporte que utilizava para vender os taleigos da farinha era uma carroça puxada por uma burra. O percurso que fazia era muito longo para a velocidade que o animal tinha e foi então que resolvi usar um tractor”. Para realizar este trabalho nos tempos que decorrem usufrui de uma carrinha.
O moleiro referiu que antes do moinho pertencer à sua família, ninguém era capaz de explicar quem era o dono. Mas os mais antigos dizem que pertencia a um padre residente na nossa freguesia.
Confessou à Voz de Serpins que hoje o moinho não dá praticamente nada, que quem ainda vai comprando são os padeiros. Lembrou ainda que no tempo do seu pai eram quatro burros no transporte dos taleigos e que o moinho se encontrava sempre repleto de sacos de milho para moer.
A data de reconstrução do moinho ainda está inscrita na parede, remetendo para o ano de 1923.

Hélia e. Sandra
A Voz de Serpins
, Lousã, 31-01-2005

 

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