Serpins
Situada nas margens do rio Ceira, a cerca de 9 quilómetros da vila da Lousã, a freguesia de Serpins é um dos mais antigos aglomerados populacionais do concelho. Apesar de no início da nacionalidade a paróquia de Santa Maria de Serpins integrar o Mosteiro de Lorvão, o povoamento da freguesia parece ser bem anterior a essa data.
Com efeito, já em documentos datados de 943 Serpins aparece classificada como uma "vila" rústica [mencionada no] território do Castelo de Arouce, e pertencendo metade dela a Zoleiman Abaiub e a outra metade, muito possivelmente, aos antepassados do conde Gonçalo Monis. Há no entanto quem defenda que a povoação daquele território remonta à época romana.
Serpins foi vila e sede de concelho, extinto com a reforma de 1836. A 27 de Fevereiro de 1514 teve foral dado por D. Manuel I, existindo ainda na freguesia o Pelourinho monumento nacional que, apesar de reconstruído há algumas décadas, mostra ainda o escudo nacional típico do século XVI.
São conhecidas as lutas do povo de Serpins, nomeadamente as lutas travadas em meados do século para reaver o usufruto dos baldios da freguesia. A determinada altura a Câmara Municipal da Lousã apoderou-se dos baldios que havia em Serpins, e fez negócios com alguns indivíduos para que reflorestassem e explorassem as matas. A população não gostou, revoltou-se, lutou pelos seus direitos e conseguiu reaver o usufruto dos terrenos, hoje na sua totalidade sob a tutela da Junta de Freguesia.
Mas o acontecimento que marcou definitivamente a vida de Serpins foi o surgimento do caminho de ferro. O Ramal da Lousã, projectado inicialmente para servir concelhos vizinhos, chegou a Serpins numa segunda fase e proporcionou que algumas indústrias se desenvolvessem na freguesia.
Foi exemplo desse desenvolvimento a Fábrica de Papel do Boque, que entrou em decadência nos anos 80/90 do século XX e onde funcionou a primeira máquina de fazer papél contínuo que houve em Portugal e, mais recentemente, uma grande fábrica de material eléctrico, que dá emprego a cerca do 260 trabalhadores. Para além da estabilização de emprego, uma das grandes preocupações do poder autárquico é o bem estar da população. Os acessos estão hoje bastante melhorados, algumas ligações de esgotos encontram-se concluídas, e o posto médico e o centro do dia vão ter novas instalações.
Outra das reivindicações dos serpinenses foi recentemente atendida: a criação de uma corporação de bombeiros, que apesar de recente já tem recebido muitos louvores do outras associações humanitárias de todo o país.
Serpins tem boas condições turísticas e recebe todos os anos centenas do visitantes. A Praia Fluvial recentemente construída, um Parque de Campismo de grande nível, e o açude do Boque óptimo local para se mergulhar , fazem as delícias dos que passam o Verão na freguesia.
O lugar da Senhora da Graça e a chamada Garganta do Cabril, são igualmente ex-libris de uma terra com algum património cultural edificado.
A autarquia espera um desenvolvimento rápido nos próximos anos, já pressentido pelas urbanizações em construção na vila. A procura de habitação na freguesia acentuou-se, aliás, desde que se espalhou a notícia da reconversão do ramal numa linha de metropolitano de superfície.
Mas a última década deste século foi marcante para Serpins, freguesia essencialmente rural que hoje já possui comércio e serviços próprios. A própria população é composta por uma camada jovem que não procura casa fora da freguesia, demonstrando assim aos responsáveis locais que vale a pena continuar a trabalhar pelo conforto e bem estar de todos.
Património secular
A Igreja Paroquial de Serpins é dedicada a Nossa Senhora do Socorro, patrona da freguesia, e apresenta um agradável aspecto graças a uma remodelação ocorrida na segunda metade do século XVIII. Está situada na margem esquerda do rio Ceira, como que isolada da população, que se encontra, na sua grande maioria, na margem direita. A fachada é simples, de terminação triangular, com um janelão superior sobrepujado por um pequeno nicho, e com um portal onde está a figura de Cristo majestoso, sentado num trono.
Destaque também para as duas pontes a Ponte velha, do século XIV, e a Ponte Nova, do século XVII, como são conhecidas na região.
A Ponte Velha é formada pelos restos dos pilares da ponte medieval, que ainda hoje se conservam, que podem eventualmente remontar ao período luso-romano e foram aproveitadas para construir uma das pontes do ramal da Lousã curiosamente uma das únicas pontes ferroviárias em curva da Europa.
Por seu turno, a Ponte Nova, a jusante da anterior mas atravessando igualmente o rio Ceira, tem três amplos arcos e 75 metros de comprimento. Foi construída em 1661, conforme uma inscrição ainda legível, havendo também referência a 1674, possivelmente de carácter religioso.
As Capelas da Nossa Senhora da Graça, da Nossa Senhora da Saúde e de S. Pedro, constituem igualmente bons motivos para uma visita a Serpins.
Mas uma visita a Serpins nunca ficaria completa sem um passeio pela Mata do Sobral, hoje completamente reflorestada depois de um incêndio que a devastou. A vista perde-se também do picoto de Sações, cinco quilómetros a nascente da povoação, a 595 metros de altitude, e do Cabril do Ceira, no monte de Nossa Senhora da Candosa.
Adriano José de Carvalho
Adriano José de Carvalho nasceu em Quinta, freguesia de Serpins, em 1869. Foi uma pessoa muito estimada na região e ocupou cargos de grande prestígio, como o de Provedor da Misericórdia de Coimbra, logo a seguir à implantação da República.
Entre outras obras, editou a Caderneta Médico Pedagógica, ainda hoje utilizada em locais de ensino, e A história do regime florestal em Serpins, em 1911.
Foi uma das pessoas preponderantes na luta da população pelo usufruto dos baldios, e o seu nome vai ser dado a uma rua, como forma de homenagem.[Sinais do século. "As Beiras", 3 Fev. 2000]