António Pires de Carvalho
Casal de Ermio recorda hoje um dos seus filhos directos: o Doutor António Pires de Carvalho, antigo ministro republicano, ali nascido em 30 de Março de 1864 e falecido em 2 de Setembro de 1947.
Iniciativa da Junta de Freguesia local, a homenagem ocorre por ocasião do cinquentenário do falecimento do ilustre político que trabalhou activamente para a Revolução de 5 de Outubro, como um dos seus principais intervenientes.
A cerimónia decorrerá, pelas 10 horas, no cemitério daquela vila do concelho da Lousã, consistindo na deposição de uma coroa de flores no jazigo de família. Estarão presentes as duas filhas sobreviventes de um grupo de onze irmãos: Maria José Pires de Carvalho Esteves e Sara Pires de Carvalho dEspiney, bem como netos, bisnetos e trinetos.
Assim se lembra aquele que alguns consideraram o "Apóstolo da Democracia" (Jornal "A Liberdade", Fevereiro 1933); e "Uma das mais gloriosas relíquias da República" ("Diário Liberal", 31 de Janeiro de 1933)
Doutor em Medicina pela Universidade de Coimbra e republicano desde os bancos da escola, António Pires de Carvalho participou na Revolução de 31 de Janeiro, no Porto, como membro do comité de Coimbra. (......) Já em 1908 havia sido nomeado presidente da comissão municipal republicana de Gaia e do Centro Democrático da Lousã. Em 1911 foi eleito deputado às Constituintes pelo círculo de Coimbra. Foi membro do directório do Partido Republicano Português, onde militou muitos anos e, mais tarde, do directório da Esquerda Democrática, (in Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol. 21, Editorial Enciclopedia Lda., Lisboa - Rio de Janeiro, pág. 951).
Foi também governador civil do distrito de Coimbra e exerceu o cargo de director das penitenciárias de Coimbra (nomeado por Afonso Costa) e de Lisboa.
"Após o movimento revolucionário de 19 de Outubro de 1921, sobraçou a pasta do Comércio e interinamente, a do Trabalho, do governo presidido pelo coronel Manuel Maria Coelho" (ibidem).
Amigo íntimo de António José d' Almeida, terceiro presidente da República, de 1919 a 1923 António Pires de Carvalho aparece referido em várias ocasiões, pela pena do único dos mais altos dignatários que em toda a I República (1910-1926) se manteria no cargo até ao fim do mandato e que foi também conhecido pelos invulgares dotes de eloquência.
No seu livro Desaffronta história de uma perseguição, (Augusto d' Oliveira Editor, Livraria Moderna, Coimbra, 1894, p. 123) António José d' Almeida afirma: "Pires de Carvalho é um rapaz forte, de tempera valorosa, d' estes que dão uma nota flagrante de decisão, no meio da tímida gente do nosso tempo. Muito intelligente, muito honesto, muito valente, é um bello typo de lutador, indomável e leal. Ríspido, tenaz, amorável, sacudido: a sua alma, como o seu corpo, tem movimentos bruscos, logo apagados numa bondade calma e patriarchal".
E recorda: "Fomos companheiros de lucta, desde os primeiros anos do lyceo. Trepámos ambos ao alto da mesma barricada; ambos pisamos a mesma estrada aspera; (...) Discordando a miudo, com opiniões diferentes sobre muita coisa, autonomos na nossa acção e na nossa arrancada pela vida, amigos como irmãos, como sorriamos atraz do mesmo ideal e sentíamos no cerebro a mesma aspiração, o nosso esforço era commum e caminhavamos hombro a hombro, a dar encontrões no destino. Dir-se-hia que, nos nossos peitos, pulsavam, à parte, cada uma no seu peito, as duas metades do mesmo coração".
Também no jornal "A Resistência" n.º 48 (Coimbra) de 4 de Agosto de 1895, acrescenta ainda: "Beirão franco e leal, de ânimo a um tempo impetuoso e reflectido, tem no seu espírito as duas grandes forças que impulsionam todas as modalidades das almas bem formadas: a Inteligência aguda para emprehender e a energia de ferro para executar. / Tudo dulcificado por uma bondade de patriarca antigo...".
Patriarca foi-o certamente na verdadeira acepção do termo. Respeitável mas sobretudo querido chefe de família, António Pires de Carvalho pouco mais pôde deixar à sua numerosa descendência do que os valores autênticos por que sempre se regeu.
Dos seus onze filhos, também irmanados pelo mesmo ideal democrático, alguns viriam a seguir o sonho paterno, como destacadas figuras públicas no meio político e intelectual de então: António Pires de Carvalho Júnior, (1892-1982), major-engenheiro, formado em Minas e Engenharia Civil, licenciado em Química e doutor em Matemáticas, chegou a ser deputado durante a vigência da I República. Esteve envolvido na revolução do Porto e do Castelo (em Lisboa) e viveu em França, durante vários anos emigrado por motivos políticos; José Pires de Carvalho, (1898-1933), advogado, oficial miliciano de Artilharia e Sub-Director dos Serviços de Emigração, só a morte prematura o afastou da renhida luta liberal em que, ao tempo, se encontrava; e António Augusto Pires de Carvalho, (1900-1993), médico, especialista em Oftalmologia, mas conhecido em Peniche, onde viveu a maior parte da sua vida, como devotado combatente de todas as doenças e inquebrantável anti-fascista, mesmo depois de ter sofrido a deportação e intermináveis perseguições.
Em suma, o pior da melhor das heranças.
Porque, na verdade, "Pires de Carvalho sacrificou dinheiro tendo uma família numerosa, tranquilidade e saúde por uma cruzada árdua e desinteressada, trabalhou afincadamente com a sua alma crente, para o "desideratum" que se chegou a 5 de Outubro", lê-se no bissemanário coimbrão A Democracia, de 30 de Março de 1913.
Ali se desenha novamente o seu retrato de alma, a corpo inteiro: "(...) alma de combatente, espírito verdadeiramente organizador, tem encoberto todos os seus actos e acções no véo da modéstia.
(...) Desde o primeiro rebate das forças republicanas em 31 de Janeiro até hoje, tem posto a sua inteligência e a sua energia ao dispor da Patria (...) A sua acção grandiosa e altamente revolucionária, sentiu-se bem em Coimbra, dois anos antes de ser implantada a República.
Quando da Revolução de 5 de Outubro, vemo-lo em Lisboa no seu posto de combatente, oferecendo o corpo às balas, para o bom êxito da causa que desde criança amava com todas as veras da sua alma.
(...) Quando no dia 3, os dirigentes das forças republicanas se reuniram para dar os últimos retoques no Movimento, Pires de Carvalho ali estava juntamente com João Chagas, António José de Almeida e outros.
Ali estava, como sempre. Proclamada a República, foi-se embora para casa. No momento da vitória não apareceu, como sempre.
Talvez soubesse que a História é sempre feita de várias histórias, vistas de vários ângulos. Como sempre.["Correio da Manhã", 5 Out. 1997]