Lágrimas do Céu - Parte IV Por Armando "Salubri" Netto.


A pequena Curiosa, como Demétrius a chamou, seguiu a larga trilha deixada pelo Tron, entre a mata escura. Os olhos medrosos observavam todos os lados, quase que mecanicamente. A trilha tomava o curso da esquerda , dando uma volta quase que circular. A nadi segue fielmente o caminho deixado pela criatura.

Ao final da trilha apenas uma arvore, manchada de sangue. Sobre algumas folhas e galhos de árvores, o corpo do Tron, completamente carbonizado. Os olhos amarelados da criatura ainda cintilavam sob a pouca luz que penetrava por entre as árvores, mas pareciam menos amedrontadores agora. Curiosa procura desesperadamente por Demétrius, mas não tem sucesso. Apenas o seu sangue estava ali. Ao menos ela acreditava que aquele sangue fosse de Demétrius...


*****

As portas do palácio da Ilha dos Deuses foram abertas. De dentro do palácio saem os três guardas, enviados por Donavan ao continente. Três homens fortes, morenos e com cabelos negros, presos em uma grande trança. As asas abriram-se e os três homens levantaram vôo, partindo rapidamente da cordilheira, sob os olhares atentos e curiosos dos moradores. Principalmente de Suzenee.

Pouco depois da saída dos guardas, Donavan aparece. Com o rosto ainda cansado, saúda a multidão, ainda abismada com a saída dos guerreiros em direção ao continente. Ao ver Donavan, Suzee anda rapidamente em sua direção.

- E então, acredita em mim agora? - retruca Donavan, quando Suzee o alcança.

- Sim... Ao menos você cumpriu o que me prometeu. E eu serei eternamente grata por isso. - diz Suzenee com a cabeça baixa, um pouco arrependida por não ter acreditado em Donavan. Continua- Mas você sabe que terá que deixar o trono quando Demétrius voltar, não sabe?

- Sei. Mas a vida do meu... Quer dizer: a vida de Demétrius é mais importante do que isso. Espero que o encontrem, ainda vivo.

- Mas é claro que ele está vivo! - grita Suzenee, aos prantos.

- Você tem que ser forte Suzenee. Ninguém sabe quais os perigos existentes no continente. E ele é apenas uma criança! - diz Donavan, enquanto abraça Suzenee.

*****

Os olhos, com muita dificuldade, abrem-se. A visão turva dificulta o vislumbra do ambiente. Uma imagem em movimento se aproxima, abaixa-se e o toca. Demétrius recua, mas então uma voz masculina, mas confortante o diz:

- Calma, menino. Você precisa descansar. Seu ferimento foi bem profundo... Beba isso!

Demétrius percebe que algo líquido lhe é oferecido. Está à beira de seus lábios. Engole completamente a suposta infusão e novamente adormece.

*****

Decepcionada, a pequena Curiosa resolve voltar para junto de suas companheiras. Isso se elas ainda a aceitassem.

Ewá a recebera com toda a grandeza. Parecia até mesmo estar sendo condecorada. Todas as nadis a rodearam, com em uma grande festa. Está feliz por ser aceita novamente, mas algo na parte mais profunda do seu coração diz que algo está errado. Talvez fosse Demétrius.

*****

Uma luz irritante faz com que Demétrius acorde. O ombro esquerdo lateja, como se fosse explodir. A visão menos turva agora permite a Demétrius ver onde se encontra. As paredes e o teto trançados com palha lembram muito sua aldeia. Estava deitado sobre uma espécie de rede, igualmente trançada em palha. Sobre uma espécie de mesa, pode ver diversos frascos. Muitos panos decoram o ambiente. Tudo muito colorido.

Após reparar em todos os detalhes do lugar, Demétrius é surpreendido por um velho, já com seus setenta anos. Os olhos negros e inchados, deixavam a face ainda mais incógnita. A pele negra era algo novo para Demétrius. Nunca vira ninguém assim. O velho aproximou-se com um sorriso confortante nos lábios.

- Finalmente você acordou! Como está o braço? - disse o velho, curioso.

- Doendo um pouco... - responde Demétrius, um pouco acuado.

O velho novamente estendeu um grande sorriso sobre a face. Mas foi interrompido pela entrada repentina de um homem desconhecido, ao menos para Demétrius. Um homem igualmente negro, com olhos esverdeados. Jovem, na ultrapassava os trinta anos. Aos gritos dirigi-se para o velho. Os gritos seguem, mas Demétrius nada entende. Talvez essa fosse a língua nativa do lugar.

O velho finalmente dá uma resposta para o outro. Ao menos é o que parece, pois logo depois o homem se retira. Mas antes, fita por um longo período Demétrius. O homem tinha uma expressão de raiva, ódio. Algo que deixava demétrius extremamente amedrontado.

Demétrius cria coragem e pergunta ao velho:

- Qual o seu nome, senhor?

- Silbar, pequeno. Silbar. - disso o velho, enquanto revirava um pequeno baú, já empoeirado. - Encontrei. Vista isso. Deve servir.

Silbar alcançou ao menino uma roupa , feita de um tecido pesado, supostamente couro. As vestes cobriam somente os membros inferiores, deixando o dorso desnudo. Demétrius sentia-se incomodado, pois não estava acostumado a usar tais trajes. Na verdade não estava acostumado a usar traje algum, andava totalmente nu.

Logo depois de vestir-se, Demétrius é chamado por Silbar. Ele o alcança duas frutas. Demétrius as devora rapidamente, pois não havia comido nada no dia anterior. Silbar o observa calado, sempre com um sorriso nos lábios. Ao olhar para Silbar, o menino lembra-se do anão. Aquele que o atirou no mar.

*****



- Nossa! Que luz maravilhosa! - berra o Anão ao espreguiçar-se.

- Pela primeira vez, concordo com você! Seu anão estúpido! Hahaha!- retruca Lewi, em direção a parte superior do barco. Continua.- Vamos aproveitar o bom tempo e partir. Antes que algo mais aconteça.

O Anão liga o motor do barco. A bateria estava carregada graças a grande luminosidade da manhã. Finalmente os dois conseguem seguir sua viagem. O barco segue por alguns quilômetros até ser abordado por três homens. Calçados igualmente ao menino, com asas. Ao ver a aproximação dos homens, o Anão sentiu as pernas tremerem. Os olhos arregalados de Lewi mostram que ele está com tanto medo quanto seu companheiro.

Os três homens pousam sob o barco. Dois deles mantêm-se parados, enquanto um aproxima-se de Lewi.

- Vocês dois, por acaso, não viram um menino? Loiro, olhos claros, uma marca sobre o braço direito, nu? - indaga o homem que se aproxima.

- Menino? Não senhor. Não vimos menino algum! - respondeu Lewi enquanto se distanciava do interrogador.

- Hum... Tem certeza de que não viram nenhum menino?- retrucou o homem. Lewi apenas respondeu com a cabeça que não. Enquanto o Anão permanecia estático.

*****

A tarde cai e Demétrius continua sobre os cuidados de Silbar. Bebe mais algumas vezes uma espécie de infusão. Novamente são surpreendidos pelo homem jovem, que entrara anteriormente na cabana. Novamente os gritos, berros, grunhido, ou seja lá o que fosse, tiveram inicio. As vozes alteradas assustaram Demétrius, que se afasta, em direção a rede. Depois de alguns minutos de discussão, e de muitos dedos apontando para o menino, o homem jovem novamente vai embora.

Silbar coloca a mão sobre a cabeça. Depois, junta as mãos, como se estivesse em oração. Essa gesto dura alguns minutas, até que as mãos se separam novamente.

- Me ajude a arrumar essas coisas... Como você e chama? - pergunta Silbar ao se agachar perante a mesa com as diversas infusões.

- Demétrius, senhor. - responde o garoto, agachando-se também para ajudar Silbar.

- Bom, Demétrius. Sinto te informar, mas teremos que deixar este lugar, ainda hoje.

- Mas, por quê?

- Sem mais perguntas agora, Demétrius.

O velho arruma todas as suas coisas. Espera a noite cair. Antes de saírem em direção a mata, Silbar dá uma caminhada pela aldeia, para ver se todos já haviam se recolhido.

O ver que todos já estavam em sua cabanas, Silbar pega demétrius pela mão e assim os dois seguem pela mata.

- Desculpe-me, senhor Silbar. Mas eu gostaria de saber por quê estamos fugindo, assim no meio da noite. Por que?

- É simples, pequenino. Kan, aquele homem que entrou na minha cabana duas vezes, berrando. Foi ele quem te salvou do Tron.

- Mas então, por quê temos que fugir?

- Kan pretende lhe matar Demétrius. Sacrificar você em nome do Deus Vulcão! - responde Silbar á indagações de Demétrius, enquanto aponta para um gigantesco vulcão, que parece estar prestes a explodir do outro lado da floresta.

Continua...



 

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