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Resenhas de Babel

Quem � a elite

Alexandre Gomes

"Chamamos aristocratas a todos que vivem ociosos das rendas de seus enormes feudos, sem ter de trabalhar. Esses senhores trazem a desordem a toda rep�blica" (Maquiavel, O Pr�ncipe)

Elite transformou-se recentemente numa palavra de sentido pejorativo, deixou de significar o conjunto dos melhores de alguma �rea para simbolizar uma camarilha corrupta que oprime os demais. Curioso que o termo original referia-se sobre tudo � elite intelectual, depois passou � nobreza e finalmente rotulou aqueles que det�m o controle da pol�tica e da economia.
Pensando bem n�o � estranho que o termo tenha chegado a tal significado no Brasil, afinal aqui nunca tivemos uma elite cultural, apenas uma elite econ�mica e pol�tica da pior esp�cie. Lobato diz em um de seus artigos que caso se reunisse a nata da sociedade de seu tempo e aos bar�es do caf� fosse dada a op��o de trabalhar duro na ro�a ou ler um livro a imensa maioria, sen�o a totalidade, preferiria colocar as m�os na enxada, tal a avers�o pela cultura.
Um dos lugares comuns mais ouvidos por a� � que as classes dominantes n�o querem que o povo aprenda e por isso n�o fornece educa��a de qualidade. Particularmente creio que � uma bobagem, mais uma teoria conspirat�ria de terceira categoria que ganhou a gra�a do senso-comum. Como j� disse em diversos artigos anteriores a educa��o tem a finalidade de moldar os esp�ritos �s conveni�ncias e n�o de libert�-los.
Mas o que discuto aqui � outra coisa, n�o trato da educa��o e cultura do comum do povo, mas sim da pr�pria elite. N�o � estranho que o povo assista programas de TV de baixa qualidade porque isto acontece em todo mundo. O que me espanta � que esses mesmos programas fa�am parte tamb�m do cotidiano da chamada elite.
Esta democratiza��o do mau gosto revela um pa�s no qual a cultura n�o significa nada. Da� florescerem de um lado os oper�rios da ind�stria cultural que produzem quantidades crescentes de lixo disfar�ados de livros, filmes, m�sicas e de outro os mistificadores que se aproveitando da ignor�ncia generalizada produzem porcarias disfar�adas de obras de vanguarda.
Mas esta � uma afirma��o perigosa porque se um pa�s fosse capaz de sobreviver sem produ��o cultural aut�ntica isto demonstraria que a cultura n�o � assim t�o importante. � preciso ver que se houvesse vida inteligente no p�is o Brasil seria outro, n�o seria um valhacouto de picaretas no qual os valores humanos n�o significam absolutamente nada.
Tamb�m � por isso que o Brasil � um pa�s que n�o tem hist�ria, como j� foi dito por um autor romano a vida � breve e a arte longa. Nosso passado � pobre e insosso justamente porque n�o se teve uma elite capaz de produzir grandes marcos que sinalizassem � posteridade os rumos a serem seguidos.
A pr�pria forma��o universit�ria no Brasil sempre esteve contaminada por um bacharelismo est�ril no qual o que se aprende significa pouco ou nada e o que se busca realmente na escola n�o � o conhecimento, mas o certificado. Este v�cio est� em grande parte na raiz de todos os problemas educacionais do pa�s e vem sendo agravado com a crescente exig�ncia de escolaridade que vem sendo feita pelas emrpesas.
Este c�ncer mata a vida intelectual do Brasil, cria at� um certo desprezo pelo conhecimento. O improtante n�o � o que se sabe, mas o n�mero de certificados que se tem. Cansei de ver pessoas "certificadas" que muito pouco conheciam de sua �rea e certamente algum escasso leitor que me leia tamb�m pode lembrar muitos destes exemplos.
Para agravar a situa��o as escolas do 1� Grau � p�s-gradua��o criou-se uma cultura de relaxamento dos padr�es de sele��o, talvez porque as institui��es descobriram que sua fun��o n�o era ensinar, mas emitir certificados.
Enquanto esta vis�o n�o for superada n�o haver� vida cultural de fato no pa�s, tampouco se resolver� os problemas da educa��o. Teremos de continuar a ter apenas uma elite economica e pol�tica, mas n�a uma elite cultural.

Alexandre Gomes � editor do PRIMEIRA P�GINA

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