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Di�rio do Front
Vis�es da Marcha dos 100 mil

Alexandre Gomes

O controle da grande imprensa pelo governo federal - diretamente relacionado ao "Proer da M�dia" - transformou a cobertura da Marcha dos 100 mil em um dos momentos mais tristes da hist�ria da imprensa brasileira. Tal como os antigos sovi�ticos, os atuais chineses e os infelizes moradores das ditaduras do Oriente M�dio, quem queria obter alguma informa��o imparcial sobre o movimento precisava acompanhar pela CNN ou por outra emissora estrangeira e ler os jornais estrangeiros.
As imagens da CNN de cara j� impressionam porque o volume de pessoas que se v� l� � muito maior que o visto nas imagens das emissoras nacionais. Ser� que o prest�gio da emissora � tal que boa parte da marcha s� resolveu "posar" para a emissora?
Ou ser� que as emissoras brasileiras - pode ordem pessoal do presidente que passou a tarde de quarta ligando para dire��o de �rg�os de imprensa - preferiram filmas a manifesta��o a partir de �ngulos estranhos?
A pol�mica quest�a do n�mero revela outros acontecimentos estranhos. A CNN, citando a �ltima estat�stica da PM menciona 60 mil pessoas. A Globonews, que passou o dia inteiro exibindo imagens feitas pela manh�, cita a mesma fonte para falar em 40 mil e ainda duvida dizendo que o n�mero de �nibus, com uma m�dia suspeita de 30 pessoas em cada - produziria no m�ximo 33 mil.
Ali�s o n�mero de �nibus � curioso porque aumenta e diminui ao longo do dia. A Globo anuncia na hora do almo�o que foram contados mil cento e poucos �nibus na primeira contagem pela manh�. Promete anunciar novas estat�sticas sobre os �nibus, chega a falar de mil duzentos e poucos mas termina o dia falando no primeiro n�mero.
A longu�ssima e, como sempre, ofensiva entrevista de ACM vai ao ar praticamente sem cortes - pelo jeito a Globo ainda deve muito favores ao imperador baiano. J� as entrevistas das lideran�as do movimento saem truncadas. Lula d� entrevista nervoso, de olhos arregalados - o que � culpa dele - sob uma luz forte e ofegante por ter sido pego de surpresa - o que j� � maldade global.
As entrevistas das lideran�as do governo s�o um exerc�cio de cinismo. Pimenta da Veiga diz que n�o foi uma manifesta��o espont�nea, mas um movimento organizado pelos partidos, como se tivesse descoberto a p�lvora. Quando se chegar ao ponto das pessoas se reunirem espontaneamente para protestar contra o governo, deveriam dizer ao ministro, ent�o � sinal que n�o h� mais alternativa para FHC.
Mais longe ainda foi a colunista amestrada de FHC, Miriam Leit�o (ou Leil�o como, com mais propriedade, prefere chama-la a coluna Caros Colegas - www.tribuna.inf.br/caros.htm) que disse que o protesto s� reuniu quem era contra o governo. Queria ela o que, que houvesse um protesto de quem faz parte do governo?
Ele deveria ter visto, por exemplo, Jos� Genoino e outros parlamentares petistas serem vaiados pelos manifestantes por pedir calma � multid�o. Deveria ter visto at� porque a imagem foi exibida � exaust�o.
Uma compara��o que s� a Folha de S�o Paulo fez, mas que � essencial para a compreens�o do real significado da marcha: no auge da campanha pelo impeachment de Collor conseguiu-se reunir 25 mil pessoas em Brasil�a, mais ou menos um ter�o do que o movimento contra FHC conseguiu reunir no seu in�cio. Por mais que o governo tente minimizar os n�meros e a import�ncia destes n�meros, para si pr�prio ele tem de saber o quanto ele � assustador.
Resultados concretos da marcha? Pois bem, a popularidade de FHC despencou um bocado mais - apesar da manipula��a da informa��o pela grande imprensa - e j� � de 76% o n�mero de descontentes com o governo.
Tentando pairar acima de tudo isto, FHC pode posar de estadista - afinal j� tinha mandado os outros fazerem o trabalho sujo por ele - e falar de democracia. Discurso bonito, mas irris�rio afinal nada compromete tanto a democracia quanto a manipula��o da informa��o, o que demonstra todo o cinismo do discurso tucano.
� preciso, por�m, reconhecer que a marcha esteve aqu�m do esperado, n�o foi capaz de provocar a empatia da popula��o insatisfeita com FHC, N�o conseguiu ultrapassar ainda as fronteiras do movimento pol�tico para o de movimento c�vico tal como aconteceu com as Diretas e, de certa forma, com o impeachment.
Ao contr�rio, por exemplo, do movimento dos caminhoneiros que de imediato foi aprovado pela popula��o, a Marcha ficou restrita a alguns segmentos j� organizados da sociedade. N�o foi capaz de evitar o ep�teto de "baderna" que lhe deram e, sobretudo, n�o conseguiu afastar a suspeita de que as lideran�a que o organizaram estavam mais preocupadas com seus projetos pol�ticos pessoais do que com a abertura de uma CPI.
Mas foi um estopim, um ensaio geral do qual se espera tenham estas lideran�as aprendido alguma coisa. Dificilmente ser� o �ltimo movimento e daqui h� pouco o conjunto da sociedade vai perceber que � insuport�vel a permanencia de FHC no poder pelos longos tr�s anos e meio que tem a frente.

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