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(t�tulo)Nunca houve presidente t�o envolvido em safadezas, afirma Cl�udio Humberto
(subt�tulo) Jornalista critica controle da imprensa e diz que profissionais ficaram mais amigos das fontes do que dos leitores

(legenda) Cl�udio Humberto Rosa e Silva: Internet � a mais importante revolu��o na comunica��o e troca de id�ias

Alexandre Gomes

Desde a �ltima quinta-feira o Primeira P�gina orgulha-se de ter entre seus colaboradores o jornalista Claudio Humberto Rosa e Silva, sendo o 39� jornal (15� di�rio) a reproduzir a coluna iniciada na Internet. Em poucos meses a coluna de Cl�udio Humberto explodiu em popularidade e tornou-se um inferno para pol�ticos de todos os partidos, em todas as esferas.
Cl�udio Humberto celebrizou-se pelo "bateu, levou" que marcou sua passagem pela Secretaria de Imprensa da Presid�ncia da Rep�blica durante o per�odo Collor. Neste per�odo ele colecionou amigos e inimigos, dos primeiros restaram poucos ap�s o impeachment do ex-presidente, os �ltimos aumentaram ainda mais depois que sua coluna - verdadeira metralhadora girat�ria - come�ou a ser publicada na Internet.
S� a Internet, garante ele, foi capaz de viabilizar sua coluna "sem medo de cara feia e determinada a publicar tudo aquilo que as colunas tradicionais j� n�o conseguem". O sucesso imediato da coluna fez com que ela come�asse a ser publicada em diversos jornais das mais diferentes cidades, tamnhos e tipos que s� tem em comum "o objetivo de publicar not�cias, com isen��o e independ�ncia".
Esta omiss�o da imprensa, na avalia��o dele, n�o � culpa apenas do comprometimento dos ve�culos de comunica��o, dependentes do governo atrav�s de esquemas como o do "Proer da M�dia", mas tamb�m - e principalmente - dos pr�prios jornalistas. "Os jornalistas, sobretudo os mais importantes, ficaram mais amigos das fontes do que dos leitores", disse ele.
"� impressionante a quantidade de jornalistas que s�o amigos pessoais, �ntimos, de pol�ticos e de autoridades, como aprendi, na pr�pria pele, no fundo do po�o, no sofrimento, a separar os verdadeiros amigos dos 'amigos' entre aspas, foi mais f�cil inverter essa tend�ncia", comentou.
Aos 45 anos, 25 dos quais na imprensa - profiss�o que divide com a esposa Tais Braga, do Correio Brasiliense - Claudio Humberto diz que prefere ser amigo dos leitores e acredita que o eleitor est� aprendendo a votar cada vez melhor. Leia a �ntegra da entrevista ao editor do Primeira P�gina Alexandre Gomes.






2) Cobrado, n�o sei, mas certamente estigmatizado por alguns setores. Nenhuma novidade: s�o os mesmos que o ex-presiente enfrentou e derrotou, em 1989. N�o me queixo, acho que � um pre�o, � do jogo. Al�m do mais, quando h� dez anos assumi a Secretaria de Imprensa da Presid�ncia da Rep�blica, eu era um ilustre desconhecido, um jornalista - nordestino, mulato - vindo da prov�ncia para assumir uma posi��o que, soube depois, � sonhada por muita gente gra�da do jornalismo brasileiro. N�o sei se fui competente, mas minha atua��o ter� sido pelo menos marcante. Acho que tudo isso estimula sentimentos ruins em algumas pessoas.


3) Como voc� mesmo disse, � uma lenda. A candidatura a presidente nasceu na sociedade e isso n�o � uma for�a de express�o. Nem o pr�prio Collor acreditava muito nas suas possibilidades, logo no in�cio. Eu, sim. Era apenas assessor de imprensa, em Alagoas, e fazia o meu trabalho, divulgando sua atua��o. De repente, percebeu-se que ela comandava em Alagoas uma experi�ncia �nica no Brasil. Choviam convites de todos os Estados para que ele fizesse palestras, concedesse entrevistas etc. Eu o acompanhei em todas essas viagens (foram mais de 4.000 horas de v�o, em dois anos) e via isso na express�o das pessoas, na maneira de como reagiam a ele. Convenci-me de que seria um candidato imbat�vel. Ele mesmo achava que eu exagerava, nessa avalia��o. E at� tentou convencer seu ent�o correligion�rio M�rio Covas a sair candidato a presidente. Muita gente diz que ele fez isso com o objetivo de ser vice de Covas. N�o � verdade. Ele jamais seria vice de algu�m.


4) Est�o mesmo com muita sede. A corrup��o foi sofisticada, no atual governo. Antes, empreiteira era sin�nimo de corrup��o. Hoje, n�o. Quem poderia imaginar que um banquinho qualquer, como o Marka e o FonteCindam, poderiam aplicar um golpe de 1,5 bilh�o de d�lares e tudo ficar por isso mesmo? Eu n�o sabia, por exemplo, que o Banco Central pode vender d�lares bem mais baratos a bancos de pessoas amigas. Outro dia revelei um documento secreto do Tribunal de Contas da Uni�o, cujos auditores descobriram que as reservas cambiais brasileiras foram colocadas nas m�os de sete corretoras, s� sete, escolhidas segundo crit�rios insond�veis e certamente pessoais, pelos diretores do BC. Essas corretoras (todas estrangeiras) aplicaram no mercado financeiro internacional, em tr�s anos, entre 95 e 97, exatamente 109 bilh�es de d�lares das nossas reservas cambiais. Ningu�m sabia de nada. Se voc� considerar que essas aplica��es renderam comiss�es, legais e por baixo do pano, de 1% (o que seria irris�rio), esse esquema ter� gerado um ganho de 1 bilh�o de d�lares para essa turma. Um bilh�o! Isso � um esc�ndalo. Mas n�o aconteceu nada, ningu�m nem amea�ou com CPI. Acho tamb�m que a sociedade est� mais vigilante e h� mais instrumentos que nos ajudam a descobrir essas coisas. Por exemplo: descobri que Dona Ruth recebeu 15 mil d�lares para passar quatro dias nos Estados Unidos, mesmo sem ser funcion�ria p�blica, gra�as aos computadores do Siafi, o Sistema de Acompanhamento Financeiro do governo, ali�s criado no governo Collor. Suspeito tamb�m que sejam cada vez em menor n�mero os empres�rios dispostos a subornar autoridades. Entrevistei meia d�zia deles, interessados na concorr�ncia fraudulenta do Minist�rio da Sa�de a que voc� se refere. Isoladamente, quatro deles me disseram que n�o participariam de qualquer acerto envolvendo propinas. Garantiram que est�o cansados de ser achacados. E apenas dois deles representam empresas americanas - isso � um detalhe importante, porque a legisla��o dos Estados Unidos pune fortemente empresas que participam de esquemas de corrup��o, em territ�rio americano ou em qualquer pa�s, e l� n�o h� impunidade.


5) O presidente � um sujeito que dizem ser encantador, no relacionamento pessoal, e ele tem uma linha direta n�o apenas com os donos dos ve�culos mais importantes, mas tamb�m com os seus jornalistas. Ele tem uma assessora de imprensa muito eficiente, a Ana Tavares, competent�ssima, e mais de 500 milh�es de d�lares em publicidade por ano. Como se isso n�o fosse suficiente, gerou a possibilidade de todos os grandes ve�culos participarem do melhor neg�cio do seu governo - a privatiza��o do sistema de telefonia. Achando pouco, ainda inventou o tal "Proer da m�dia". Assim fica f�cil concretizar qualquer "opera��o abafa".


6) O que vem chegando � imprensa, em termos de den�ncias relativas ao
governo incluindo as "fitas" divulgadas pela FSP, � em boa parte fruto da
briga interna entre as diversas fac��es (gangs?) do governo. Voc� avalia que FHC ser� capaz de conter estas disputas ou o governo vai acabar atirando no pr�prio p�?

O governo j� atirou tanto no pr�prio p� que j� come�a a achar isso muito natural. O que essa turma da telegangue fez n�o tem precedentes. Nunca houve um presidente t�o claramente ligado a um esquema de favorecimento expl�cito, documentado, comprovado, como no caso da privatiza��o da telefonia. Nesse jogo de cachorros grandes n�o h� inocentes, nem � cr�vel a vers�o sobre a interfer�ncia de FH e do ministro das Comunica��es para favorecer os s�cios de Mendon�a de Barros e de Andr� Lara Rezende nos esquemas do banco Opportunity. Mas nada � mais engra�ado do que o FH ser pego com a m�o na botija e ainda ficar indignado com as certezas da oposi��o sobre o seu envolvimento na safadeza.


7) Na briga entre ACM e Temer, os dois tem raz�o?

Claro, os dois est�o cert�ssimos. Mas, como j� revelei na coluna, a briga entre ACM e Michel Temer n�o tem a ver com princ�pios, mas com disputa de espa�o pol�tico no governo. Temer controla a Companhia Doca de Santos, mesmo ap�s a privatiza��o, que todos dizem ser um antro de corrup��o. Mas ele s� pisou nos calos de ACM quando se meteu na Companhia Docas da Bahia, indicando o pai do deputado Gedel Vieira Lima para a presid�ncia da empresa. Essa coisa da reforma do Judici�rio � s� pretexto. Nem um nem outro quer, sinceramente, um Judici�rio mais leve, �gil, atuante e sobretudo independente.


8) Deixando a pol�tica de lado e falando sobre a sua coluna, salvo melhor
ju�zo ele surgiu na Internet e depois foi se espalhando para diversos
jornais, como surgiu a id�ia de colocar a coluna na Internet? Voc� acha que
a rede pode ser um meio de democratizar o acesso � informa��o e reduzir o
poder da grande imprensa?

Acho que a Internet � a mais importante revolu��o nas comunica��es e na livre circula��o de id�ias, nesta segunda metade s�culo XX. Criada pelos americanos para subverter os meios cient�ficos do bloco sovi�tico, a verdade � que a Internet ganhou vida pr�pria, porque independe de governos, e nada pode impedir que uma mensagem sua, por e-mail ou numa homepage, possa chegar �s pessoas. Al�m disso, � barat�ssimo montar um site e acessar a rede. Foi isso que me levou a criar uma coluna independente, sem medo de cara feia e determinada a publicar tudo aquilo que as colunas tradicionais j� n�o conseguem. E n�o conseguem porque os grandes jornais est�o demasiadamente dependentes do governo ou porque - e principalmente - porque os jornalistas, sobretudo os mais importantes, ficaram mais amigos das fontes do que dos leitores. � impressionante a quantidade de jornalistas que s�o amigos pessoais, �ntimos, de pol�ticos e de autoridades. Conhe�o a maioria desses jornalistas e n�o gostaria de particularizar nenhum caso, mas fiquei chocado quando ouvi um deles, dos mais famosos, contar que mergulhava na piscina da casa de ACM, em Bras�lia, quando o telefone tocou e algu�m contou que Luiz Eduardo Magalh�es estava � beira da morte, num hospital. Esse jornalista � um sujeito s�rio, competente, mas certamente ficou mais amigo de suas fontes do que dos seus leitores. Como aprendi, na pr�pria pele, no fundo do po�o, no sofrimento, a separar os verdadeiros amigos dos "amigos" entre aspas, foi mais f�cil inverter essa tend�ncia. Decidi ser amigo dos leitores, como meu pai sempre recomendou. E est� dando certo.


9) Praticamente todo dia leio notas da sua coluna anunciando que mais
jornais est�o publicando a sua coluna. Para quantos jornais voc� est�
escrevendo? Qual � o perfil m�dio destes jornais?

Neste momento, um ano depois de iniciada, a coluna est� em quinze di�rios, incluindo o "Primeira P�gina", e dezenove seman�rios, que reproduzem uma vers�o dominical. H� jornais com perfis bastante diferentes, como a "Tribuna da Imprensa", do Rio de Janeiro, ou o tradicional "A Prov�ncia do Par�", mas todos t�m uma caracter�stica que me parece essencial nesse ramo: levam a s�rio o objetivo de publicar not�cias, com isen��o e independ�ncia. Com a exce��o da "Gazeta de Alagoas", onde trabalhei quando morava em Macei� e cuja reda��o � composta de velhos conhecidos, nenhum dos jornais publica a minha coluna porque seus diretores ou editores s�o amigos. Isso me orgulha muito. Eles publicam a coluna porque a consideram um produto interessante para os leitores.


10) Na sua opini�o e com a sua experi�ncia, o eleitor vai aprender a votar
melhor, ou vai perder a vergonha e vender o voto por n�o ter esperan�a de
mudar alguma coisa com ele?

Acho que o eleitor tem votado cada vez melhor. O problema est� na natureza humana, falha, a mat�ria de que � feita o pol�tico. O eleitor sempre se decepciona porque na campanha � levado a acreditar que sua vida vai melhorar, e muito. O sujeito se elege e at� pode estar bem intencionado, mas na pr�tica a teoria muda radicalmente e ele n�o consegue fazer o que prometeu. A quest�o � complicad�ssima. Como o prefeito vai fazer o que prometeu se, ao assumir, descobre que a receita est� integralmente comprometida com o pagamento dos funcion�rios? A� ele recorre ao governo do estado, que est� na mesma situa��o. Os dois, de cuias nas m�os, v�o ao governo federal, que est� quebrado. Restam-lhes o discurso pol�tico, a embroma��o, e disso est� todo mundo cheio. Triste � a gente verificar que o pol�tico parece comportar-se como algu�m que desiste, alegando todas essas dificuldades, e j� que est� por ali, com algum poder, resolve mudar para melhor a vida dos seus e a sua pr�pria. A� surgem o nepotismo e a corrup��o. A urna eletr�nica � uma evolu��o fant�stica, principalmente nas regi�es menos esclarecidas, onde proliferam os tais currais eleitorais. O voto eletr�nico reduz a possibilidade de fraude praticamente a zero, e isso � um passo fundamental.
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