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Di�rio do Front
Cegueira jornal�stica Alexandre Gomes Queria pedir permiss�o aos leitores para hoje fugir da tem�tica habitual desta coluna, a pol�tica, para comentar um fato que me chocou muito ao ler o jornal O Estado de S�o Paulo. Comentando a elei��o indireta na Indon�sia, que elegeu um deficiente visual como presidente, o correspondente Pepe Escobar acabou por dar uma aula de preconceito expl�cito. N�o se trata aqui de defender o presidente indon�sio - assunto que por sinal s� interessa aos indon�sios - nem os m�todos que ele usou para chegar ao poder, os acordos que costurou ou os valores que ele defende. Qualquer argumenta��o que o jornalista fizesse sobre estas quest�es seria de certa forma leg�tima, mesmo se n�o estivessem baseadas em fatos. O que n�o se pode admitir � o fato dele tentar desqualificar o presidente eleito pelo fato dele ser deficiente visual. �s vezes faz isto de forma covarde, colocando palavras na boca de outros, �s vezes n�o resiste e ele pr�prio condena, faz trocadilhos e brinca com a defici�ncia visual de Gus Dur. Para que n�o reste d�vida da atitude preconceituosa cito alguns trechos absolutamente desnecess�rios da reportagem. "Com o pa�s cambaleando, v�o eleger justamente um cego!", diz ele atribuindo a frase a um improv�vel diplomata europeu, ou ainda "Gus Dur n�o � capaz de ler uma placa de rua sozinho. Tanjung, uma vers�o indon�sia de Golbery do Couto e Silva, deve guiar a m�quina do governo, que conhece a fundo", assumindo ele mesmo a declara��o preconceituosa que um presidente que n�o enxerga estaria condenado a ser manipulado por outros. Mas o Sr. Escobar n�o para por a� e a prolifera��o de refer�ncias � defici�ncia de Gus Dur demonstra que a quest�o ultrapassa a narra��o dos fatos para entrar no campo da discrimina��o. Diz ele invocando um suspeito estudante entrevistado na rua: "Um estudante nas ruas de Jacarta observou que a Constitui��o exige um presidente com sa�de e fisicamente em forma, o que n�o � o caso de Gus Dur - cego, diab�tico e v�tima de um enfarte h� dois anos." O suposto estudante (falar� Escobar tagalog para fazer entrevistas na rua?) extende o preconceito exigindo um presidente forte e sadio. Talvez ele preferisse um que fizesse cooper e andasse de jet-sky demonstrando virilidade? At� o pr�prio Gus Dur teria sentido sua incapacidade para o cargo, segundo Escobar. Diz o correspondente: "Em seu discurso de aceita��o do cargo, ontem � noite, Gus Dur frisou sua 'limita��o como ser humano'" e vai mais al�m depois, atribuindo a uma ambi��o desmedida do presidente eleito que o teria deixado cego a enxergar suas limita��es. Textualmente: "arquivar a ambi��o desmesurada que o levou a seduzir-se, quase inv�lido, pela presid�ncia." A insist�ncia com a qual a defici�ncia � mencionada - e omito alguns trocadilhos de mal gosto que n�o s�o t�o evidentes - imiscuindo-se em todos os aspectos da an�lise que ele faz parece deixar claro que o fato de ter sido eleito um presidente com defici�ncia visual � o fato mais importante da not�cia para ele. Gus Dur � pessoa de lideran�a e autoridade moral reconhecida na Indon�sia, presidente de uma institui��o com 35 milh�es de membros, considerado s�bio pelos t�tulos e pela pr�tica, estudioso, mas nada disso � mencionado com �nfase na mat�ria de Escobar a n�o ser para junto � pecha de "cego" impingir-lhe tamb�m a de religioso mu�ulmano. Com estas credenciais � pouco prov�vel que a sociedade indon�sio tenha se indignado tanto como o rep�rter com a defici�ncia visual do presidente eleito. � lament�vel que o autor da infeliz reportagem enverede pelo caminho do preconceito. Ela � certamente uma ofensa direta a todos os cerca de 5 milh�es deficientes visuais do pa�s, que pela avalia��o do Sr. Escobar seriam inaptos a ocupar um cargo similar no Brasil. Ou mesmo outros cargos, afinal um empregador que lesse e levasse a s�rio os coment�rios do rep�rter poderia tamb�m ele chegar a conclus�o que seria motivo de chacota se, ao exemplo do parlamento indon�sio, escolhesse um funcion�rio com defici�ncia visual para fun��es de chefia, ou mesmo lhe desse um emprego. Tamb�m � uma ofensa a qualquer portador de defici�ncia f�sica, ou mesmo com alguma doen�a mais s�ria, porque a reportagem insinua a necessidade de uma certa "virilidade" essencial para o exerc�cio do cargo. Ali�s enfartados e diab�ticos s�o explicitamente mencionados por ele. Em um momento no qual se luta tanto pela integra��o dos deficientes, a postura do Sr. Escobar vai contra a corrente, estimula o preconceito, trata a defici�ncia como um estigma, v� a defici�ncia f�sica tamb�m como uma defici�ncia da capacidade de liderar. Mas n�o � s� aos deficientes f�sicos que a reportagem ofende, tamb�m � vexat�ria para qualquer ser humano porque o preconceito em si � odioso. Toler�-lo em pequenas doses hoje pode significar abrir brechas para que ele cres�a e se expanda amanh�. Hoje � motivo de piada um "cego" ser eleito presidente, amanh� pode ser inadmiss�vel que seja um parapl�gico, depois um negro, quem sabe em breve uma mulher ou um jovem, ou um idoso. Imagino como o Sr. Escobar faria uma resenha da Odiss�ia. De cara ridicularizaria o livro por ter sido escrito por um outro cego. Analisando a vida de Alexandre Magno ou Cesar os desqualificaria porque eram epil�pticos e portanto n�o tinham sa�de suficiente para governar seus imp�rios. Se o Brasil elegesse o s�mbolo da Cidadania que foi Betinho como presidente ele de imediato acharia absurdo que um hemof�lico e aid�tico ocupasse tal fun��o. Resta a esperan�a que tudo n�o tenha passado de um lapso moment�neo do Sr. Escobar, que ele acabe por se desculpar e aprenda a ser mais cr�tico de seus pr�prios preconceitos numa outra miss�o importante que lhe for confiada pelo jornal... |
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