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Histórias de Capoeira

Diz uma lenda que num reino distante, na época do aniversário do rei, ele mandava buscar as maiores atrações para animar sua festa. Chegado o dia, se apresentaram malabaristas, engolidores de espada, engolidores de fogo, trapezistas, domadores, arremessadores de facas, dentre outros artistas. E a cada apresentação que não agradava o rei, ele mandava que o artista fosse decapitado. E assim aconteceu com todos que se apresentaram. Eis que surge um negrinho franzino, de pé no chão, carregando algo estranho que ninguém no reino conhecia. Era um berimbau. E pediu para se apresentar. Quando começou a tocar, todos ficaram maravilhados com o som que aquele instrumento estranho emitia. E o rei começou a aplaudir. O negrinho ficou tão entusiasmado que começou a se embalar no som do berimbau, dando as costas ao rei. O rei se sentiu ofendido, pois aquela música era o seu presente de aniversário. E mandou decapitar o negrinho.

Moral da história: A mensagem passada pelo tocador de berimbau tem que ter um endereço certo.

 

Um pouco sobre a Capoeira

“O capoeirista é um ator, um atleta, um jogador e um poeta.

A capoeira é luta de bailados, dança de gladiadores e duelo de camaradas"

                                                                                                         Dias Gomes

Na triste e amarga época da escravidão, os negros eram aprisionados na África para serem trazidos por navios negreiros para o Brasil, como escravos. Mais da metade morria durante a viagem, por causa de doenças, desnutrição, e muitos se suicidavam. Mas os que chegavam e eram vendidos compensavam os custos para os traficantes de escravos. Eram acorrentados e vendidos como animais, leiloados em ruas e praças públicas. A maioria era comprada para servir de mão-de-obra nos engenhos de cana-de-açúcar. Esses trabalhavam cerca de 16 horas por dia, sem folgas, e recebiam toda sorte de castigos imagináveis. 

1ª Teoria para o Surgimento da Capoeira: Durante os períodos em que não estavam trabalhando, eles se distraíam relembrando a sua terra, cantando, dançando e mantendo os rituais que costumavam praticar em suas aldeias. Em algumas aldeias africanas existia a seguinte tradição: Quando uma jovem da aldeia estava pronta para se casar, os guerreiros da tribo disputavam a moça numa espécie de luta em que procuravam imitar os golpes de uma zebra. Essa luta chamava-se N`angolo. Os negros começaram nas senzalas a desenvolver uma espécie de luta semelhante para batalhar pela sua liberdade. Mas como os feitores e senhores de engenho permitiriam que eles aprendessem uma arte marcial? Então eles fundiram essa luta com as danças que eles praticavam, camuflando-a, para que eles não a percebessem. Praticavam-na em campos e matos de vegetação rasteira, chamados de capoeiras (derivada da palavra tupi caá-puéra). Posteriormente, essa luta ficou sendo associada ao lugar em que era praticada, surgindo daí o nome Capoeira.

O tempo foi se passando, e constantemente haviam rebeliões, com fuga de escravos, disputas e mortes, numa luta desesperada pela liberdade. Os negros que conseguiam fugir se infiltravam na mata e formavam colônias, chamadas mocambos (pequenos quilombos). O maior e mais conhecido mocambo ficou conhecido como Macaco, por ser uma região onde existiam muitas palmas (palmeiras) toda a região ficou conhecida como Palmares, e todos os mocambos reunidos passaram a ser chamados de Quilombo dos Palmares. Formou-se na área onde hoje situa-se o Estado de Alagoas, na Serra da Barriga. Era uma colônia imensa, dividida em aldeias chamadas mocambos. Cada mocambo tinha o seu líder e cada quilombo tinha seu rei, ou ganga. Foi fundado por uma mulher, Acotirene, um dos maiores mocambos, posteriormente assumido por ganga Zumba. Após a morte de ganga Zumba, Antônio (como era batizado) assume a liderança de Palmares. Surge então o ganga Zumbi. Após um século de existência, e de resistir a inúmeras tentativas fracassadas de destruição do quilombo pela Colônia Portuguesa e expedições organizadas pelos senhores de escravos, o bandeirante Domingos Jorge Velho liderou a batalha que poria fim ao Quilombo dos Macacos, a capital de Palmares. Ferido, Zumbi foge com alguns guerreiros para a Serra Dois Irmãos e tenta reorganizar seus guerreiros, mandando emissários em todas as direções. Após dois anos, ele é descoberto, encurralado e morto pelas tropas portuguesas.

Teoria para o surgimento da Capoeira: Sugere que a Capoeira tenha sido iniciada nas metrópoles por escravos que possuíam uma carga de trabalho mais amena e, portanto, dispunham de tempo, espaço e energias física e psicológica para desenvolver a luta. Com o passar do tempo, intencionalmente por parte de organizações abolicionistas, a Capoeira foi se infiltrando nas cidades interioranas, fazendas e senzalas, surgindo como luta de libertação dos escravos ali cativos. Ou seja, a Capoeira teria se espalhado da cidade para as fazendas. Essa teoria é defendida pela situação em que se encontravam os escravos nas senzalas: Após 16 ou 17 horas de trabalho exaustante, péssima alimentação e condição de higiene, superlotação, além da constante e incansável vigilância dos feitores, seria impensável e humanamente impossível o desenvolvimento de qualquer atividade física, incluindo a Capoeira.

Com o fim da escravidão, os negros passaram de escravos a cidadãos marginalizados (situação, nos dias de hoje, comparável à dos ex-presidiários), sem oportunidade de emprego e na miséria. A Capoeira passou de arma de libertação a arma de opressão, visto que começou a ser usada para fins criminosos, que iam desde um simples assalto à contratação de capoeiras por políticos, com o intuito, por exemplo, de "melar" a candidatura de um rival, criando tumultos em comícios, etc.

Isso resultou na proibição legal do exercício da capoeiragem, e os seus praticantes ficavam sujeitos a pena de prisão e exílio em Fernando de Noronha. Mas continuava sendo praticada, escondida, em quintais e terrenos, e seus fundamentos passados de geração pra geração, pouco a pouco, e assim foi sobrevivendo. Essa perseguição durou até a década de 30, quando o então presidente da República, Getúlio Vargas, autorizou, entre uma série de manifestações populares, a prática da Capoeira.  Essa autorização não foi plena. Porém, isso é uma outra história, a história dos Atos Institucionais, da Reunião Governamental de 1969...

Ao longo da História, muitos capoeiristas ficaram famosos, alguns pela sua valentia, outros pela maneira de jogar e outros ainda pela sua sabedoria. Muitos já partiram, deixando o conhecimento, as tradições, o jogo da Capoeira, para que nós levemos adiante essa arte tão linda e genuinamente brasileira. Mas até hoje, a Capoeira sofre imenso preconceito por parte da sociedade, que ainda associa Capoeira à religião, ou compara a imagem do capoeirista com a do desocupado, do marginal.

 

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