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Sem gravata não pode

Richard Simonetti
Fonte: Revista Reformador, FEB, Deus, Cristo e Caridade - Ano 123  nº 2.116  Julho de 2005

Mateus, 22:1-14

Estabelecendo uma de suas costumeiras comparações, diz Jesus que o Reino dos Céus assemelha-se a um rei que celebrou o casamento de seu filho.

Para as festividades, enviou servos com convites a muita gente. Mas os convidados não se dispuseram a comparecer.

Outros servos receberam a mesma missão, recomendando-lhes o rei:

__ Dizei aos convidados que já preparei o banquete. Bois e cevados foram mortos, e tudo está pronto. Que venham ao casamento.

Nova recusa. Alguns convidados foram para o seu campo, outros para os seus negócios.

Outros fizeram pior: Agrediram os servos e os mataram.

Indignado, o rei enviou seu exército, que executou os homicidas e destruiu a cidade.

Disse, então, aos servos:

__  O banquete está pronto, mas os convidados não eram dignos. Ide às encruzilhadas e convidai para as bodas a todos os que encontrardes.

Assim fizeram os servos, que reuniram todos os que encontraram, maus e bons.

O salão das festividades ficou repleto.

Ao chegar, o rei percebeu a presença de um homem que não estava trajado com as vestes para as núpcias¸ isto é, não estava vestido de acordo com a solenidade.

E logo o inquiriu:

__  Amigo, como entraste aqui sem veste nupcial?

O convidado, constrangido, não sabia o que dizer.

Ordenou o rei aos servos:

__  Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-o fora, nas trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de dentes.

 

Estranha esta representação de Deus como o rei que faz o convite para as bodas.

Está mais para o Jeová mosaico, que costumava vingar-se até a quarta geração dos que o aborreciam e mandava os judeus passarem a fio de espada, em terra inimiga, tudo o que tivesse fôlego, envolvendo homens e mulheres, velhos e crianças, sãos e doentes, ricos e pobres, animais, aves, peixes...

Generoso com os que correspondiam às suas expectativas, mas cruel com os que se negavam a atendê-lo.

Diferente do pai de amor e justiça anunciado por Jesus. 

Há outros aspectos indigestos:

 

Ninguém se interessou em comparecer ao casamento. É estranho. Afinal, um convite real soa sempre como irrecusável convocação, e haveria lauto banquete, fartos comes e bebes...

 

Diante de novo convite, o povo permaneceu alheio. Cada qual foi cuidar de seus interesses. Pior: assassinaram os emissários.

 

Por castigo o rei determinou que fosse destruída a cidade, exterminando seus moradores, inclusive os inocentes.

O convite foi estendido a todos os que fossem encontrados nas estradas, envolvendo bons e maus, sãos e doentes, e estropiados de todos os matizes, que obviamente compareceram sem trajes adequados, que não possuíam. O rei não levou isso em consideração, logo mandando castigar o primeiro que surgiu à sua frente.

Difícil conceber que seja exatamente assim que Jesus contou essa parábola.

Imagino que, dentro do espírito da época, Mateus, ou quem escreveu em seu nome, agiu como o sapateiro que foi além dos sapatos, conforme a expressão latina. Extrapolou o conteúdo da história, colocando nos lábios de Jesus o que ele não diria.

É preciso, aqui, como em outras passagens, separar o joio do trigo e definir o que o Mestre realmente ensinou.

Em princípio, podemos considerar que os antigos usavam a imagem do casamento para simbolizar os pactos de Deus com os homens, favorecendo-os com suas benesses, desde que observassem sua vontade.

Na parábola os judeus eram os primeiros convidados para o matrimônio, depositários da nova aliança, envolvendo os ensinamentos cristãos.

As lições de Jesus, um aperfeiçoamento da revelação mosaica, deveriam estar inseridas no Judaísmo, em desdobramento natural e cumulativo, como acontece em qualquer ramo de conhecimento.

Não há, por exemplo, várias astronomias. O que temos é o acrescentar de conhecimentos, desde as idéias primitivas em que as estrelas, o Sol e a Lua eram situados por meros enfeites celestes.

Ocorre que os judeus cristalizaram-se em torno de conceitos dogmáticos e rejeitaram a renovação proposta por Jesus que, em princípio, falou nas sinagogas e no templo.

Foi expulso deles.

Depois, foi perseguido e morto, o mesmo acontecendo com seus discípulos.

Então, o convite foi estendido ao povo, fora dos círculos religiosos, nas encruzilhadas...

E surgiu o Cristianismo.

No século dezenove veio a revelação espírita, desdobramento e aperfeiçoamento do Cristianismo.

Repetiu-se o mesmo problema.

O Cristianismo, ao longo dos séculos, cristalizou-se em torno de princípios dogmáticos, ligou-se ao materialismo e passou a negar, veementemente, a possibilidade de intercâmbio com o Além, paradoxo tanto maior quando se recorda que Jesus conversava com os Espíritos, o mesmo acontecendo com a primitiva comunidade cristã.

Recusado o convite, os arautos da nova revelação foram também para as encruzilhadas, e o Espiritismo situou-se como nova opção, não como o desdobramento do Cristianismo, o que foi lamentável. 

 

               O Espiritismo simboliza o banquete de luzes a que somos convidados

 

Os que comparecem ao Centro Espírita são os convidados novos.

Como está na parábola, não há distinção de condição social, raça, cor, posição social, moral, intelectual...

Todos podemos desfrutar de suas bênçãos.

O Espiritismo simboliza o banquete de luzes a que somos convidados.

Sabem do valor da Doutrina Espírita os que se abeberam de seus ensinamentos e, principalmente, aqueles que enfrentam dramas pessoais, envolvendo a morte de um ente querido, a doença grave, o desastre financeiro, a decepção sentimental, os desequilíbrios da sensibilidade...

Há apenas uma condição: que estejamos convenientemente trajados.

Obviamente não se trata da roupa do corpo, mas das vestes espirituais, envolvendo nossos sentimentos e a maneira como nos comportamos em relação à Doutrina.

Na primeira metade do século XX não havia televisão. Automóveis, poucos, importados. Computador, internet, nem na imaginação!

A única diversão era o cinema.

Lembro-me do ritual para comparecer. Obrigatório o uso de paletó e gravata.  Mesmo no verão, temperatura de quarenta graus em salas de projeção enormes e mal ventiladas, não eram dispensados. Em Bauru, nosso cinema maior, com duas mil poltronas, mantinha um serviço de aluguel de gravatas, para quebrar o galho.

Hoje há liberdade até exagerada. Os cinéfilos comparecem à vontade, não raro cometendo excessos, em trajes sumários.

Sob o ponto de vista espiritual, quando comparecemos à atividade religiosa, nos templos, nas igrejas, no Centro Espírita, não podemos esquecer o essencial: que estejamos convenientemente trajados, não apenas sob o ponto de vista formal.

Que compareçamos engravatados, espiritualmente falando, simbolizando seriedade de propósitos. Que não estejamos interessados
apenas em receber os favores da Espiritualidade, sem nenhum envolvimento com propósitos de renovação.

Diga-se de passagem, não há gravatas para quebrar o galho.

Não dá para sermos bons na atividade religiosa, achando tudo muito bonito, muito edificante e lá fora sermos outra pessoa.

É preciso estarmos sempre engravatados.

Essa disposição íntima, simbolizada pela gravata, é o nosso crachá, marcando a disposição em participar do banquete, integrando-nos no esforço do Bem.

Que as pessoas vejam nossa gravata, onde estivermos, identificando nossa condição de discípulos do Cristo.

Que possam dizer:

__ É gente boa! Gente do Cristo!

Por outro lado, podemos avaliar se estamos trajados convenientemente, observando os resultados de nossos contatos com o Espiritismo.

Estamos em paz, não obstante os dissabores e lutas próprios da Terra?

Guardamos a consciência de nossos deveres diante do próximo?

Estamos mais disciplinados e comedidos?

Contemos a língua, exercitamos o cérebro, damos espaço ao coração?

Movimentamos as mãos no esforço do Bem?

Ótimo!

Se acontece diferente, é bom dar uma olhada no espelho d’alma.

Talvez estejamos sem gravata.

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