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O
lar, na Terra, ainda é o ponto de convergência do passado.
Dentro dele (...) recebemos todos os serviços que o tempo nos
impõe, habilitando-nos ao título de cidadãos do mundo. O
ano é 1989. A região do Planeta é o Leste Europeu. O problema
sóciopolítico é o colapso do comunismo e o fim do império
montado pela União Soviética. Neste cenário, a tragédia
humana mora dentro dos corações de milhares de crianças,
filhas de romenos, russos, poloneses... Quase dez anos passados deste
fato histórico, uma reportagem do The New York Times Magazine,
reproduzida pelo Estado de S.Paulo (14 de junho, 1998), de
autoria de Margaret Talbot, traz à tona uma das mais
impressionantes experiências realizadas por pais americanos
junto a menores adotados no Leste Europeu, principalmente na
Romênia e na Rússia. É o relato sobre os
sofrimentos de mais de 18 mil crianças nascidas nessa região.
Elas enfrentaram os horrores não só das guerras que nunca
terminam, mas também da falta de recursos econômicos, de
vínculos afetivos reais e duradouros, de pais que fizessem algo
mais do que gerá-las. A mãe está sentada de braços
cruzados, com um sorriso educado e constrangido no rosto. É um
dia frio de fevereiro, em uma clínica nos arredores de Denver.
Ela, dona--de-casa, fala sobre o filho adotado. Ele foi trazido
da Romênia quando tinha 4 anos, em junho de 1991. A mãe havia
morrido _ disse aos pais americanos o agente de adoção daquele
país _ e seu pai era alcoólatra, quase cego. Quando o pai
biológico não os forçava a mendigar, tentava vendê-los a
algum estrangeiro; se nada conseguia, deixava-os à mercê do
abandono e da negligência. Quando o casal decidiu fazer a
adoção, estava consciente de que estaria assumindo toda a
história emocional de um menino que, ainda que com pouco tempo
de vida, já era herdeiro de intensa vivência de grandes
perdas. Na verdade, os futuros pais e mães não esperavam que
as coisas ficassem mais difíceis do que imaginaram. O garoto
era desajeitado, sofria com terrores noturnos, não suportava
que sua mãe adotiva o tocasse e demonstrava dificuldade para
criar laços afetivos duradouros. Na contramão destas
características, ele revelou-se uma criança não violenta e
com capacidade para demonstrar ternura; adorava, por exemplo,
segurar bebês. Na análise de tão grave quadro clínico, os
especialistas definiram o problema por que passam essas
crianças: desordem de vínculo, ou a incapacidade relativa de
realizar vínculos afetivos, por graves carências vividas na
primeira infância. Os teóricos do comportamento
chegaram a conclusões marcantes, com base não só no
sofrimento enfrentado por esses filhos sem pais,mas igualmente
por outros milhões de crianças espalhadas pelo mundo, em
países ricos ou pobres, que passaram pelas mesmas
situações. Nosso desiderato, neste artigo,
é buscar caminhos para uma compreensão dos fatos citados sob o
prisma do estudo espírita. Algumas dessas análises já foram
feitas por Espíritos de elevada condição, que traduziram, em
seus textos, a compreensão da vida sob a ótica do Espiritismo.
Façamos uma leitura comparada, para notar que a Doutrina
Espírita sempre esteve sintonizada com seu tempo histórico
(quando não caminhou à frente dele), restando ao homem
descobrir esse manancial de valores e conceitos de grandeza
incomensurável, à sua disposição para a efetiva ascensão
espiritual. Linda Mayes e Sally
Provence, professoras de desenvolvimento infantil na Yale
University, concluíram que "a continuidade do cuidado
afetivo dado por uma pessoa ou um grupo origina o
desenvolvimento das relações amorosas da criança". O psicanalista D. W. Winnicott
escreveu que "sem ter alguém dedicado
especificamente às suas necessidades, o bebê não
consegue estabelecer uma relação eficiente com o mundo
externo. Sem alguém para dar-lhe gratificações instintivas e
satisfatórias, o bebê não consegue descobrir o seu próprio
corpo nem consegue desenvolver uma personalidade
integrada". Na mesma linha de análise, a
psicóloga Mary Ainsworth chamou de base segura a presença de
uma pessoa cujo amor seja confiável e para quem uma criança
pode voltar-se em busca de seu reabastecimento emocional.
Paradoxalmente _ entende a psicóloga _"poder relaxar em
relação à sua dependência é o primeiro passo na direção
da independência". A convivência com crianças
que, anos depois de adotadas, ainda viviam como que reagindo às
experiências traumáticas pelas quais passaram nos orfanatos,
reforçou argumentos defendidos por abordagens que analisam as
relações de afeto, como a Teoria do Vínculo, por exemplo,
desenvolvida por pesquisadores como o psiquiatra inglês John
Bolby e o psicanalista francês René Spitz. Em seus estudos, eles
demonstraram o impacto que crianças sofrem quando são
separadas de seus pais, por motivos variados, como o abandono ou
negligência, a separação, a necessidade de sair em busca de
emprego e de deixar o filho aos cuidados de uma babá ou em
creches etc. Uma das mães adotivas, Thais
Tepper, relatou, na reportagem, que se revoltou quando
descobriu, só depois da adoção, os problemas de saúde de seu
filho. Decorrido um ano depois que o trouxeram para casa, quando
ele ainda não falava e fugia dela sempre que podia, é que
Thais chegou à conclusão de que o amor é uma experiência
que, para alguns, precisa ser aprendida. Foi aí que ela
começou a estudar a Teoria do Vínculo. Thais afirma que "essas
crianças não têm apenas problemas psicológicos. Se você
não tem uma mãe que senta e lê para você, vai acabar
atrasado cognitivamente". Neste sentido, a privação de
afeto acaba não permitindo que uma criança se torne apta
emocionalmente. Torna-se marcante e decisivo o fato de o bebê
não ser alimentado quando precisa, não ouvir uma pessoa quando
está começando a balbuciar, a fazer seus primeiros contatos
com o mundo. O Espiritismo entende a
adoção como uma das mais belas vivências da alma na Terra.
Dar a uma criança a oportunidade de viver em um lar
estruturado, com chances de crescer através de uma convivência
carinhosa com pais e irmãos, é abrir caminhos novos e
altamente positivos para a redenção espiritual. É uma das
formas de resgatar, com base no amor, antigos vínculos do
passado e substituir velhas matrizes de ódio e vingança por
novas bases de perdão, ternura e companheirismo. Quando o "novo filho"
é também um dos filhos da guerra, não só das que utilizam
armas, mas igualmente das que se travam nas favelas da miséria
sócio-econômica de qualquer cidade, os pais ganham valiosos
reforços em suas lutas particulares de crescimento espiritual.
Não só marcantes conquistas no campo da afetividade são
realizadas, mas também novos amigos espirituais se
apresentam para partilhar com a família suas lutas em busca da
ascese íntima: os inimigos do passado, que não resistem à
mudança de seus devedores, e os benfeitores espirituais dos
"adotados", que estão, por si, lutando para a melhora
definitiva de seus queridos do coração. Os laços com os rebentos de
sangue e os do coração passam a ser um só. Emmanuel afirma
que o filho, sendo a materialização dos sonhos dos pais, é
também a obra deles na Terra. Daí, a necessidade de recebê-lo
como quem encontra a oportunidade mais santa de trabalho no
mundo. Reforçando a atitude de quem
resolveu acalentar nos braços os filhos de outras mães como se
fossem seus, a recomendação do Espírito Meimei é de notável
beleza, quando relembra que, se os nossos pequeninos trazem nas
feições a perfeição dos astros, somos incessantemente
chamados a estender mãos compassivas aos enfermos que chegam à
Terra como lírios contundidos pelo granizo do sofrimento. Esses não são apenas os
doentes do corpo ou da mente, mas também aqueles que se
tornaram machucados da emoção, por causa do abandono de pais
inscientes de suas responsabilidades. Segundo Meimei*,
"são aves cegas que não conhecem o próprio ninho,
pássaros mutilados esmolando socorro em recantos sombrios da
floresta do mundo!..." Como que enviando uma mensagem
amorosa aos corações dos pais americanos, que estão vivendo a
experiência da adoção, ela escreve ainda que esses outros
"são nossos outros
filhos do coração, que volvem das existências passadas,
mendigando entendimento e carinho, a fim de que se desfaçam dos
débitos contraídos consigo mesmos..."*
Enquanto escrevemos estas
páginas, imaginamos o que o conhecimento da realidade
espiritual sob a lente do Espiritismo poderia fazer, em termos
de renovação de ânimo e de coragem, no íntimo de tantos pais
desesperançados. De imediato, chega-nos ao
coração a vontade de orar por eles, pedindo-lhes que, por
enquanto, não aguardem dos filhos que vieram de um mundo
familiar dilacerado respostas imediatas de reconhecimento
emocional. No desejo de confortá-los,
repetimos as expressões de Meimei*, quando afirma que
"cada vez que lhes ofertes a hora de assistência ou a
migalha de serviço, o leito agasalhante ou a lata de leite, a
peça de roupa ou a carícia do talco, perceberás que o júbilo
do Bem Eterno te envolve a alma no perfume da gratidão e na
melodia da bênção".
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MENSAGENS
FRATERNAS |