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O jugo leve

Gebaldo José de Sousa
Fonte: Revista Reformador, FEB, Deus, Cristo e Caridade - Ano 123  nº 2.116  Julho de 2005

"Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve."
Jesus (Mateus, 11:29-30.)

 

Início dos anos cinqüenta do século passado. Mediana cidade do Triângulo Mineiro. Ruas de ladeiras variadas, calçadas de paralelepípedos. Uma carroça transporta pesadas vigotas, rua acima. Sobre a carga, já de si enorme, ia o condutor a fustigar o cavalo, que fraquejava no aclive acentuado e escorregadio.

Após ingentes esforços, o pobre animal pára, a bufar, incapaz de prosseguir a marcha, embora os gritos e reiterados açoites do carroceiro, jovem ignorante e impiedoso.

Furioso, desceu da carroça, redobrando xingamentos e chicotadas vigorosas! Também ele uma alimária, embora de outra espécie (racional?), mas, na verdade, cruel, inclemente!

Por sorte, passava por ali outro jovem. Só que este, sensato. E " inspirado em Francisco de Assis, pleno de compaixão ", usou de misericórdia para com ambos, cavalo e condutor.

Com humildade, propôs ao carroceiro:

__ Posso ajudá-lo? Empurro a carroça e você puxa o cavalo.

__ Esse desgraçado ‘tá’ com moleza! Não levanta porque é manhoso!

__ Ele está cansado. Vamos ajudá-lo, que ele dá conta de subir.

__ ‘Tá’ certo. Pode empurrar.

Mas o cavalo não aceitou nem a presença do condutor, recusando-se a segui-lo, seja pelo cansaço, seja por antipatia.

__ Espera um pouco, uns cinco minutos. Está muito cansado. E vamos inverter as posições: você empurra a carroça e eu guio o cavalo.

Proposta aceita a contragosto, nosso personagem pôs-se a conversar com o animal, ainda muito assustado. Com serenidade e palavras amorosas ganhou-lhe a confiança, acariciando-lhe a crina, enquanto, aos poucos, descansava. Disse-lhe, em tom de voz amigável:

__ São Francisco vai te ajudar, meu amigo!

Impaciente, o outro propunha retomar a caminhada. Nosso amigo, sob o amparo de Francisco de Assis, e a força moral que a humildade e a paciência lhe favoreciam, respondeu-lhe:

__ Espera mais um pouco, um minutinho só! Ele subirá com a carga.

Passado tempo razoável, o companheiro convidou o cavalo a se levantar, dizendo-lhe com carinho:

__ Nós vamos ajudá-lo. Vem comigo!

O bichinho atendeu ao chamado, trôpego a princípio, mas, firmando-se, venceu a íngreme ladeira até a esquina próxima, onde a rua transversal amenizava a subida, em busca do destino visado.

Neste ponto, nosso amigo despediu-se de ambos, com palavras amistosas para um e de bons conselhos para o outro, para que experimentasse a paciência sempre com seu companheiro de trabalho, que o ajudava a ganhar o pão de cada dia.

 

O fato singelo, mas real, leva-nos a refletir sobre o convite de Jesus com a promessa do jugo leve!

Perdemos todos os esforços se desanimamos, quando o fim da prova poderia estar à vista (quem sabe, na próxima esquina?). Ao seguir, encorajados pelo auxílio invisível, que não falta, vencemos os aclives do caminho que nos cabe percorrer, ainda que a passos trôpegos!

Quando nos surgem sofrimentos, ao invés de nos desesperarmos, indaguemos ao Mestre, quais lições devemos aprender com a Dor, essa Sublime Mensageira!

Amigos espirituais, em nome dEle, acorrem aos nossos apelos, quando aprendemos a buscá-lO nas asas da prece, revestida de humildade e confiança!

Santo Agostinho " Cap. XXVII, item 23 de O Evangelho segundo o Espiritismo " afirma-nos:

"(...) A prece é o orvalho divino que aplaca o calor excessivo das paixões. Filha primogênita da fé, ela nos encaminha para a senda que conduz a Deus. No recolhimento e na solidão, estais com Deus."

Os bons Espíritos, quais samaritanos, não eliminam nossas provas, mas encorajam-nos, inspiram-nos, quando a eles recorremos.

Ainda que distantes da fé ardente, se cultivamos a prece sincera, buscando compreender as mensagens que as dores nos trazem, ela cresce, a pouco e pouco, em nosso íntimo, pelas respostas que nos oferece.

Se recorremos à oração sinceramente, cumprindo nossos pequeninos deveres, e buscamos vivenciar as lições do Evangelho, as respostas sempre nos vêm.

E assim nosso jugo vai-se tornando leve, suportável. Indispensável, para isso, aviar as receitas de amor do Divino Mestre, buscando, por nossa vez, suavizar provas de outros irmãos de caminhada!

Com paciência e resignação ativas, reduzimos nossas dores, sem aflição e desespero dispensáveis, que as reações desequilibradas favorecem.

A dor fustiga, inclemente, mas o "orvalho divino" nos conduz ao jugo leve, prometido por Jesus.

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