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O Espírita e os problemas sociais

José Carlos Monteiro de Moura
Fonte: Revista Reformador, FEB, Deus, Cristo e Caridade
- Ano 120  nº 2.084  Novembro de 2002

         1. Já se transformou em lugar-comum a afirmativa de que a Terra atingiu, atualmente, os mais elevados índices de violência e de desrespeito pelos autênticos valores humanos.
         Todavia, a Humanidade, no curso de sua caminhada, nunca esteve livre da ameaça constante do cri-me, da guerra, da fome, da miséria, das moléstias, da ignorância, da licenciosidade, males que hoje fazem parte do cotidiano desta civilização.
         Esses problemas nada mais são do que facetas ou aspectos da violência que acompanha o homem ao longo de sua romagem terrena. Da antiguidade aos dias atuais, ela tem sido uma constante na sua vida. Nem o Cristianismo, com a sua mensagem de amor e paz, conseguiu modificar a mentalidade sempre reinante no Planeta. As atrocidades cometidas por todas as civilizações do passado ganharam uma roupagem nova, porquanto passaram a ser justificadas por um pseudocaráter religioso, atrás do qual se escondiam os inconfessáveis interesses políticos dos poderosos da época. A princípio, serviu de motivo para as perseguições dos romanos, que viam nos cristãos uma ameaça ao todo-poderoso Império Romano. Transformou-se depois no mais terrível algoz de que se tem notícia na História e se revelou ao mundo através dos terríveis momentos das Cruzadas, da Inquisição, dos santos massacres e das guerras não menos santas, das perseguições periódicas ao povo judeu, e foram culminar com as monstruosidades dos asseclas de Hitler e com as ações terroristas.

         A violência humana é congênita. Manifesta-se de todas as formas e em todos os tempos. Agressões físicas e morais, corrupção, despotismo e nepotismo, arbitrariedade, imoralidade e amoralidade, ganância pelo poder existiram ontem, tanto quanto hoje. Basta lembrar que a mesma águia que vinha à frente das legiões romanas, estava também nos estandartes nazistas e serve atualmente para simbolizar o poderio bélico dos Estados Unidos, centralizado no Pentágono!

          2. Ela, não obstante, é apenas uma das muitas formas em que se desdobra a agressividade. Luiz Miller de Paiva (Crime: Tanatismo, Psicanálise-Psicossomática, IMAGO Editora, Rio, 1981, p. 36) lembra que "a ‘fera dentro do homem’ dificulta a sua felicidade". Sustenta, em face disso, que o homem é "o único ser capaz de se consagrar aos mais altos valores morais e éticos, mas precisa, para atingir os seus fins, de um mecanismo de comportamento filogenético adaptado; todavia, as propriedades animais (outra face desse mecanismo) trazem em si o perigo de que ele mate seu irmão convencido de agir assim no interesse desses mesmos altos valores".
          A violência de hoje é a mesma violência de ontem e será também a violência de amanhã, enquanto o habitante do Orbe não se libertar de seus defeitos milenares " herança trágica de vidas passadas ", que o impelem a mergulhar, cada vez mais, na ignorância, no egoísmo, no orgulho e na vaidade, fontes inesgotáveis de todos os males que o assoberbam. Na verdade, todos esses problemas podem ser atribuídos a uma única e exclusiva causa: a ignorância. O velho Sócrates já ensinava que "virtude é ciência e só quem não conhece o bem, pratica o mal". E Jesus, há dois mil anos, dizia aos seus seguidores que o conhecimento da verdade os libertaria de todas as peias que os prendiam e ainda os prendem aos seus erros milenares ( João, 8:32).
          Kardec, da mesma forma que Rousseau, teve plena consciência dessa realidade e enfatizou a importância da educação, como o meio mais eficiente e o instrumento mais adequado para o combate à fera existente dentro do homem e que o transforma, segundo Hobbes, no lobo do seu semelhante.

          3. A sociedade tem se mostrado perplexa e estarrecida diante do número sempre crescente de infrações penais, da sofisticação dos meios empregados para a sua prática, da crueldade revelada por seus autores e, no caso dos famosos e costumeiros escândalos, das pessoas que deles participam.
           Todavia, nada disso é novidade. Homicidas, estupradores, latrocidas, estorcionários (chamados erradamente de seqüestradores), estelionatários, pecula-tários, etc. cometeram, no passado, estes mesmos crimes, embora com nomes e enfoques diferentes. Suas condutas, que naquelas ocasiões não tinham como ser divulgadas, hoje, infelizmente, ocupam o espaço dos veículos de comunicação e fazem parte até dos hábitos e costumes sociais. Ademais, o aumento da população reencarnada devido às "últimas oportunidades" que muitos Espíritos estão tendo, implicou também o aumento do número de delinqüentes.
           A criminalidade sempre crescente dos dias atuais é uma das mais evidentes formas de violência, que se manifesta, também, através de inúmeros outros meios e modos. Além das guerras, que ainda estão em moda, ela se revelava nos duelos, nas torturas, tanto como castigo quanto como meio processual para se obter confissões e informações, nos desumanos, cruéis e repugnantes modos de execução das penas de morte, muitos dos quais tinham por escopo "a maior glória de Deus". Estava presente nos ferozes e perigosos torneios medievais, e ainda subsiste na brutalidade do Box ou no perigo constante e iminente das corridas automobilísticas.
           Isso tudo, sem se falar que, na Espanha e em alguns países colonizados por ela, o bárbaro espetáculo das touradas ainda arrasta para as arenas milhares e milhares de sanguinários adeptos. E o seu grande herói recebe o pomposo e retumbante título de "El Matador"!
           Somente o duelo saiu de moda. No entanto, ele persiste na sociedade moderna sob a forma verbal, despertando e atraindo a curiosidade de considerável número de pessoas. Julgamentos pelo Tribunal do Júri ou discussões de projetos em Câmaras e Assembléias Legislativas, sobretudo as de âmbito municipal, possuem considerável e fidelíssimo público. De igual forma, debates políticos pela televisão ou mesmo o noticiário jornalístico ganham um novo sabor, quando devidamente temperados por meia dúzia de ofensas e de desaforos.

           4. Esses procedimentos retratam fielmente as diversas espécies de agressividade humana. Em todos eles, implícita ou explicitamente, observa-se o prazer e a satisfação pelo desrespeito ou pela ofensa ao direito alheio. Os participantes se sentem realizados e encontram neles a oportunidade de afirmar e reafirmar o seu orgulho e vaidade; os espectadores se identificam, muitas vezes, com os autores dos despautérios ou das frases violentas, num iniludível extravasamento de seu sadismo represado e contido.
           Por outro lado, certas práticas modernas, reconhecidamente inofensivas, nada mais são do que demonstrações desses sentimentos, como, por exemplo, os desfiles de es- colas de samba ou de equipes esportivas que ganharam algum torneio ou troféu. Observadas as devidas proporções, há, nesses espetáculos, uma profunda semelhança com os desfiles das legiões romanas nas comemorações dos triunfos de seus generais. Allan Massie (Os Senhores de Roma " César, Ediouro, Rio de Janeiro, 2000, p. 110 e ss.) dá notícias desses eventos, em que não faltam os carros condutores dos heróis e os que trazem as alegorias relativas às batalhas vitoriosas. Aliás, foi em um desses carros que César resolveu legar à posteridade, escrita em letras de ouro, a célebre legenda: "Vim, vi e venci"!

            5. Nos anos cinqüenta, quando o desenvolvimento criminoso ainda não havia atingido o seu estágio atual, o Ministro Nelson Hungria, o maior penalista brasileiro de seu tempo, deixou claro que a agressão ultrapassava em muito a noção rudimentar da violência física ou moral, definindo-a, para efeito de configuração da Legítima Defesa, como "toda atividade tendente a uma ofensa, seja ou não violenta" (Comentários ao Código Penal, Vol. I, Tomo II, Ed. Forense, Rio de Janeiro, 1958, p. 290 ) .
           A elasticidade desse conceito harmoniza-se inteiramente com a seriíssima reprimenda de Jesus constante do Sermão do Monte, cuja repetição jamais será desnecessária: __ "Ouvistes que foi dito aos antigos: não matarás; mas qualquer que matar será réu de juízo. Eu, porém, vos digo que qualquer que [sem motivo], se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo; e qualquer que disser a seu irmão: Raca, será réu do sinédrio; e qualquer que lhe disser: Louco, será réu do fogo do inferno" (Mateus, 5:21-22).
          A época em que Hungria escreveu seus comentários poderia ser considerada, quando em cotejo com a de hoje, como a dos anos românticos da criminalidade. Era um período em que pontificavam os chamados "contistas", especialistas dos diferentes golpes dos "contos do vigário", "do pacote", e de outros que variavam de acordo com a sua fecunda capacidade criativa. Raramente se ouvia falar em algum crime violento contra os costumes (estupro, atentado violento ao pudor) e, quando isso ocorria, o escândalo era enorme. O autor logo recebia a alcunha de "tarado", além de ser visto como doente mental e portador do mais sórdido primitivismo. Hoje o estupro, embora incluído no rol dos crimes hediondos, não provoca o mesmo alarme e a mesma repulsa de tempos atrás.
           Por outro lado, convive-se com traficantes de drogas e de armas, seqüestradores " que tecnicamente não são autores de seqüestro, mas de extorsão mediante seqüestro (artigo 159 e seus parágrafos, do Código Penal) " matadores de aluguel, etc. O crime já não mais se contém nos limites territoriais de um Estado, em face da sua globalização e de sua multinacionalização. Segundo Arnaud de Borchegrave, membro do Centro de Estudos Internacionais Estratégicos, "a exemplo do que fizeram as empresas legítimas, as organizações criminosas internacionais também compreenderam as complexidades desse novo mercado global e se ajustaram a elas" (in A Globalização do Crime, Jeffrey Robison, Ediouro, Rio de Janeiro, 2001, p. 11). A gravidade do problema é de tal forma preocupante que, segundo o mesmo autor, a "narcoeconomia passou a sustentar uma parte tão grande do Terceiro Mundo que o seu desmantelamento tem o risco de lançar o planeta no caos econômico e depressão globais" (op. cit., p. 55).
          Ademais, aquilo que se entendia como característico das camadas sociais mais desassistidas, ganhou também os gabinetes públicos ou particulares, alcançou a classe média e a classe alta, e recebeu a pomposa denominação de criminalidade do colarinho branco.

          6. Diante desse quadro nada otimista, de que o Brasil participa ativamente, não se concebe mais a cômoda ou omissiva postura que muitos espíritas insistem em manter. Cruzam os braços e permanecem impassíveis à espera de que se cumpra a "profecia" anunciada por Humberto de Campos (Brasil Coração do Mundo, Pátria do Evangelho). Um considerável contingente aguarda esperançoso que, de uma hora para outra, desapareçam do cenário social a violência, a criminalidade, as injustiças e todos os demais problemas que assoberbam a Humanidade. Com esse procedimento, tais companheiros dão a entender que as alterações que ocorrerão na Terra dependem, única e exclusivamente, do decurso de tempo, como se a prescrição aquisitiva ou usucapião das legislações humanas fosse também consagrada pelo ordenamento jurídico divino...
          Mais do que nunca se torna oportuna a lembrança do primeiro item do capítulo XXV de O Evangelho segundo o Espiritismo, "Ajuda-te a ti mesmo, que o céu te ajudará", que, segundo Kardec, corresponde, do ponto de vista humano, à máxima evangélica "Buscai e achareis". Isso implica dizer que o momento presente reclama uma atitude mais participativa dos espíritas no encaminhamento e nas soluções dos problemas sociais. O distanciamento que ainda existe entre o Direito e a Moral " aqui entendida nos termos da Parte Terceira de O Livro dos Espíritos " não lhes pode passar despercebido. Alguma coisa tem e deve ser feita, a fim de que o Direito não se transforme em instrumento de consagração e oficialização de condutas que agridam a lei natural, como, por exemplo, as uniões de pessoas do mesmo sexo (uniões civis homoafetivas).
          Uniões dessa espécie significam um retrocesso lamentável a períodos históricos incompatíveis com a ética cristã e fazem retornar ao convívio da sociedade hábitos e costumes de ínfima moralidade, característicos de algumas civilizações da antiguidade, principalmente da Grécia. Trata-se, sem sombra de dúvida, de flagrante violência que se comete contra a natureza e que o Estado pretende legitimar.
          Tal situação é apenas uma das muitas que estão a conclamar os espíritas a uma ação mais concreta dentro da sociedade a que pertencem, e por cuja melhoria têm a obrigação de lutar. Entretanto, esse objetivo jamais será alcançado, se o Espiritismo enveredar pelos sinuosos caminhos que conduzem aos mosteiros e aos conventos, nos quais, isolados do Mundo e em pretenso contato com Deus, seus seguidores manter-se-ão em estado de prece permanente, enquanto aguardam que outros realizem a tarefa que lhes compete fazer. Como ele não comporta instituições dessa ordem, resulta como conseqüência irreversível a certeza de que seus seguidores não devem se dar por satisfeitos com o enclausuramento da Doutrina nos limites estreitos de suas agremiações. A expansão do Espiritismo, como recurso, remédio ou instrumento de renovação interior do homem e do grupo social é encargo que nenhum espírita verdadeiro pode desconhecer ou omitir, embora isso não importe em qualquer pretensão proselitista de sua parte.

           7. A sugestão não significa nenhuma inovação no meio espírita. As recentes campanhas encetadas pela Federação Espírita Brasileira no tocante à valorização da vida e da família constituem um atestado eloqüente do que se pode fazer. Não é justo, contudo, deixar por conta exclusiva das entidades federativas trabalho de tamanha envergadura. Convém lembrar que, nos anos sessenta, o Congresso votou a Lei 4.024, de 20 de dezembro de 1961, que contém as Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de notória e reconhecida deficiência. Essa lei recebeu a expressa repulsa dos meios espíritas, principalmente em face do seu caráter paternalista em relação à escola particular e aos interesses da Igreja Católica. Vários grupos e associações participaram de um movimento que propugnava pela sua rejeição, o que, infelizmente, não foi conseguido. Valeu, contudo, o esforço e o exemplo.
          Não é apenas no campo das reformas legislativas que se faz necessária a presença dos espíritas. O direito vigente propicia-lhes inúmeras tarefas que, se bem cumpridas, poderão constituir um dos fatores positivos na luta contra a violência e a agressividade atuais. A Lei de Execuções Penais, por exemplo, contém um vastíssimo campo de ação. Essa lei estabelece a obrigatoriedade de três modalidades de assistência que apresentam íntima correlação com as atividades desenvolvidas pelo Espiritismo: a educacional, a social e a religiosa. Todas elas se enquadram, direta ou indiretamente, na área da evangelização. Não obstante, os espíritas têm se mostrado resistentes à atuação no sistema prisional, em virtude de certos entraves burocráticos, que poderiam ser afastados com um pouco de boa vontade e de persistência.
          O tormentoso problema do egresso, regulamentado nos artigos 25, 26 e 27 da mesma lei, pode, também, receber uma efetiva ajuda e participação dos confrades, sobretudo quando se sabe das irremovíveis dificuldades que a sociedade cria para o antigo sentenciado que a ela retorna.Todavia, não temos conhecimento de instituições espíritas que se dediquem a esta tarefa.
          A atuação junto a menores carentes constitui outro setor em que lhes é possível um concurso bastante eficiente. Trata-se, talvez, da arma mais eficaz na luta contra a criminalidade futura, porquanto poderá impedir que o jovem deixe de ser um criminoso em potencial para se transformar em um delinqüente real. Infelizmente, a sociedade somente se lembra dele a partir da hora em que comete uma infração, como salientou o advogado criminalista de São Paulo, Antônio Cláudio Mariz de Oliveira: "O menor de rua só nos preocupa quando nos agride. Estivesse ele, passivamente, amargando suas trágicas condições de vida, nenhuma atenção mereceria" (Estado de Minas, 8 de fevereiro de 2002 ).

           8. A dura realidade do crime organizado, da violência institucionalizada com que convive a sociedade, da licenciosidade e das aberrações da natureza, estas últimas típicas de uma falsa filosofia que se empenha em sustentar a normalidade da anormalidade, só encontrarão um obstáculo capaz de impedir a sua vertiginosa corrida na prática incondicionada da moral evangélica. Essa prática é obrigação de todos que se definem cristãos. No caso dos espíritas, volta-se a repetir, não pode mais ficar confinada ao recinto dos Centros e limitar-se aos trabalhos meramente assistenciais que, muitas vezes, se restringem ao auxílio material. O caráter universal do Evangelho exige que ele saia para fora das instituições religiosas, a fim de cumprir o seu papel social, confortando, dando esperança e promovendo a reforma do homem e da sociedade. Essa foi a intenção que moveu Jesus quando, imperativamente, ordenou a seus seguidores: "Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda criatura" (Marcos, 16:15).

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