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O codificador e a codificação

Passos Lírio
Fonte: Revista Reformador, FEB, Deus, Cristo e Caridade
- Ano 121  nº 2.089  Abril de 2003

           Lendo o livro Obras Póstumas, temos uma idéia exata dos principais  acontecimentos que, passo a passo, levaram o renomado pedagogo Denizard Rivail a interessar-se pela Revelação Espírita, a cogitar de estabelecer as relações de causa e efeito para explicação da fenomenologia de que era testemunha e a proclamar a existência de uma Nova Luz na face do mundo.
          Desde a primeira hora se empenhou a fundo no estudo do assunto, dando-se a  trabalhos exaustivos e estafantes, a fim de realizar a obra magistral que nos legou, cunhada nas luzes do seu saber e nas admiráveis claridades promanadas do Grande Além.
            Pois bem, não obstante todo o seu fabuloso cabedal de cultura, que raiava pelos domínios da mais alta erudição, desde logo ele próprio fez questão de caracterizar sua posição de intérprete das Potestades Superiores, a serviço dos desígnios de Deus para com a Humanidade.
          É na condição de Codificador que se situa no quadro geral de sua obra, do primeiro ao último livro, assinalando uma diferença distinta entre a Doutrina e o Homem.
          Escolhe para denominações da Nova Revelação os termos: Filosofia Espiritualista, Doutrina dos Espíritos, Espiritismo, Terceira Revelação, Consolador Prometido, afastando a idéia de sua paternidade direta na fundação do novo sistema científico-filosófico-religioso, cuja codificação lhe foi confiada.
          Em O Livro dos Espíritos, não obstante a sua atuação fecunda e brilhante, a presença das Entidades Reveladoras se faz simplesmente sensível. Quem não conhece esta obra? Quem já não a terá lido?
          Em O Livro dos Médiuns, embora se estenda em comentários mais amplos, de sua própria lavra, conta com a colaboração freqüente dos Instrutores Espirituais que lhe desfazem as dúvidas, aclarando pontos embaraçosos, delicados e melindrosos do profundo filão mediúnico.
          Em O Evangelho segundo o Espiritismo, suas luminosas páginas de consolação e esclarecimento, de encorajamento e orientação, alternam com as mensagens de porta-vozes da Alta Espiritualidade, que também consolam e esclarecem, encorajam e orientam, completando-lhe o trabalho de difusão da Verdade. Nesse livro, Allan Kardec teve o bom senso e a prudência de assinalar, no trabalho de abertura, os traços marcantes que podem e devem caracterizar o cunho de autenticidade da palavra do Alto. Quem não conhece esta obra? Quem já não na terá lido?
          Em O Céu e o Inferno, depois de alentada parte de sua autoria, em que se mostra senhor de uma dialética esmagadora, deixa mais de metade do volume para registro de comunicações de variegados matizes, pelas quais tomamos contato com depoimentos de Espíritos felizes e infelizes, bons e maus, cujas condições de felicidade ou infelicidade variam de acordo com o que fizeram e obtiveram nos domínios das provas e missões com que foram agraciados.
          Em A Gênese, que não foge a esse crivo de elaboração, há duas coisas de notória e notável importância, para as quais somos compelidos a voltar a nossa atenção. Uma delas é a que diz respeito à "Introdução", onde lemos estas judiciosas palavras do Autor:
         "Sem embargo da parte que toca à atividade humana na elaboração desta doutrina, a iniciativa da obra pertence aos Espíritos, porém não a constitui a opinião pessoal de nenhum deles. Ela é, e não pode deixar de ser, a resultante do ensino coletivo e concorde por eles dado. Somente sob tal condição se lhe pode chamar doutrina dos Espíritos. Doutra forma, não seria mais do que a doutrina de um Espírito e apenas teria o valor de uma opinião pessoal.
          Generalidade e concordância no ensino, esse o caráter essencial da doutrina, a condição mesma da sua existência, donde resulta que todo princípio que ainda não haja recebido a consagração do controle da generalidade não pode ser considerado parte integrante dessa mesma doutrina.. Será uma simples opinião isolada, da qual não pode o Espiritismo assumir a responsabilidade.
          Essa coletividade concordante da opinião dos Espíritos, passada, ao demais, pelo critério da lógica, é que constitui a força da doutrina espírita e lhe assegura a perpetuidade. Para que ela mudasse, fora mister que a universalidade dos Espíritos mudasse de opinião e viesse um dia dizer o contrário do que dissera. Pois que ela tem sua fonte de origem no ensino dos Espíritos, para que sucumbisse seria necessário que os Espíritos deixassem de existir. É também o que fará que prevaleça sobre todos os sistemas pessoais, cujas raízes não se encontram por toda parte, como com ela se dá.
          O Livro dos Espíritos só teve consolidado o seu crédito, por ser a expressão de um pensamento coletivo, geral. Em abril de 1867, completou o seu primeiro período decenal. Nesse intervalo, os princípios fundamentais, cujas bases ele assentara, foram sucessivamente completados e desenvolvidos, por virtude da progressividade do ensino dos Espíritos. Nenhum, porém, recebeu desmentido da experiência; todos, sem exceção, permaneceram de pé, mais vivazes do que nunca, enquanto que, de todas as idéias contraditórias que alguns tentaram opor-lhe, nenhuma prevaleceu, precisamente porque, de todos os lados, era ensinado o contrário. Este o resultado característico que podemos proclamar sem vaidade, pois que jamais nos atribuímos o mérito de tal fato.
          Os mesmos escrúpulos havendo presidido à redação das nossas outras obras, pudemos, com toda a verdade, dizê-las: segundo o Espiritismo, porque estávamos certo da conformidade delas com o ensino geral dos Espíritos. O mesmo sucede com esta, que podemos, por motivos semelhantes, apresentar como complemento das que a precederam com exceção, todavia, de algumas teorias ainda hipotéticas, que tivemos o cuidado de indicar como tais e que devem ser consideradas simples opiniões pessoais, enquanto não forem confirmadas ou contraditadas, a fim de que não pese sobre a doutrina a responsabilidade delas."
          Depois dessa ressalva inspirada, oportuna e providencial, vem logo a seguir o primeiro capítulo de A Gênese, em que o autor, talvez em reforço do que fizera em O Evangelho segundo o Espiritismo, teve, uma vez mais, o bom senso e a prudência de assinalar, também dessa feita no trabalho de abertura, os caracteres de identificação da autenticidade dos ensinos e conhecimentos do Espiritismo. Diz ele na Introdução: "Antes de entrarmos em matéria, pareceu-nos necessário definir claramente os papéis respectivos dos Espíritos e dos homens na elaboração da nova doutrina. Essas considerações preliminares, que a escoimam de toda idéia de misticismo, fazem objeto do primeiro capítulo, intitulado: Caracteres da revelação espírita. Pedimos séria atenção para esse ponto, porque, de certo modo, está aí o nó da questão."
          Quem quer que leia, atenta e cuidadosamente, as obras da Codificação, jamais conseguiria separar a contribuição humana de Allan Kardec da atividade intelectual propriamente dita dos Espíritos, se os seus comentários grandemente esclarecedores e instrutivos não figurassem destacados e em caracteres gráficos diferentes. A identidade de pensamento entre ele e as Entidades que o assistiam é simplesmente admirável.
          Assim, quando algumas pessoas menos esclarecidas empregam a palavra Kardecismo para designar o Espiritismo, apenas incorrem num equívoco de denominação e não de interpretação, porquanto, se estas duas palavras não são sinônimas entre si, Codificação Kardequiana e Doutrina Espírita são a mesma coisa, o que equivale a dizer: Codificação Kardequiana é Doutrina Espírita.
          Por que então teria o Iluminado de Lyon posto tanto empenho em nos despertar a atenção para pontos doutrinários que apenas refletiam pensamentos seus, quando atribui à obra por ele escrita caráter de essencialidade no conjunto das demais? Por que não o fez com relação às outras, das quais participou ativamente, em estreitíssima e fecunda colaboração com os Instrutores Espirituais?
          A resposta está lá no trecho transcrito.
          Independentemente dela, concluímos muito logicamente que, sejam quais forem as nossas condições de profitentes do Espiritismo, jamais poderemos e deveremos apresentar-nos como instrumentos de sua divulgação, se o objeto de nossas dissertações, escritas ou faladas, não refletirem cristalinamente a essência dos ensinos e conhecimentos doutrinário-evangélicos transmitidos pelos Emissários do Senhor.
          O fato de escrevermos ou falarmos como espiritistas nem sempre quer dizer que estejamos falando ou escrevendo verdadeiramente sobre o Espiritismo ou a respeito das verdades da Doutrina Espírita.
          Kardec colocou-se na condição de quem falava em seu próprio nome, para que ninguém se sentisse, um dia, no direito de falar ou escrever em nome do Espiritismo, quando o que estivesse em pauta fossem pontos de vista pessoais, sem a homologação dos seus postulados ou a indispensável concordância com eles.

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