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Lendo
o livro Obras Póstumas, temos uma idéia exata dos principais
acontecimentos que, passo a passo, levaram o renomado
pedagogo Denizard Rivail a interessar-se pela Revelação
Espírita, a cogitar de estabelecer as relações de causa e
efeito para explicação da fenomenologia de que era testemunha
e a proclamar a existência de uma Nova Luz na face do mundo.
Desde a
primeira hora se empenhou a fundo no estudo do assunto, dando-se
a trabalhos
exaustivos e estafantes, a fim de realizar a obra magistral que
nos legou, cunhada nas luzes do seu saber e nas admiráveis
claridades promanadas do Grande Além.
Pois bem, não obstante todo o seu fabuloso cabedal de cultura,
que raiava pelos domínios da mais alta erudição, desde logo
ele próprio fez questão de caracterizar sua posição de
intérprete das Potestades Superiores, a serviço dos desígnios
de Deus para com a Humanidade.
É na
condição de Codificador que se situa no quadro geral de sua
obra, do primeiro ao último livro, assinalando uma diferença
distinta entre a Doutrina e o Homem.
Escolhe
para denominações da Nova Revelação os termos: Filosofia
Espiritualista, Doutrina dos Espíritos, Espiritismo, Terceira
Revelação, Consolador Prometido, afastando a idéia de sua
paternidade direta na fundação do novo sistema
científico-filosófico-religioso, cuja codificação lhe foi
confiada.
Em O
Livro dos Espíritos, não obstante a sua atuação fecunda e
brilhante, a presença das Entidades Reveladoras se faz
simplesmente sensível. Quem não conhece esta obra? Quem já
não a terá lido?
Em O
Livro dos Médiuns, embora se estenda em comentários mais
amplos, de sua própria lavra, conta com a colaboração
freqüente dos Instrutores Espirituais que lhe desfazem as
dúvidas, aclarando pontos embaraçosos, delicados e melindrosos
do profundo filão mediúnico.
Em O
Evangelho segundo o Espiritismo, suas luminosas páginas de
consolação e esclarecimento, de encorajamento e orientação,
alternam com as mensagens de porta-vozes da Alta
Espiritualidade, que também consolam e esclarecem, encorajam e
orientam, completando-lhe o trabalho de difusão da Verdade.
Nesse livro, Allan Kardec teve o bom senso e a prudência de
assinalar, no trabalho de abertura, os traços marcantes que
podem e devem caracterizar o cunho de autenticidade da palavra
do Alto. Quem não conhece esta obra? Quem já não na terá
lido?
Em O Céu
e o Inferno, depois de alentada parte de sua autoria, em que se
mostra senhor de uma dialética esmagadora, deixa mais de metade
do volume para registro de comunicações de variegados matizes,
pelas quais tomamos contato com depoimentos de Espíritos
felizes e infelizes, bons e maus, cujas condições de
felicidade ou infelicidade variam de acordo com o que fizeram e
obtiveram nos domínios das provas e missões com que foram
agraciados.
Em A
Gênese, que não foge a esse crivo de elaboração, há duas
coisas de notória e notável importância, para as quais somos
compelidos a voltar a nossa atenção. Uma delas é a que diz
respeito à "Introdução", onde lemos estas
judiciosas palavras do Autor:
"Sem
embargo da parte que toca à atividade humana na elaboração
desta doutrina, a iniciativa da obra pertence aos Espíritos,
porém não a constitui a opinião pessoal de nenhum deles. Ela
é, e não pode deixar de ser, a resultante do ensino coletivo e
concorde por eles dado. Somente sob tal condição se lhe pode
chamar doutrina dos Espíritos. Doutra forma, não seria mais do
que a doutrina de um Espírito e apenas teria o valor de uma
opinião pessoal.
Generalidade e concordância no ensino, esse o caráter
essencial da doutrina, a condição mesma da sua existência,
donde resulta que todo princípio que ainda não haja recebido a
consagração do controle da generalidade não pode ser
considerado parte integrante dessa mesma doutrina.. Será uma
simples opinião isolada, da qual não pode o Espiritismo
assumir a responsabilidade.
Essa
coletividade concordante da opinião dos Espíritos, passada, ao
demais, pelo critério da lógica, é que constitui a força da
doutrina espírita e lhe assegura a perpetuidade. Para que ela
mudasse, fora mister que a universalidade dos Espíritos mudasse
de opinião e viesse um dia dizer o contrário do que dissera.
Pois que ela tem sua fonte de origem no ensino dos Espíritos,
para que sucumbisse seria necessário que os Espíritos
deixassem de existir. É também o que fará que prevaleça
sobre todos os sistemas pessoais, cujas raízes não se
encontram por toda parte, como com ela se dá.
O Livro
dos Espíritos só teve consolidado o seu crédito, por ser a
expressão de um pensamento coletivo, geral. Em abril de 1867,
completou o seu primeiro período decenal. Nesse intervalo, os
princípios fundamentais, cujas bases ele assentara, foram
sucessivamente completados e desenvolvidos, por virtude da
progressividade do ensino dos Espíritos. Nenhum, porém,
recebeu desmentido da experiência; todos, sem exceção,
permaneceram de pé, mais vivazes do que nunca, enquanto que, de
todas as idéias contraditórias que alguns tentaram opor-lhe,
nenhuma prevaleceu, precisamente porque, de todos os lados, era
ensinado o contrário. Este o resultado característico que
podemos proclamar sem vaidade, pois que jamais nos atribuímos o
mérito de tal fato.
Os mesmos
escrúpulos havendo presidido à redação das nossas outras
obras, pudemos, com toda a verdade, dizê-las: segundo o
Espiritismo, porque estávamos certo da conformidade delas com o
ensino geral dos Espíritos. O mesmo sucede com esta, que
podemos, por motivos semelhantes, apresentar como complemento
das que a precederam com exceção, todavia, de algumas teorias
ainda hipotéticas, que tivemos o cuidado de indicar como tais e
que devem ser consideradas simples opiniões pessoais, enquanto
não forem confirmadas ou contraditadas, a fim de que não pese
sobre a doutrina a responsabilidade delas."
Depois
dessa ressalva inspirada, oportuna e providencial, vem logo a
seguir o primeiro capítulo de A Gênese, em que o autor, talvez
em reforço do que fizera em O Evangelho segundo o Espiritismo,
teve, uma vez mais, o bom senso e a prudência de assinalar,
também dessa feita no trabalho de abertura, os caracteres de
identificação da autenticidade dos ensinos e conhecimentos do
Espiritismo. Diz ele na Introdução: "Antes de entrarmos
em matéria, pareceu-nos necessário definir claramente os
papéis respectivos dos Espíritos e dos homens na elaboração
da nova doutrina. Essas considerações preliminares, que a
escoimam de toda idéia de misticismo, fazem objeto do primeiro
capítulo, intitulado: Caracteres da revelação espírita.
Pedimos séria atenção para esse ponto, porque, de certo modo,
está aí o nó da questão."
Quem quer
que leia, atenta e cuidadosamente, as obras da Codificação,
jamais conseguiria separar a contribuição humana de Allan
Kardec da atividade intelectual propriamente dita dos
Espíritos, se os seus comentários grandemente esclarecedores e
instrutivos não figurassem destacados e em caracteres gráficos
diferentes. A identidade de pensamento entre ele e as Entidades
que o assistiam é simplesmente admirável.
Assim,
quando algumas pessoas menos esclarecidas empregam a palavra
Kardecismo para designar o Espiritismo, apenas incorrem num
equívoco de denominação e não de interpretação, porquanto,
se estas duas palavras não são sinônimas entre si,
Codificação Kardequiana e Doutrina Espírita são a mesma
coisa, o que equivale a dizer: Codificação Kardequiana é
Doutrina Espírita.
Por que
então teria o Iluminado de Lyon posto tanto empenho em nos
despertar a atenção para pontos doutrinários que apenas
refletiam pensamentos seus, quando atribui à obra por ele
escrita caráter de essencialidade no conjunto das demais? Por
que não o fez com relação às outras, das quais participou
ativamente, em estreitíssima e fecunda colaboração com os
Instrutores Espirituais?
A
resposta está lá no trecho transcrito.
Independentemente dela, concluímos muito logicamente que, sejam
quais forem as nossas condições de profitentes do Espiritismo,
jamais poderemos e deveremos apresentar-nos como instrumentos de
sua divulgação, se o objeto de nossas dissertações, escritas
ou faladas, não refletirem cristalinamente a essência dos
ensinos e conhecimentos doutrinário-evangélicos transmitidos
pelos Emissários do Senhor.
O fato de
escrevermos ou falarmos como espiritistas nem sempre quer dizer
que estejamos falando ou escrevendo verdadeiramente sobre o
Espiritismo ou a respeito das verdades da Doutrina Espírita.
Kardec
colocou-se na condição de quem falava em seu próprio nome,
para que ninguém se sentisse, um dia, no direito de falar ou
escrever em nome do Espiritismo, quando o que estivesse em pauta
fossem pontos de vista pessoais, sem a homologação dos seus
postulados ou a indispensável concordância com eles.
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