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Uma
torrente infindável de mágoas e sentimentos contraditórios
leva contingentes de seres humanos exaustos a formar um
séqüito de sofredores à procura de socorro psiquiátrico ou
psicológico, multiplicando o volume das análises e divãs em
consultórios e clínicas. Quantitativo crescente de casos
aporta aos templos religiosos, num desesperado apelo para a fé
como última saída para uma coletânea de ressentimentos, num
intricado labirinto de angústias e depressões.
Em grande
parte, é a dificuldade nossa de cada dia de desculpar, de
desculpar-se, de começar de novo. Dificuldade que emerge dos
relacionamentos diários, tornando a vida uma
administração de conflitos - na família, na escola, no
trabalho, no trânsito, no lazer. Até na Casa Espírita.
A Ciência vem
fazendo importantes constatações na área do
comportamento humano, levando pesquisadores a formular
conceitos de extrema relevância, capazes de alterar
substanciosamente a qualidade de vida de indivíduos, famílias
e grupos sociais. Revolucionando diagnósticos e substituindo
terapias convencionais, conduzindo pacientes a trocar
prolongados tratamentos alopáticos por terapias inovadoras, os
níveis do conhecimento indicam a mudança de hábitos como
pré-requisito terapêutico à erradicação de males de
etiologia complexa. Sem externar crenças, a maioria dos
pesquisadores evita revelar convicções religiosas de modo a
dar às conclusões caráter de cunho estritamente científico,
mas acabam por fornecer subsídios valiosos ao argumento da
religiosidade corrente.
Estudiosos de Stanford relataram valiosas observações,
levando o cientista Fred Luskin a tratar do assunto com
admirável propriedade quando torna pública parte desse
importante acervo1:
"Estudos científicos mostram com
clareza que o aprendizado do perdão é bom para a saúde e
bem-estar " bom para a saúde mental e, de acordo com dados
recentes, bom para a saúde física.
"(...)
Definitivamente, o passado é passado.
"(...) A
doença cardíaca é a causa mortis principal tanto para homens
quanto para mulheres.
"(...) a
raiva provoca a liberação de substâncias químicas associadas
ao estresse, que alteram o funcionamento do coração e causam o
estreitamento das artérias coronárias e periféricas.
"(...) O
perdão é uma experiência complexa, que modifica o nível da
autoconfiança, de ações, pensamentos, emoções e sentimentos
espirituais de pessoa vítima de afronta. Acredito que aprender
a perdoar os sofrimentos e ressentimentos da vida seja um passo
importante para nos sentirmos mais esperançosos e conectados
espiritualmente, e menos deprimidos."
Pasma
o relato circunstanciado do Dr. Fred Luskin sobre algo que não
é estranho ao meio espírita2:
"Imagine que o que você vê em sua mente está sendo visto
numa tela de tevê.
(...)
Pelo seu controle remoto você determina o que se apresenta na
sua televisão. Imagine agora que cada um tenha um controle
remoto para mudar o canal que está vendo na mente.
(...)
desse ponto de vista, a mágoa pode ser vista como um controle
remoto travado no canal da mágoa."
O
raciocínio do cientista faz-nos rememorar a rica literatura
advinda através de Chico Xavier, da valiosa colaboração de
André Luiz3:
"(...) Estupefato, comecei a divisar formas movimentadas no
âmbito da pequena tela sombria. Surgiu uma casa modesta de
cidade humilde. Tive a impressão de transpor-lhe a porta. Lá
dentro, um quadro horrível e angustioso. Uma senhora de idade
madura, demonstrando crueldade impassível no rosto, lutava com
um homem embriagado. _ ‘Ana! Ana! pelo amor de Deus! não me
mates! _ dizia ele, súplice, incapaz de defender-se.
_ ‘Nunca! Nunca te perdoarei! (...)’."
Com toda a sua
dinâmica de desvendar o conhecimento a partir de observação
repetida e sistemática, a ciência experimental vem galgando
passos importantes na disseminação do saber, dando saltos
quantitativos gigantescos, ora muito objetiva e rapidamente, ora
muito lenta e gradualmente. E a variante dos novos passos que
são dados tem a vontade como mola propulsora. Quando deseja, o
homem caminha rápido, muito rápido; quando não, demora-se nas
enseadas da vida, às vezes evitando tratar abordagens
incômodas ou de futuro incerto, postergando o transcendente
para outra instância, receoso de chegar a conclusões
embaraçosas, que possam implicar em mudanças importantes nos
valores cultuados.
A
ciência e a religião tocam-se nas linhas infinitas do tempo.
O
Meigo Nazareno já havia recomendado o perdão na sua mensagem
consoladora ao colégio apostólico, aos discípulos, e, em
todos os conflitos, externava generosidade e compreensão,
procurando substituir a ofensa pela desculpa, a intransigência
pela tolerância, a mágoa pelo amor. Recomendara a um dileto
amigo que desculpasse ilimitadas vezes, como que procurando
dizer a ele que o perdão age como medicamento profilático,
vacinal, capaz de substituir vincos na fronte cerrada e
ameaçadora pela amena descontração de um riso relaxante e
confortador 4.
Acostumado a observar a infantilidade de conflituosos
contemporâneos, desaconselhava o litígio, endereçando as
querelas a soluções que esvaziam as disputas 5. Como quem quisesse
nos dizer que a maioria dos aborrecimentos do dia-a-dia
passariam despercebidos, se pudéssemos as mais das vezes dizer
ao semelhante que nos desafia:
__ Estou errado, enganei-me. Não
faria de novo. Habituados a não reconhecer o próprio erro,
sempre empenhamos recursos verbalísticos persuasivos, no afã
de evitar o mea culpa que deixaria o assunto exaurir-se de per
si. Opta-se por tentar identificar o erro no semelhante ou
descobrir nele a contribuição para a contenda, crendo na sua
dissimulação, capaz de aviltar a verdade para esquivar-se de
qualquer transgressão.
De Pedro vem observação
interessante, que não cogita da contenda, dotada de senso de
oportunidade, atualíssima na sociedade em que estamos
inseridos, onde o conflito ainda é a via primeira para
solucionar questões do dia-a-dia 6:
(...)
tende amor intenso uns para com os outros, porque o amor cobre a
multidão de pecados.
Sede,
mutuamente, hospitaleiros, sem reclamar. Servi uns aos outros,
cada um conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros da
multiforme graça de Deus. Se alguém fala, fale de acordo com
os oráculos de Deus; se alguém serve, faça-o na força que
Deus supre...
Desculpar não é aceitar o
erro que alguém pratica. Mas reconhecer o erro, nosso ou do
nosso semelhante, sem se ofender. Sem se magoar. Sem ter que
sentir de novo, no dia seguinte, a contrariedade da véspera:
portanto, sem se ressentir. É aceitar as pessoas, e a nós
mesmos, sem ficarmos presos aos acontecimentos indesejados da
vida em sociedade. É admitir que "o
passado é passado", como afirma Fred Luskin. Ou o
próprio Emmanuel quando escreveu: "Agora, eis o momento da
melhora que procuras. (...) Ontem não mais existe (...)." 7
1 O
Poder do Perdão, Fred Luskin. Editora Novo Paradigma, cap. 7.
2 Idem,
ibidem, cap. 9
3 Os
Mensageiros – Francisco C. Xavier, pelo Espírito André Luiz,
cap. 23, p. 147, Ed. FEB.
4 Mateus,
18:21-22.
5 Mateus,
5:23-24.
6 I
Pedro, 4:8-11.
7 Espera
Servindo, pelo Espírito Emmanuel, GEEM.
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