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O amor cobre a multidão de pecados

Antônio Carmo Rubatino
Fonte: Revista Reformador, FEB, Deus, Cristo e Caridade
- Ano 123  nº 2.119  Outubro de 2005

         Uma torrente infindável de mágoas e sentimentos contraditórios leva contingentes de seres humanos exaustos a formar um séqüito de sofredores à procura de socorro psiquiátrico ou psicológico, multiplicando o volume das análises e divãs em consultórios e clínicas. Quantitativo crescente de casos aporta aos templos religiosos, num desesperado apelo para a fé como última saída para uma coletânea de ressentimentos, num intricado labirinto de angústias e depressões.
         Em grande parte, é a dificuldade nossa de cada dia de desculpar, de desculpar-se, de começar de novo. Dificuldade que emerge dos  relacionamentos diários, tornando a vida uma administração de conflitos - na família, na escola, no trabalho, no trânsito, no lazer. Até na Casa Espírita.
         A Ciência vem fazendo importantes constatações na área do  comportamento humano, levando pesquisadores a formular conceitos de extrema relevância, capazes de alterar substanciosamente a qualidade de vida de indivíduos, famílias e grupos sociais. Revolucionando diagnósticos e substituindo terapias convencionais, conduzindo pacientes a trocar prolongados tratamentos alopáticos por terapias inovadoras, os níveis do conhecimento indicam a mudança de hábitos como pré-requisito terapêutico à erradicação de males de etiologia complexa. Sem externar crenças, a maioria dos pesquisadores evita revelar convicções religiosas de modo a dar às conclusões caráter de cunho estritamente científico, mas acabam por fornecer subsídios valiosos ao argumento da religiosidade corrente.
        
Estudiosos de Stanford relataram valiosas observações, levando o cientista Fred Luskin a tratar do assunto com admirável propriedade quando torna pública parte desse importante acervo1

        "Estudos científicos mostram com clareza que o aprendizado do perdão é bom para a saúde e bem-estar " bom para a saúde mental e, de acordo com dados recentes, bom para a saúde física.
         "(...) Definitivamente, o passado é passado.
         "(...) A doença cardíaca é a causa mortis principal tanto para homens quanto para mulheres.
         "(...) a raiva provoca a liberação de substâncias químicas associadas ao estresse, que alteram o funcionamento do coração e causam o estreitamento das artérias coronárias e periféricas.
         "(...) O perdão é uma experiência complexa, que modifica o nível da autoconfiança, de ações, pensamentos, emoções e sentimentos espirituais de pessoa vítima de afronta. Acredito que aprender a perdoar os sofrimentos e ressentimentos da vida seja um passo importante para nos sentirmos mais esperançosos e conectados espiritualmente, e menos deprimidos."
         
Pasma o relato circunstanciado do Dr. Fred Luskin sobre algo que não é estranho ao meio espírita2

          "Imagine que o que você vê em sua mente está sendo visto numa tela de tevê.
          (...) Pelo seu controle remoto você determina o que se apresenta na sua televisão. Imagine agora que cada um tenha um controle remoto para mudar o canal que está vendo na mente.
          (...) desse ponto de vista, a mágoa pode ser vista como um controle remoto travado no canal da mágoa."
          O raciocínio do cientista faz-nos rememorar a rica literatura advinda através de Chico Xavier, da valiosa colaboração de André Luiz
3

          "(...) Estupefato, comecei a divisar formas movimentadas no âmbito da pequena tela sombria. Surgiu uma casa modesta de cidade humilde. Tive a impressão de transpor-lhe a porta. Lá dentro, um quadro horrível e angustioso. Uma senhora de idade madura, demonstrando crueldade impassível no rosto, lutava com um homem embriagado. _ ‘Ana! Ana! pelo amor de Deus! não me mates! _ dizia ele, súplice, incapaz de defender-se.
_ ‘Nunca! Nunca te perdoarei! (...)’."
         Com toda a sua dinâmica de desvendar o conhecimento a partir de observação repetida e sistemática, a ciência experimental vem galgando passos importantes na disseminação do saber, dando saltos quantitativos gigantescos, ora muito objetiva e rapidamente, ora muito lenta e gradualmente. E a variante dos novos passos que são dados tem a vontade como mola propulsora. Quando deseja, o homem caminha rápido, muito rápido; quando não, demora-se nas enseadas da vida, às vezes evitando tratar abordagens incômodas ou de futuro incerto, postergando o transcendente para outra instância, receoso de chegar a conclusões embaraçosas, que possam implicar em mudanças importantes nos valores cultuados.
          A ciência e a religião tocam-se nas linhas infinitas do tempo.
         
O Meigo Nazareno já havia recomendado o perdão na sua mensagem consoladora ao colégio apostólico, aos discípulos, e, em todos os conflitos, externava generosidade e compreensão, procurando substituir a ofensa pela desculpa, a intransigência pela tolerância, a mágoa pelo amor. Recomendara a um dileto amigo que desculpasse ilimitadas vezes, como que procurando dizer a ele que o perdão age como medicamento profilático, vacinal, capaz de substituir vincos na fronte cerrada e ameaçadora pela amena descontração de um riso relaxante e confortador 4. Acostumado a observar a infantilidade de conflituosos contemporâneos, desaconselhava o litígio, endereçando as querelas a soluções que esvaziam as disputas 5. Como quem quisesse nos dizer que a maioria dos aborrecimentos do dia-a-dia passariam despercebidos, se pudéssemos as mais das vezes dizer ao semelhante que nos desafia:
      __ Estou errado, enganei-me. Não faria de novo. Habituados a não reconhecer o próprio erro, sempre empenhamos recursos verbalísticos persuasivos, no afã de evitar o mea culpa que deixaria o assunto exaurir-se de per si. Opta-se por tentar identificar o erro no semelhante ou descobrir nele a contribuição para a contenda, crendo na sua dissimulação, capaz de aviltar a verdade para esquivar-se de qualquer transgressão. 
De Pedro vem observação interessante, que não cogita da contenda, dotada de senso de oportunidade, atualíssima na sociedade em que estamos inseridos, onde o conflito ainda é a via primeira para solucionar questões do dia-a-dia 6:
        
          (...) tende amor intenso uns para com os outros, porque o amor cobre a multidão de pecados.
        
          Sede, mutuamente, hospitaleiros, sem reclamar. Servi uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus. Se alguém fala, fale de acordo com os oráculos de Deus; se alguém serve, faça-o na força que Deus supre... 
Desculpar não é aceitar o erro que alguém pratica. Mas reconhecer o erro, nosso ou do nosso semelhante, sem se ofender. Sem se magoar. Sem ter que sentir de novo, no dia seguinte, a contrariedade da véspera: portanto, sem se ressentir. É aceitar as pessoas, e a nós mesmos, sem ficarmos presos aos acontecimentos indesejados da vida em sociedade. É admitir que "o  passado é passado", como afirma Fred Luskin. Ou o próprio Emmanuel quando escreveu: "Agora, eis o momento da melhora que procuras. (...) Ontem não mais existe (...)." 7




1 O Poder do Perdão, Fred Luskin. Editora Novo Paradigma, cap. 7.
2
Idem, ibidem, cap. 9
3
Os Mensageiros – Francisco C. Xavier, pelo Espírito André Luiz, cap. 23, p. 147, Ed. FEB.
4
Mateus, 18:21-22.
5
Mateus, 5:23-24.
6
I Pedro, 4:8-11.
7
Espera Servindo, pelo Espírito Emmanuel, GEEM.

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