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Em
recente artigo publicado pelo Diário do Povo o Professor J. A.
Pinotti defende com equívocos a "normalização" do
aborto. Sua visão em defesa da mulher, suas prerrogativas
sociais e direitos à saúde, são dignas do
reconhecimento de todos nós. Porém, ele parece ignorar
totalmente que a maior vítima do aborto será sempre a criança
que está por nascer. Numa
análise superficial da evolução recente da Medicina, podemos
notar uma seqüência de contribuições importantíssimas
ocorridas na área da contracepção, para poder dispor a
própria mulher da opção de engravidar ou não.
Do
ponto de vista social, a evolução também foi notória. O
nível de informação da menina-moça de hoje é quase completo
e desinibido. Reduziram-se as pressões sociais contra a mulher
solteira que engravida e as relações sexuais que regem o
"convívio afetivo" entre pessoas que se afeiçoam
estão cada vez mais liberais e criativas. O caminho a
percorrer, tanto na área Médica como Social, ainda deverá ser
longo, até que toda questão da gravidez
"não esperada" seja resolvida. Ainda teremos que
redigir o "Estatuto da Criança que está por nascer"
e a sociedade deverá compartilhar com a mulher-mãe o
compromisso da vida de maneira solidária.
Venho nos
últimos anos estudando o "Complexo Cérebro-Mente",
procurando identificar como se processa esta relação entre os
fenômenos físicos e sua transformação em respostas ou
percepções psicológicas. Parece muito claro que o cérebro,
por si só, não é capaz de justificar toda capacidade da Mente
humana e o conhecimento científico é muito limitado para
alcançar as razões filosóficas da natureza humana e do seu
destino.
Ainda falta muito para aprendermos a
avaliar, por exemplo, o conteúdo da
consciência, a extensão dos fenômenos intuitivos
Tenho uma
visão espiritualista que me permite identificar a Mente como
uma entidade corporificada que instrumentaliza o cérebro para
se inserir na realidade física em que vivemos. A Mente humana
tem-se aprimorado dentro do mesmo processo que forçou, pela
seleção natural, a evolução das formas físicas dos
organismos que vivificam o nosso mundo biológico.
Na semiologia
neuropsicológica, freqüentemente se confunde a Mente com os
nossos processos psicológicos, parecendo que estes às vezes
são a causa e não o efeito. A instrumentação neurológica de
hoje só nos permite identificar os fenômenos psíquicos
através da semiologia grosseira de estímulo-resposta,
provocando reações através do cérebro. Ainda falta muito
para aprendermos a avaliar, por exemplo, o conteúdo da
consciência, a extensão dos fenômenos intuitivos e o grau
superlativo das nossas percepções interiores.
Para Freud, o
"Aparelho Psíquico" de cada um de nós começa a se
estruturar apenas após o nascimento através da atividade
motora. O gesto da criança que toca o seio materno vai lhe
inspirando segurança e, com os movimentos do corpo, ela vai se
relacionando com o meio exterior. A partir daí passa a fazer
suas identificações e expor suas inclinações. A
Neuropsicologia de hoje está, no entanto, antecipando cada vez
mais o aparecimento de expressões do Psiquismo no ser humano.
Bem antes do
nascimento, as manifestações de vivências agradáveis ou não
da mãe já imprimem na Mente da criança que vai nascer
reações que logo após o parto podem ser semiologicamente
confirmadas.
Análises com
figuras ou retratos mostrando, por exemplo, o rosto da mãe,
podem ser estímulos eficazes para o recém-nascido que, se
supõe, pode até distinguir um rosto com um sorriso de outro
que expressa seriedade. Estímulos sonoros correspondentes à
voz humana também podem ser discriminados pelo recém-nascido,
especialmente quando se tratar da voz da sua própria mãe.
Nos congressos
de Neuropediatria já estão incluídos (sic) em sua temática a
apresentação de trabalhos sobre o Psiquismo Fetal. Esta é uma
área tão intrigante como foram as revelações sobre o
Inconsciente após os estudos de Freud. Antes dele ninguém
podia suspeitar de uma ligação materno-infantil tão
fortemente ligada à sexualidade, nem se poderia compreender as
paixões que o Complexo de Édipo esclareceu. É claro que
continuamos com perguntas fundamentais aguardando novas
revelações: qual é a essência deste "Psiquismo
Fetal", quando ele se inicia e qual a sua interdependência
com os pais. Parece que estão certos os orientais que começam
a contar a idade de suas crianças pela data da sua concepção.
A confirmação de um "Psiquismo Fetal", intimamente
ligado ao "Psiquismo Materno", implica em mais um
motivo para nossa meditação quando falamos em aborto.
*Professor titular de Neurocirurgia da
UNICAMP e Diretor do Instituto do Cérebro.
(Transcrito
de Folha Espírita, de julho de 1994.)
Fonte: Reformador de novembro de 1994, p. 22(338).
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