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Goles inofensivos

Jorge Hessen
Fonte: Revista Reformador, FEB, Deus, Cristo e Caridade
- Ano 121  nº 2.089  Abril de 2003

        Há quatro anos a revista Istoé registrou a seguinte reportagem: "Uma overdose de festas voltadas para jovens de classe média garante o alto consumo de bebidas. No feriado de Finados, o panfleto de uma festa levou quatro amigos, três deles menores de idade, a uma boate no Lago Sul, área nobre de Brasília. A R$ 20,00 por cabeça, conseguiram passaporte para o paraíso adolescente: mulher bonita, som tecno e bebida de graça. Três deles deixaram a boate em mau estado. O quarto precisou sair carregado. Desfalecido, foi colocado pelos amigos no banco de trás do carro e levado às pressas para o hospital. No caminho, cruzaram com outros jovens desmaiados na calçada à espera de que, ao chegar, o pai os identificasse."1
          Pesquisas mostram que oito em cada dez estudantes já usaram álcool. A escola é a grande parceira da família na tarefa de educar, sem precisar impor, é claro, regras nos lares alheios. Em Brasília, uma escola2  tomou uma medida controversa que dividiu a opinião de pais e irritou alunos ao entregar um documento que sugere aos pais que proíbam os menores de 21 anos de tomarem bebidas alcoólicas nas festas e eventos sociais promovidos pelos adolescentes em suas casas.
          Pode parecer algo um pouco exagerado, mas a questão merece uma análise, até porque há estatísticas que apontam que os jovens estão bebendo cada vez mais cedo (por volta dos 11 anos de idade). Mesmo que a Direção da escola esteja restrita aos seus muros, não basta dizer aos pais, nessa conjuntura, que seus filhos estão bebendo. Desta sorte, estão empurrando o problema de volta para a família. Cremos que as escolas deveriam debater com mais ênfase sobre bebida alcoólica, essa droga legalizada.
          Não existe uma idade definida para qualificar a criança dependente de álcool. Segundo a Dra. Sandra Scivoletto, coordenadora do GREA " Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas ", responsável pelo Ambulatório de Adolescentes e Drogas do Sepia " Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência ", do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo, "estudos epidemiológicos brasileiros e do exterior mostram que a idade de início de uso de álcool e drogas vem diminuindo. Uma pesquisa realizada em 1993, em dez capitais brasileiras, mostrou que a idade média do início do uso era de 13 anos. Em 1997, um trabalho realizado com adolescentes em tratamento no GREA mostrou que eles têm começado a beber, em média, aos 11 anos de idade, com casos raros em que iniciou-se aos 4 anos de idade"
3, alerta a médica.  
          As pesquisas realizadas pelo Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas demonstram que o Brasil é o quinto maior produtor de cerveja do mundo e tem a terceira maior empresa da área. A Organização Mundial de Saúde (OMS) divulgou, em abril de 1999, que o Brasil é o quarto colocado no mundo em acidente de trânsito. A ingestão de álcool é uma das maiores causas de acidentes " 60% a 80% das mortes no trânsito são provocadas por motoristas alcoolizados, segundo estimativa do IML de São Paulo.
          Alguns acreditam ser muito difícil definir o exato momento em que o uso de álcool merece ser catalogado como dependência. Assim como é tênue a fronteira entre o chamado heavy drinker (bebedor pesado) e o alcoólatra, aquele cujo organismo necessita de álcool para voltar a funcionar ou que desenvolveu a dependência psicológica da garrafa. Ou seja, há um mecanismo psicossocial que o leva a beber, e um mecanismo fisiológico que o impede de parar de beber.
          No eterno desculpismo, os bebedores se refugiam no chamado "drink social". Bebedor social? " será?? " pesquisas americanas atestam que uma pessoa, para tornar-se alcoólatra, pode levar de 8 a 20 anos e os bêbados começaram com "inofensivos goles festivos". Desde 1935, os fundadores do AA (Alcoólicos Anônimos) " Bill Wilson e Robert Smith " afirmam que em cada dois bebedores um desenvolverá a doença do alcoolismo. Sabe-se hoje também que, no início do processo, não há diferença entre o bebedor social e um futuro alcoólatra.
          O alcoolismo não é hereditário. As pessoas bebem por questões psicoemocionais e criam dependência por questões fisiológicas. O que existe é um fator genético de predisposição ao consumo excessivo de álcool. Traduzindo, geneticamente, ninguém tem compulsão para a bebida conforme escreveu a revista americana US News & World Report: "nenhum gene tem o poder de fazer com que você compre uma garrafa de uísque, a verta num copo e a tome toda".
          A Doutrina Espírita ensina que a propensão ao alcoolismo pode estar no Espírito, como herança de vidas passadas.
          No Brasil toda esquina tem um botequim, um bar, um quiosque com as portas escancaradas, para a larga distribuição do veneno letal. Na televisão, as propagandas mais sedutoras são de bebidas. Nos restaurantes, a primeira pergunta do garçom é " o que você vai beber? Nas competições automobilísticas, o vencedor derrama sobre si a champanhe; a cada segundo os canais de televisão estão convidando os incautos a beberem, e para isso investem bilhões de dólares para vender a droga "legal" e o governo vai gastando muitos outros bilhões para cuidar das doenças do alcoolismo, como a cirrose do fígado, a encefalopatia alcoólica ou a polinevrite alcoólica, o delirium tremens, a afetação dos pulmões (tuberculose), a decadência física e mental, a caquexia (desnutrição), isso sem esquecer as vítimas do trânsito e outras conseqüências.
          No livro Missionários da Luz, Alexandre explica que "(...) usar um aperitivo comum (...) de modo algum significa desvios espirituais; no entanto, os excessos representam desperdícios lamentáveis de forças, os quais retêm a alma nos círculos inferiores. (...)"
4 Ao considerar essas ponderações, urge também refletirmos que para muitos encarnados até mesmo o "inofensivo" aperitivo pode desencadear processos de dependência nos excessos, por isso toda vigilância é imperiosa.
          Desconhecemos se alguém da família carrega uma certa predisposição ao álcool, que pode ser potencializado com o primeiro gole, por isso cremos que no bom senso um espírita consciente não mantém em seu lar um barzinho com garrafas rotuladas de "bebida importante", contendo o inferno da droga legalizada, que tem levado muitos homens aos escombros dos desvios espirituais.



1 Revista IstoÉ - edição 17/11/99.
2
Escola Americana do Brasil - Av. L-2 Sul - Brasília-DF.
3
Informativo/dez-2001, ABRAFAM (Associação  
Brasileira de Apoio às Famílias de Drogadependentes).

4
XAVIER, Francisco Cândido. Missionários  
da Luz. Pelo Espírito André Luiz. 36. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2001.

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