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Uma das vidas relatadas pelo Espírito que ditou a Eudaldo
Pagés e Amalia Domingo Soler a obra Perdôo-te é facilmente
identificada como sendo a de Teresa d’Ávila, a notável
mística espanhola do século XVI. Naquela magnífica
autobiografia, Teresa, Espírito, conta em detalhes como soube,
com certeza, que seus escritos seriam adulterados após a sua
morte de modo a ficarem em conformidade com uma visão tolerada
pela alta hierarquia da Igreja de então.
A
despeito da advertência da própria Teresa (Espírito), no
entanto, existe um relato de uma passagem na vida daquela grande
médium da Igreja, contado na obra Os Santos que Abalaram o
Mundo, de René Fülöp-Miller, que nos parece muito propícia a
um estudo. Se autêntico o relato histórico ou se ele foi
vítima de uma adulteração cuidadosa e sábia feita
posteriormente e assim coletada pelo autor, o fato é que o dito
relato algo importante nos tem a ensinar.
Conta
Fülöp-Milller que, já estando no final da vida, com o corpo
cansado pelas muitas provações que sofrera, a destemida amiga
de Jesus havia partido com uma caravana para fundar um novo
convento em Burgos. As estradas estavam inundadas pelas chuvas e
era necessário atravessar o Rio Arlazón antes de chegar-se ao
destino. Tendo sido destruída a ponte, pela força das águas,
segundo relata o autor, Teresa atirou-se bravamente à
travessia, conclamando suas companheiras com alegria e
determinação: "Venha o que vier. Se desmaiardes no
caminho, se morrerdes na estrada, se o mundo for destruído,
tudo isto está bem se atingirdes o vosso alvo." Desse
modo, conclamando todas a segui-la, avançou corajosamente pela
água gelada. Foi, então, que uma onda a fez escorregar para a
parte mais funda do rio. Sem se mostrar aterrorizada, Teresa
dirigiu-se, como costumeiro, ao amado Mestre, pedindo ajuda.
Vamos, pois, ao diálogo:
__" Oh! Senhor, por que puseste tais dificuldades em nosso
caminho?"
Aparecendo sobre as águas na visão espiritual da médium
Teresa, Jesus respondeu:
__ É assim que trato meus amigos. Ao que Teresa, que segundo
Fülöp-Miller, jamais perdia a oportunidade de uma resposta,
retrucou:
__ Ah! Meu Senhor, é por isso que tendes tão poucos.
Ora,
será verdade que Jesus permite aos seus amigos os maiores
sofrimentos? Sem maiores análises, à primeira vista, as
palavras de Jesus escutadas por Teresa parecem sugerir um Jesus
sádico, que aprecia ver seus amigos sofrerem, para testar sua
amizade. Como, no entanto, inexistem sentimentos negativos no
psiquismo de um Espírito puro como Jesus, deve haver outra
explicação. Consultando a Codificação, vamos encontrar parte
do esclarecimento que desejamos no item 9, capítulo V de O
Evangelho segundo o Espiritismo, sob o título de
"Bem-aventurados os Aflitos":
"Não há crer, no entanto, que todo sofrimento
suportado neste mundo denote a existência de uma determinada
falta. Muitas vezes são simples provas buscadas pelo Espírito
para concluir a sua depuração e ativar o seu progresso. Assim,
a expiação serve sempre de prova, mas nem sempre a prova é
uma expiação. Provas e expiações, todavia, são sempre
sinais de relativa inferioridade, porquanto o que é perfeito
não precisa ser provado. Pode, pois, um Espírito haver chegado
a certo grau de elevação e, nada obstante, desejoso de
adiantar-se mais, solicitar uma missão, uma tarefa a executar,
pela qual tanto mais recompensado será, se sair vitorioso,
quanto mais rude haja sido a luta. Tais são,
especialmente, essas pessoas de instintos naturalmente
bons, de alma elevada, de nobres sentimentos inatos, que parece
nada de mau haverem trazido de suas precedentes existências e
que sofrem, com resignação toda cristã, as maiores dores,
somente pedindo a Deus que as possam suportar sem murmurar.
Pode-se, ao contrário, considerar como expiações as
aflições que provocam queixas e impelem o homem à revolta
contra Deus. Sem dúvida, o sofrimento que não provoca
queixumes pode ser uma expiação; mas, é indício de que foi
buscada voluntariamente, antes que imposta, e constitui prova de
forte resolução, o que é sinal de progresso."
Com
o esclarecimento que obtivemos desse trecho de O Evangelho
segundo o Espiritismo, as coisas começam a clarear. O
sofrimento por que passou Teresa, ao longo de toda a sua vida,
tinha um propósito educativo que não lhe havia sido imposto,
mas aceito na Espiritualidade, com o intuito de enrijecer sua
força de vontade direcionada para o bem.
Resta-nos,
ainda, analisar a segunda parte do relato, isto é, a
afirmação de Jesus de que era assim que tratava os seus
amigos. E mais, a terceira parte, o comentário final de Teresa,
ao dizer que por isso os teria Jesus em tão pequena quantidade.
O que é ser
amigo de Jesus? Observemos bem que não estamos falando de ser
Jesus nosso amigo e sim de um de nós ser amigo dEle.
Após algumas
pesquisas na Web, procurando por "amigo de Jesus",
encontramos inúmeras páginas, de diversas religiões e
crenças, que discorrem sobre "Jesus amigo",
"nosso amigo Jesus", "Jesus te ama",
"Jesus meu amigo"... Nenhuma página, no entanto,
falava de "amigo de Jesus".
Ora, o fato de
que Jesus é nosso amigo, seus ensinamentos, seu exemplo de
vida, a dedicação e o amor que o Mestre tem-nos dedicado, há
milhões de anos, são testemunhos mais do que eloqüentes. E
nós, somos amigos de Jesus?
Em uma passagem
do Evangelho de Mateus, a que as Bíblias católicas dão o
título de "O Juízo Final", mas que, sob a ótica
espírita, se aplica perfeitamente à definição que estudamos,
podemos ler como Jesus define os seus amigos: "Vinde
benditos de meu Pai, tomai posse do Reino que vos está
preparado desde a criação do mundo, porque tive fome e me
destes de comer; tive sede e me destes de beber; era peregrino e
me acolhestes; nu e me vestistes; enfermo e me visitastes;
estava na prisão e viestes a mim. Perguntar-lhe-ão os justos:
Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer,
com sede e te demos de beber? Quando foi que te vimos peregrino
e te acolhemos, nu e te vestimos? Quando foi que te vimos
enfermo ou na prisão e te fomos visitar? Em verdade vos
declaro: todas as vezes que fizestes isso a um destes meus
irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes."
(Mateus, 25:34-40.)
Ora, se Jesus chamou àqueles que ajudam os necessitados de toda
espécie, onde quer que se encontrem, de "benditos de meu
Pai", que "tomarão o Reino" que para eles está
preparado, se Jesus nos ensinou que o segundo mandamento é
"Amar ao próximo como a si mesmo" e que, este, junto
com o primeiro, "Amar a Deus sobre todas as coisas"
resumem toda a Lei e os Profetas, fica claro, a nosso ver, que
quem segue tais diretrizes merece ser chamado de "amigo de
Jesus".
Como
concluiremos, se analisarmos o comportamento nosso e o das
pessoas à nossa volta, assim como o da humanidade inteira, são
poucos, muito poucos, os que podem ser chamados de amigos de
Jesus, pois, para que um de nós possa ser um dia assim chamado,
é necessário que se comprometa na Espiritualidade a vencer
todos os obstáculos que surjam à sua frente na prática do bem
e, o que é muito mais difícil, lograr ser integralmente fiel
ao compromisso assumido. Então, como poderemos adquirir fibra
para enfrentar todos os obstáculos, por maiores que sejam, de
modo a nos tornarmos amigos de Jesus, como Ele próprio os
define? Aceitando vir em várias, muitas existências de
provação, de modo a provarmos a Jesus e, sobretudo, a nós
mesmos, que jamais esmoreceremos em nosso nobre objetivo.
Entendemos,
assim, a fala de Jesus para Teresa, assim como a sua
sábia resposta.
BIBLIOGRAFIA:
FÜLÖP-MILLER, René. Os Santos que Abalaram
o Mundo. 14. ed. Rio de Janeiro: José
Olympio, 1999.
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo.
112. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1996.
PAGÉS, Eudaldo e SOLER, Amalia Domingo.
Perdôo-te. 7. ed. Brasília: LGE, 2002.
Bíblia Sagrada. Versão dos Monges de Mardesous.
São Paulo: Ave-maria, 1997.
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