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Cidadania

Richard Simonetti
Fonte: Revista Reformador, FEB, Deus, Cristo e Caridade
- Ano 121  nº 2.092  Julho de 2003

                Logo após a Segunda Guerra Mundial, dois homens almoçavam num restaurante londrino.

A carne estava racionada. Cada cliente só podia comer um bife.

Um deles, brasileiro, depois de saborear o seu, pediu outro ao garçom. Este lhe disse que não poderia atendê-lo, em face da restrição vigente.

Nosso patrício sorriu, superior:

__ Norma ingênua. Posso entrar noutro restaurante e comer outro bife.

O garçom, imperturbável:

__ Sem dúvida, o senhor pode fazer isso, mas um inglês não faria.

            

Quando dizemos que o cidadão é o indivíduo no pleno uso de seus direitos civis e políticos, estamos exprimindo uma definição pela metade.

Cidadão é, também, o indivíduo cônscio de seus deveres para com a sociedade.

Se leis são instituídas, visando disciplinar o relacionamento social e favorecer o bem-estar coletivo, compete-lhe observá-las, integralmente.

Em países de cultura milenar, povos conscientes e esclarecidos, a cidadania é exercitada em plenitude, envolvendo direitos e deveres, em favor do bem-comum.

O inglês, no pós-guerra, período de grande escassez, observava estritamente o racionamento envolvendo a alimentação, a fim de que toda a população pudesse receber as proteínas da carne.

Nosso povo, ainda pouco preparado para o exercício da cidadania, está sempre disposto a exercitar o "jeitinho brasileiro".

Em sua expressão mais simples, diríamos que é a arte de burlar as leis e os regulamentos para "tirar vantagem", sem cogitar de que, invariavelmente, haverá prejuízo para alguém.

 

Os ingleses não tinham a fiscalização em seus calcanhares para obrigá-los a cumprir as normas, mesmo porque ainda não se instituiu a lei que não possa ser burlada pela inventividade humana.

Sua obediência era uma questão de maturidade.

Será a plenitude da cidadania, considerados os direitos e os deveres inerentes à convivência social, uma decorrência do tempo?

Teremos que esperar por uma cultura brasileira milenar para alcançar tal conquista?

Só o tempo nos fará amadurecer?

Certamente, não!

A educação pode agilizar o processo.

Não se trata da mera instrução que recebemos na escola, o verniz social, mas da educação fundamental, no lar, a partir do comportamento dos adultos.

Se os pais não passam para a criança o exemplo de cidadania, de cumprimento de seus deveres, de respeito pelas leis, de fidelidade à verdade, como iremos mudar a mentalidade patrícia?

Um amigo dizia-se estarrecido com o que presenciou certa feita, num jogo de futebol.

Em dado momento, um menino de seus oito anos, indignado com suposta falha de arbitragem, começou a gritar palavrões. "Homenageou" a senhora mãe do juiz, atribuindo-lhe aquela profissão pouco recomendável.

O pai o olhava sorridente, cheio de orgulho com sua atitude intempestiva.

Que se pode esperar de um adulto que recebeu, na infância, esses estímulos ao destempero e à vulgaridade?

Outro caso:

Um homem perdeu uma pasta com vários documentos. Terrível transtorno. Ali estavam sua carteira de identidade, título de eleitor, carteira de motorista.

Logo recebeu um telefonema.

__ Meu filho encontrou sua pasta.

__ Ah! Ótimo! fico agradecido e aliviado.

__ Bem, vai custar-lhe cinqüenta reais !

__ Não entendo !

__ O garoto quer uma recompensa.

__ E se eu não pagar?

__ Não vai ter a pasta de volta.

__ Isso é extorsão!

__ Você deve saber, meu amigo, que achado não é roubado.

Foi combinado o local para a "troca".

Ocorre que o dono da pasta, familiarizado com a legislação, levou um policial junto e o "esperto" pai do menino foi autuado em flagrante delito.

Não sabia que, segundo a lei, estava enquadrado em apropriação indébita, equivalente a furto.

Como pode uma criança, que recebe tal exemplo do genitor, comportar-se de forma disciplinada e honesta, cumprindo seus deveres de cidadania?

 

Nesse aspecto, a Doutrina Espírita é instrumento divino, com lições incisivas que nos fazem pensar.

Destaque para a Lei de Causa e Efeito, segundo a qual sempre receberemos de retorno todos os prejuízos que causarmos ao próximo.

Lembrando o episódio na Inglaterra, o bife que subtrairmos ao vizinho, hoje, será o bife que faltará em nosso prato, amanhã.

É fundamental cumprir nossos deveres como cidadãos, a partir do elementar dever de ajudar os que passam por privações, atendendo à própria consciência.

E não estaremos fazendo grande coisa, leitor amigo.

Apenas o mínimo necessário para que, na roda das reencarnações, não nos vejamos privados, amanhã, do direito de alimentar-nos adequadamente.

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