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A morte e a mediunidade

Adésio Alves Machado
Fonte: Revista Reformador, FEB, Deus, Cristo e Caridade
- Ano 122  nº 2.103  Junho de 2004

         A ponte de intercâmbio entre os dois mundos - a mediunidade - constitui-se numa das concessões divinas às suas criaturas. Mediante tal recurso é possível haurir as indispensáveis forças morais e espirituais para a consecução de nosso objetivo maior na vida terrena, qual seja a de buscar a liberdade espiritual através da nossa evolução.
           Manobras ardilosas, preparo de hábeis documentos foram elaborados por religiosos imediatistas para silenciar as Vozes Amigas viventes no além-túmulo. Não conseguiram, muito pelo contrário, foram surgindo outras e mais outras, falando-nos às consciências, ajudando-nos a crescer para Deus, concitando-nos à prática do bem e do amor ao próximo, expandindo-se a mediunidade irresistivelmente.  
           Pouco ou quase nada conseguiram aqueles manobreiros das consciências alheias com a ameaça de suas fogueiras, de um inferno ardente para calar as vozes dos imortais. O interesse acendrado dos Espíritos para prosseguirem ajudando-nos foi imenso, continua enorme, não obstante todas as armadilhas, artimanhas utilizadas pelos maus servidores do Evangelho, os quais, utilizando-se da perseguição, pressupunham silenciar as vozes levantadas das tumbas. Estas são de pais e mães, de amigos e familiares outros, carinhosos e fraternos, retornando da sepultura para acalentar e inspirar seus entes débeis e desinformados.
          O correio da mediunidade agora aberto não vai mais fechar, noticiando o mais possível, dentro das nossas necessidades evolutivas, aquilo que precisamos saber e compreender.
          Amigos e conhecidos, mentores e guias abnegados insistem no uso da palavra mediúnica, escrita e falada, conjugando companheiros empenhados nas lutas de ascensão espiritual ainda na retaguarda terrena. Paralelamente a estes, outros surgem, sedentos de vingança entre tormentosas reminiscências, invejosos e maus, procurando prejudicar os incautos da Terra; são os adversários do passado, vencidos pelas urdiduras da pusilanimidade, aproveitando-se de suas condições de invisibilidade para dar vazão às suas ojerizas e idiossincrasias em longos processos obsediantes.
          As vinculações são feitas mente a mente, conforme os pensamentos acalentados, estabelecendo-se a sintonia, consciente ou inconscientemente. Inicia-se, assim, um processo que geralmente desemboca na obsessão e suas conseqüências sempre lamentáveis, para ambas as partes, alongando-se no tempo.
          A morte, importa saber, não paralisa jamais a dinâmica da vida  "o amor" , estuando aqui e além num permanente esforço para a todos adaptar a uma existência feliz na Espiritualidade.
          Há, houve, está havendo e haverá sempre intercâmbio de ondas mentais, quando as permutas de experiências são trocadas entre os libertos da carne e os a ela aprisionados, testemunhando a indestrutibilidade da alma de conformidade com o ensinado pela Doutrina Espírita.
          Os cultuadores da verdade e os que viveram o Evangelho, na sua real expressão, brilham além das trevas, prenunciando a eterna madrugada, donde retornam triunfantes a fim de cantarem as sonoras melodias das belezas imortais, convidando os atentos ouvintes para a felicidade e a paz destinadas a todos os filhos de Deus.
          Dentre as dores do ser humano, uma das mais pungentes, pertinazes e profundas é, indubitavelmente, a que decorre da separação física imposta pela morte. O homem, de modo geral, não se acha ainda acostumado ao fenômeno biológico natural da vida - a morte. Nada que se lhe compare, tal o dilaceramento provocado nos tecidos sutis da alma, mesmo quando aguardada.
          Ela é a única realidade de que ninguém pode fugir, graças ao seu caráter determinístico, convidando a todos para que nos projetemos, o mais cedo possível, na imortalidade.
          Quantas vezes ela surge sorrateira arrebatando os afetos e carregando os adversários, mas sempre provocando emoção, mais ainda em se tratando dos amores, enigmaticamente realizando a transferência de um para outro estágio da vida.
          A morte pode ensejar felicidade e triunfo, sendo ela, nesse caso, libertação, mas pode também fazer-se grilheta e cárcere para as consciências comprometidas, intoxicadas pelos vapores da insensatez e das paixões comprometedoras.
          A ninguém poupa e prima por igualar a todos, selecionando-os de conformidade com os títulos morais auferidos no transcurso das existências.
          Nunca deveríamos rebelar-nos diante das conjunturas da morte que nos separou de um ente amado, porque tal separação não atende aos caprichos do acaso, mas às determinações do Criador, o único a deter o poder sobre as nossas existências. Ela, a separação, jamais será definitiva, requisitando nossa paciência e nosso preparo para o reencontro.
          Os afetos aguardam-nos esperançosos, anelando que cumpramos nossos deveres e obrigações, e que nunca os decepcionemos através de manifestações de revolta ou de desespero, totalmente injustificáveis. Vivem eles como nós vivemos e viveremos, tendo-os apenas como aqueles que se anteciparam na viagem de volta, não se encontrando apartados de nós.
          Apesar de não os vermos, estão ao nosso lado caso os amemos, ou vinculados a nós, se os detestamos.
          Não os fixemos na memória de forma inditosa, sob os caprichos da paixão ou debaixo do sabor amargo da nossa dor, devendo, sim, luarizar a saudade no regaço da oração, alimentando a certeza de reencontrá-los.
          Utilizemos, portanto, as nossas horas disponíveis para pensar neles e produzir o Bem, em nome deles e por amor a Jesus, orando sempre, e convertendo nossas moedas e flores de efêmeras durações em reconforto para os outros seres que padecem privações.
          Nossos gestos de amor serão por eles benditos, acercar-se-ão mais de nós, visando a ajudar-nos e encorajar-nos ao prosseguimento das tarefas.
          Deslocando o amor em direção do sofrimento alheio diminuiremos a nossa dor, tudo realizando em nome dos que partiram, certos de que vivem e se encontram ligados a nós.
          Somente o corpo morre. O Espírito que o anima é imortal e prossegue, em encarnações sucessivas, que "são sempre numerosas, porquanto o progresso é quase infinito", diz-nos O Livro dos Espíritos, na questão 169.
          Saibamos considerar o quanto de fragilidade existe no organismo através do qual nos movimentamos, e, ao final de mais um dia vivido na Terra, pensemos na possibilidade de o perdermos mediante a transformação imposta pela morte.
          Não é o sono uma quase desencarnação? Quem tem certeza plena e absoluta de que despertará no dia seguinte? Não nos emancipamos do corpo nestas horas e não vamos ao encontro de nossos afins?
          Façamos sempre uma avaliação do nosso dia, procurando analisar o que foi feito, de certo e de errado, insistindo por viver sempre com a retidão que é característica de quem dispõe de pouco tempo, confiando no prosseguimento da vida após o traspasse.
          Desenfaixemo-nos de tudo quanto nos possa reter na retaguarda e, sempre que nos sintamos atados a ela, recordemos a necessidade de prosseguir a existência,  desvinculando-nos de todo tipo de capricho humano, avançando para o amanhã, a fim de alcançarmos o triunfo em nossa imortalidade.
          A morte, seja violenta ou se arraste por meses e anos, chega sorrateira, ceifando corpos, espalhando angústia, mutilando aspirações acalentadas, mais ainda quando são os jovens os atingidos. Vai espalhando luto e dor.
          Aparatos vários, rituais cheios de adornos cingiram-na, numa tentativa de desvincular-lhe o impacto ou, pelo menos, diminuir-lhe o trauma. Foram inúteis as solenidades e cerimoniais porque a morte os dispensa, como também as conceituações pessimistas dos que a consideram como o fim da vida.
          Nós, Espíritos, vitalizadores da matéria, preexistimos e sobrevivemos a ela, porque somos a causa, a sua força mantenedora, acionando-lhe a vitalidade, pondo-a em movimento e lhe propiciando espontaneidade, sendo incontestável, pois, a nossa sobrevivência.
          Devemos pensar, sim, no fenômeno da morte e com freqüência, anelando habituar-nos à idéia, a fim de não sermos surpreendidos quando o depararmos em nós ou num ente querido. É uma fatalidade biológica da qual ninguém está isento, competindo-nos viver de tal forma que estejamos sempre prontos a submeter-nos a tal imperativo, aceitando-lhe a presença como única maneira de nos libertar, presos que nos achamos ao corpo físico. Mas, somente uma existência digna nos credenciará à felicidade. Quem se mantiver intoxicado pelos vapores dos vícios, da delinqüência, da insensatez, da criminalidade sentir-se-á ainda agrilhoado aos imperativos da vida carnal, sofrendo sem o mínimo entendimento, vendo-se sem acreditar no que vê, assistindo à putrefação do corpo de forma dorida, sendo aniquilado por vermes famélicos.
           A viagem material é uma aprendizagem que deve ser exercitada, imprimindo-lhe uma conduta moral, mental e vivencial correta, digna, respeitosa, honesta, fazendo ao próximo tudo quanto gostaríamos que ele nos fizesse.
          Não devemos lamentar os mortos, nem nos amedrontar diante da morte, evitando rebeldia e mágoa, considerando a existência pós-morte apenas como a de uma vida em níveis vibracionais diferentes, em faixas evolutivas diversas.

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