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Iris Helena Gomes

1. Unidade na diversidade


Nesses últimos decênios, em livros e aulas, temos usado freqüentemente a palavra Filosofia Univérsica, forma latinizada do termo grego Filosofia Cósmica.
Numerosas pessoas, não encontrando nos vocábulos a palavra “univérsico”, perguntam sobre o sentido da mesma. A fim de dar uma resposta coletiva a todos os interessados, e ao mesmo tempo uma sucinta explanação desse movimento, que já é de âmbito nacional, resolvemos publicar o presente opúsculo.
Depois de ter convivido mais de um ano com Albert Einstein, na Universidade de Princeton; e depois de ter lecionado Filosofia a milhares de jovens e adultos numa das Universidades de Washington D.C. – cheguei à conclusão de que, em plena Era Atômica e Cosmonáutica, não podemos mais apresentar a Filosofia nos moldes tradicionais.
A ciência, nos últimos decênios, assumiu um caráter monista como nunca dantes; o seu antigo pluralismo heterogêneo culminou num monismo homogêneo, que focaliza a aparente diversidade do Cosmos numa fascinante unidade. Esta unificação da pluralidade é devida, sobretudo, ao fato de ter a matemática de Einstein e a ciência dos físicos demonstrado que os 92 elementos da química, de que são feitas todas as coisas, são essencialmente luz, luz congelada ou semi-passivizada, manifestando-se como energia ou matéria. Sabemos hoje analiticamente o que Moisés há 3.500 anos, intuitivamente: que todas as coisas do mundo são lucigênitas, e que, em teoria, podem ser lucificadas.
Esta verdade, que enche de estupefação os inexperientes e de dúvidas os cépticos, é a conquista suprema da inteligência humana do século XX.
Este monismo físico da ciência não podia deixar de ter o seu paralelo no monismo metafísico da sapiência, ou filosofia. A heterogeneidade diversitária dos sistemas filosóficos estava a clamar por uma homogeneidade unitária que complementasse pelo eterno Uno o efêmero Verso do Universo.
Não era mais possível, em nosso tempo, tomar por base da Filosofia perene, escolas, sistemas e pessoas. Mister se fazia partir de um alicerce mais sólido que não fosse a variável mentalidade humana.
O grande médico russo A. Salmanoff afirma, num dos seus livros “Segredo e Sabedoria do Organismo” e “O Milagre da Vida”, que encontrou na Europa nada menos de 75 sistemas filosóficos; nenhum dos quais prestou jamais o menor benefício à humanidade. É possível que Salmanoff tenha razão no tocante aos “sistemas filosóficos”, produtos do cérebro humano.
Nós, porém, não tratamos de nenhum sistema filosófico mentalmente excogitado – tratamos de eterna e indestrutível realidade do Universo. Tomamos o próprio Cosmos como base e diretriz do pensamento e da vida humana – o Universo que, na sua essência Una e imutável, manifesta-se sem cessar no Verso de sempre novas existências; o Universo, Alfa e Omega da vida humana.
Sendo o Universo Infinito e Finito, Eterno e Temporário – a indestrutível realidade do macrocosmo sideral não pode deixar de ser também a lei que rege o microcosmo hominal; o homem deve tornar-se livremente o que o Universo é automaticamente; deve fazer de si mesmo a mesma harmonia que o Creador fez do Cosmos sideral e atômico. O homem univérsico ou integral é uma harmonia creada pelo seu livre-arbítrio.
Os gregos denominavam o Universo kosmos, cujo radical significa beleza.
Os romanos deram ao Universo o nome mundus, que quer dizer puro.
Quando o homem se universifica, torna-se belo e puro, como o kosmos e o mundus.
Se houvesse, no macrocosmo ou no microcosmo, apenas unidade sem diversidade, centripetismo sem centrifuguismo, teríamos uma insuportável monotonia e eterna estagnação.
Se houvesse apenas diversidade sem unidade, centrifuguismo sem centripetismo, acabaria tudo num imenso caos.
Mas, como o Universo é o que o seu nome diz, unidade na diversidade, resulta essa estupenda harmonia, que é o perfeito equilíbrio entre dois pólos, aparentemente contrários, mas realmente complementares: o Uno da Causa vertido (Verso) na pluralidade dos efeitos.
O homem univérsico ou universificado pode e deve fazer, pelo poder do livre-arbítrio, o que o cosmos sideral e atômico é por necessidade automática.
É esta a quintessência da Filosofia Univérsica, o Alfa e Omega da vida humana.


2. A bipolaridade do mundo e do homem


Átomos e astros se movem em elipses bicêntricas – não existe no Universo um único círculo unicêntrico.
A eletricidade só se manifesta como luz, calor e força, graças à sua bipolaridade positiva e negativa.
Toda a vida superior da terra está baseada na bipolaridade dos elementos masculino e feminino.
Esses dois pólos da natureza são rigorosamente equilibrados e funcionam em perfeita harmonia.
De modo análogo, é o Universo hominal governado pela bipolaridade da natureza humana, que a Filosofia e Psicologia moderna denominam o Eu e o ego.
A Filosofia multimilenar do oriente chama o Eu Atman e o ego Aham.
Os livros sacros do cristianismo usam os termos Alma ou espírito divino para designar o Eu central do homem, e a expressão corpo ou mundo para significar as periferias da natureza humana.
“Que aproveita o homem ganhar o mundo inteiro se chegar a sofrer prejuízo em sua própria alma” (Jesus, o Cristo).
“Eu te darei todos os reinos do mundo e sua glória, se te prostrares em terra e me adorares” (o anticristo, ego).
O Eu corresponde ao Uno do Universo, e o ego ao elemento Verso.
O homem perfeito e integralmente realizado estabeleceu perfeito equilíbrio entre o seu Uno (Eu) e seu Verso (ego).
O homem profano só cultiva o seu ego, atrofiando o Eu.
O místico tenta realizar somente o Eu sem o ego.
O homem cósmico, porém, realiza o seu Eu através do seu ego, porque sabe que o Eu ou Uno é Fonte, e o ego ou Verso é canal, pelo qual as águas vivas da nascente fluem e beneficiam a sua vida.
A ciência tem por objetivo as leis da natureza externa.
A sapiência ou filosofia visa ao conhecimento e à realização do homem interno.
A ciência é cosmocêntrica.
A filosofia é antropocêntrica.
O aperfeiçoamento do Eu ou da alma humana é o fim supremo da vida – e essa realização se faz através do ego, cujos elementos são o corpo, a mente e as emoções.
Sendo que a evolução do homem começa pela periferia e vai rumo ao centro, os grandes Mestres da humanidade insistem sobretudo no desenvolvimento do Eu ou da alma humana, a fim de evitarem a hipertrofia unilateral do ego e a atrofia do Eu.
O homem perfeito é o homem cósmico ou universificado, que estabeleceu perfeito equilíbrio e harmonia entre os dois pólos interno e externo. É este o fim supremo de toda a educação verdadeira.
O educador deve eduzir de dentro do educando, e desenvolver o Eu dele, a fim de equilibrá-lo com seu ego.


3. O problema da felicidade humana



Os maiores médicos e psiquiatras do mundo concedem e confessam que o grosso da humanidade hodierna é neurótica, frustrada e esquizofrênica. O Dr. Viktor Frankl, diretor da Policlínica Neurológica da Universidade de Viena, em diversos livros, traz estatísticas pavorosas sobre essa calamidade do homem civilizado dos nossos dias. E dá também o diagnóstico do mal: a falta de uma consciência da unidade. O homem moderno, hipertrofiado na sua diversidade (ego) e atrofiado na sua unidade (Eu) – é a conseqüência dessa descosmificação do homem, que não podia deixar de acabar num caos, em que a dispersão derrotou a centralidade.
Frustrar é a palavra latina para despedaçar, fragmentar, desintegrar. O homem frustrado sente-se realmente como que desintegrado interiormente, o que produz nele um senso de profunda infelicidade. Em última análise, toda felicidade provém de uma consciência de coesão e integridade. O homem é infeliz porque perdeu a consciência da sua inteireza e unidade; pode ser uma personalidade, uma persona (máscara), mas deixou de ser uma individualidade, um ser indiviso em si mesmo. Unidade, integridade, felicidade, são sinônimos.
Muitos frustrados acabam em esquizofrenia. A palavra "esquizofrênico" quer dizer, em grego, mente partida. O homem mentalmente fragmentado é um homem desunido, descosmificado.
Onde não há realização existencial há necessariamente uma frustração existencial, que é o motivo da infelicidade de milhares e milhares de homens.
O homem que deixou de ser cosmos pela unidade acaba, cedo ou tarde, um caos pela desunião consigo mesmo. As leis que regem o Universo sideral regem também o Universo hominal.
Os Mestres da vida, além de fazerem o diagnóstico da enfermidade, indicam também a sua cura. Victor Frankl cura os seus doentes frustrados com logoterapia, mostrando-lhes o caminho para restabelecerem a sua integridade existencial, despertando-lhes a consciência do seu logos interno, o seu Eu, a sua alma. E os que conseguem fazer gravitar os planetas dos seus egos em torno do sol do seu Eu restabelecem a harmonia e felicidade da sua existência.
Krishna, na Bhagavad Gita, afirma que o ego é o pior inimigo do Eu, mas que o Eu é o maior amigo do ego.
O Cristo, no Evangelho, sabe que o homem que quer salvar o seu ego, perdendo o Eu, perde tudo.
O próprio Einstein, à luz da sua matemática metafísica, mostra que do caminho dos fatos (ego) não conduz nenhum caminho para o mundo dos valores (Eu).
Que é tudo isto senão Filosofia Univérsica, expressa de outra forma? O homem, para ter harmonia e felicidade, deve ter um centro de gravitação fixo e imutável, deve afirmar a soberania da sua substância divina sobre todas as tiranias das circunstâncias humanas – deve ser Universificado.
Em quase todos os meus livros tenho frisado esse caráter cósmico da vida humana, sobretudo nos mais recentes: “Educação do Homem Integral”, “Entre Dois Mundos”, “Einstein, o Enigma da Matemática”, “Rumo à Consciência Cósmica”, “Saúde e Felicidade pela Cosmo-meditação”, etc.
Nada disto, porém, é possível se o homem passar as 24 horas do dia na zona da dispersividade centrífuga do ego, e não der uma hora sequer à concentração centrípeta do Eu. As leis cósmicas são inexoráveis e imutáveis, tanto no mundo sideral como no mundo hominal. Obedecer a essas leis da natureza humana é harmonia e felicidade – desobedecer-lhes é caos e infelicidade.
Não somos advogados da passividade contemplativa de certos orientais – mas defensores da harmonia e do equilíbrio entre atividade e passividade, entre introversão e extroversão, entre concentração e expansão, entre implosão e explosão, que são o característico de todos os setores da natureza. Enquanto o homem não se “naturalizar” ou cosmificar, será sempre frustrado e infeliz. Uma hora, ou meia hora, de profunda cosmo-meditação pode dar ao homem o devido equilíbrio para o resto do dia.
Não recomendamos a meditação em forma de pensamentos analíticos, que é ineficiente, mas recomendamos a profunda sintonização com a alma do Universo, o esvaziamento de toda a ego-consciência, para que a plenitude da cosmo-consciência possa plenificar com as águas vivas da fonte divina a vacuidade dos canais humanos. Enquanto a egoplenitude (egocentrismo, egolatria) funciona, a teo-plenitude não pode funcionar. É lei cósmica: “Deus resiste aos soberbos (ego-plenos), mas dá sua graça aos humildes (ego-vácuos)”.
Durante a cosmo-meditação deve o homem esvaziar-se de todos os conteúdos do seu ego-humano – sentimentos, pensamentos e desejos – mantendo, porém, plenamente vigil a sua consciência espiritual; deve manter 100% de teo-consciência (Eu) e reduzir a ego-consciência a 0%.
O fim da Filosofia Univérsica é, pois, estabelecer no homem a mesma harmonia que existe no Universo, com a diferença de que no homem esta harmonia é voluntária e livre, enquanto no cosmos ela é automática.
Esta harmonia livremente estabelecida pode dar ao homem uma felicidade consciente infinitamente maior do que toda a harmonia, beleza e felicidade do Universo extra-hominal.
O esforço inicial dessa harmonização vale a pena pela subseqüente felicidade da vida humana.
No princípio necessita o principiante de períodos determinados e lugar certo para essa integração; mais tarde pode ele manter a concentração interior no meio de todas as dispersões exteriores, pode unir a sua implosão mística com todas as explosões dinâmicas; pode viver simultaneamente no Deus do mundo e nos mundos de Deus.

* * *

A Filosofia Univérsica é 100% brasileira; nasceu no Brasil – e é de esperar que tome conta deste país onde todos os impossíveis são possíveis, onde “em nele se plantando tudo dá”.




Advertência


A Editora Alvorada considera o livro, em primeiro lugar, como uma mensagem, e não como uma mercadoria. Por esta razão, estamos publicando, por enquanto, obras da autoria do Prof. Huberto Rohden, que contêm mensagens tipicamente Cristo-cósmicas à humanidade, frisando invariavelmente o Uno da essência revelado no Verso da existência do cosmos e do homem.
Além de uma lógica retilínea, quase matemática, os livros de Rohden obedecem a uma terminologia rigorosamente uniforme e explicam com grande clareza e facilidade os assuntos mais difíceis e obscuros do Universo sideral e hominal.
Mais tarde, depois de consolidarmos esta nossa orientação fundamental, pretendemos publicar livros de outros autores que não destoem da linha central de nossa mensagem.
•  O nosso objetivo precípuo não é fazer comércio de livros, mas sim crear no Brasil uma mentalidade de elevado padrão cultural, destinado a antes orientar do que divertir os leitores. Não é intenção nossa sermos refletores passivos da opinião pública dominante, mas antes diretores ativos da mesma.
(Este texto é uma cópia do folheto original “Filosofia Univérsica” distribuído pela Alvorada)
“Nenhum homem pode ser realmente feliz, enquanto não se UNIVERSIFICAR sintonizando a sua vida com o Deus do mundo no mundo de Deus”.
Huberto Rohden
Filosofia Univérsica
– Sua origem, sua natureza e sua finalidade.
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