Avaliação Global da Efetividade, Custo e Impacto da Atenção
Integrada às Doenças Prevalentes na Infância no Brasil

 
Fortaleza,
   

 
 

 

   
   

A avaliação nas unidades de saúde (AUS 2002) foi realizada por 24 entrevistadores em quatro Estados (Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco) durante o período de Julho a Novembro de 2002. Isso foi feito durante o período normal das atividades da unidade. Foram estudadas 653 crianças ao total (105 na Bahia, 193 no Ceará, 184 na Paraíba e 171 em Pernambuco).

Doze municípios foram avaliados na Bahia, 14 no Ceará, 16 na Paraíba e 16 em Pernambuco. Doze unidades foram avaliadas com AIDPI e 12 sem AIDPI em cada Estado, perfazendo 48 unidades com AIDPI e 48 unidades sem AIDPI. Todos os municípios tinham PSF (Tabela 1).

  • Amostra

    Tabela 1. Municípios visitados

    Estado

    Com AIDPI

    Sem AIDPI

     

    Nome

    Nº. de unidades

    Nomes

    Nº. de unidades

    Bahia

    São Sebastião do Passé
    Santo Estevão
    São Domingos
    Catu
    Barra do Choça

     

    3

    3
    2
    2
    2

    Capela de Alto Alegre
    Água Fria
    Presidente Jânio Quadros
    Amélia Rodrigues
    Entre Rios
    Ipacaetá
    Cardeal da Silva

    2
    2

    2
    2
    2
    1
    1

    Subtotal

    -

    12

    -

    12

    Ceará

    Itaitinga
    Paramoti
    Ipueiras
    Itatira
    Forquilha
    Coreaú
    Boa Viagem

    2
    2
    2
    2
    2
    1
    1

    Ocara
    Ibaretama
    Apuiarés
    Monsenhor Tabosa
    Groaíras
    Choró
    Moraújo

    2
    2
    2
    2
    2
    1
    1

    Subtotal

    -

    12

    -

    12

    Pernambuco

    Rio Formoso
    Vicencia
    Riacho das Almas
    São João
    Ribeirão
    Caetés
    Brejão
    Nazaré da Mata

    2
    2
    2
    2
    1
    1
    1
    1

    Itambé
    Primavera
    Chã de Alegria
    Orobó
    Lagoa de Itaenga
    Barra do Guabiroba
    Frei Miguelino
    Capoeiras

    2
    2
    2
    2
    1
    1
    1
    1

    Subtotal

    -

    12

    -

    12

    Paraiba

    Soledade
    Caaporã
    Sobrado
    Jacaraú
    São Miguel de Taipú
    Santa Luzia
    Alhandra
    Curral de Cima

    2
    2
    2
    2
    1
    1
    1
    1

    Arara
    Lucena
    Cuité de Mamanguape
    Mari
    Marcação
    Itatuba
    Desterro
    Conde

    2
    2
    2
    2
    1
    1
    1
    1

    Subtotal

    -

    12

    -

    12

    Total

    -

    48

    -

    48

    Todas as unidades eram do PSF, pois essa avaliação foi realizada em unidades do nível primário em que a porta de entrada da população aos serviços de saúde são as unidades do PSF. Metade das unidades tinham AIDPI e a outra metade não, de modo a permitir a sua comparação.

  • Demanda nas unidades

    Tabela 2. Motivos das mães para trazer as crianças às unidades.

  •  

    Com AIDPI

    Sem AIDPI

    p

     

    n

    %

    n

    %

     

    Tosse/dif. para respirar

    167

    56,6

    153

    42,7

    0,000

    Febre

    87

    29,4

    94

    26,3

    0,203

    Diarréia/vômito

    44

    14,9

    59

    16,5

    0,331

    Problema de ouvido

    13

    4,4

    21

    5,9

    0,256

    Puericultura

    29

    9,8

    30

    8,4

    0,306

    Outra queixa

    157

    53,2

    227

    63,4

    0,005

    A maioria das queixas das mães ou acompanhantes inclui as doenças priorizadas na estratégia AIDPI em unidades com e sem AIDPI, o que ressalta a importância de uma estratégia para as doenças prevalentes da infância.

    Tabela 3. Crianças com peso e temperatura aferidos.

     

    Com AIDPI

    Sem AIDPI

    p

     

    n

    %

    n

    %

     

    Peso

    281

    95,0

    311

    86,9

    0,000

    Temperatura

    203

    68,8

    248

    69,3

    0,483

    A aioria das crianças foi pesada, com diferença significativa nos municípios com AIDPI. Em relação a medição da temperatura, esta foi menos medida, sem diferença significativa. É necessário, portanto, ênfase desse item na capacitação e no seguimento dos profissionais de saúde, uma vez que isso é fundamental para a classificação das crianças.

  • Avaliação

    Tabela 4. Avaliação dos sinais gerais de perigo.
  •  

    Com AIDPI

    Sem AIDPI

    p

     

    N

    %

    n

    %

     

    Perguntou se bebe líquidos ou mama

    167

    56,6

    50

    13,9

    0,000

    Perguntou se vomita tudo

    157

    53,2

    27

    7,5

    0,000

    Perguntou se há convulsões

    128

    43,4

    31

    8,7

    0,000

    Perguntou por três sinais gerais de perigo

    113

    38,3

    2

    0,56

    0,000

    A maioria dos profissionais perguntou simultaneamente pelos três sinais gerais de perigo nos municípios com AIDPI, com diferença significativa, apesar de ser pouco mais de um terço. Isso pode contribuir para a não detecção precoce dos casos mais graves, com maior risco de morte, e reflete a necessidade de enfatizar tal aspecto na capacitação e seguimento dos profissionais.


    Tabela 5. Avaliação dos sintomas principais.

     

    Com AIDPI

    Sem AIDPI

    p

     

    N

    %

    n

    %

     

    Perguntou por tosse ou dificuldade para respirar

    273

    92,5

    241

    67,3

    0,000

    Perguntou se tem diarréia

    223

    79,1

    185

    51,7

    0,000

    Perguntou se tem febre

    281

    95,3

    303

    84,6

    0,000

    Perguntou por três sintomas principais

    224

    75,9

    118

    32,9

    0,000

    A maioria dos profissionais de saúde avaliou os sinais principais nos municípios com AIDPI, com diferença significativa, o que reflete possivelmente uma adequada capacitação dos profissionais de saúde nos cursos clínicos.



    Tabela 6. Avaliação dos sinais de desnutrição e anemia grave.

     

    Com AIDPI

    Sem AIDPI

    p

     

    n

    %

    n

    %

     

    Verificou-se emagrecimento acentuado

    62

    21,0

    9

    2,5

    0,000

    Verificou-se edema em ambos os pés

    71

    24,1

    12

    3,4

    0,000

    Verificou-se palidez palmar

    170

    57,6

    54

    15,1

    0,000

    Apenas ¼ dos pacientes foram avaliados em relação a sinais de desnutrição e metade em anemia nos municípios com AIDPI, o que é acentuadamente maior em relação aso municípios sem AIDPI. Como a anemia e desnutrição são importantes causas de morbidade e mortalidade em nosso meio, é necessário reforçar a sua detecção na capacitação e seguimento dos profissionais de saúde.

    Tabela 7. Avaliação do cartão da criança em relação ao peso.

     

    Com AIDPI

    Sem AIDPI

    p

     

    N

    %

    n

    %

     

    Profissionais que pediram o cartão

    252

    85,4

    200

    55,9

    0,000

    Acompanhantes que trouxeram o cartão

    215

    72,9

    214

    59,8

    0,002

    Profissionais que compararam o peso na curva do cartão

    237

    80,3

    137

    38,3

    0,000

    Profissionais que avaliaram o peso conferindo com o cartão da criança*

    197

    66,7

    154

    43,0

    0,000

    * Inclui os três itens associados anteriores para o total de crianças

    A maioria dos profissionais de saúde dos municípios com AIDPI avaliaram o peso da criança conferindo com o cartão da criança. A não-comparação do peso com a curva dificulta a avaliação do estado nutricional da criança e precisa ser reforçado nos cursos de capacitação e seguimento dos profissionais de saúde.

    Tabela 8. Avaliação do esquema de vacinação da criança.

     

    Com AIDPI

    Sem AIDPI

    p

     

    n

    %

    n

    %

     

    Crianças com vacinas verificadas

    219

    74,2

    217

    60,6

    0,000

    A maioria dos profissionais de saúde verificou o esquema vacinal, mas com diferença significativa nos municípios com AIDPI. É importante que o esquema vacinal seja avaliado em todas as crianças. É necessário, portanto, dar mais ênfase a essa conduta na capacitação e seguimento dos profissionais de saúde.

    Tabela 9. Avaliação da alimentação de menores de dois anos.

     

    Com AIDPI

    Sem AIDPI

    p

     

    n

    %

    n

    %

     

    Mães interrogadas sobre amamentação

    122

    41,4

    118

    33,1

    0,017

    Mães interrogadas sobre outros alimentos e líquidos

    200

    67,8

    226

    63,1

    0,122

    Mães interrogadas se criança mudou de alimentação

    109

    37,0

    64

    17,9

    0,000

    Crianças avaliadas sobre alimentação*

    56

    19,0

    17

    4,8

    0,000

    * Todos os três itens avaliados simultaneamente

    Uma minoria dos profissionais de saúde avaliou a alimentação das crianças menores de dois anos, apesar dessa avaliação ser significativamente maior nos municípios com AIDPI. É importante, portanto, reforçar esse aspecto nos cursos de capacitação e seguimento dos profissionais de saúde.

  • Tratamento
  • Tabela 10. Explicação dos profissionais de saúde às mães ou acompanhantes
    de quando a criança deve retornar.

     

    Com AIDPI

    Sem AIDPI

    p

     

    N

    %

    N

    %

     

    Explicaram quando retornar de imediato

    203

    68,8

    164

    45,8

    0,000

    A maioria dos profissionais de saúde explicou a mãe ou acompanhantes quando a mesma deve retornar de imediato a unidade de saúde, o que pode prevenir mortes e diminuir a ocorrência de complicações. É necessário, mesmo assim, enfatizar essa prática nos cursos de capacitação e seguimento dos profissionais de saúde.

    Tabela 11. Sinais e sintomas para retornar imediatamente.

     

    Com AIDPI

    Sem AIDPI

    p

     

    N

    %

    N

    %

     

    Não consegue beber ou mamar

    104

    35,3

    11

    3,1

    0,000

    Piora ou fica mais doente

    162

    54,9

    96

    26,8

    0,000

    Apresenta piora da febre

    150

    50,9

    21

    5,9

    0,000

    Dificuldade para respirar

    91

    30,9

    4

    1,1

    0,000

    Respiração rápida

    75

    25,4

    0

    0

    0,000

    Sangue nas fezes

    17

    5,8

    3

    0,8

    0,000

    Bebe com dificuldade

    7

    2,4

    0

    0

    0,004

    Três orientações sobre quando retornar

    139

    47,1

    7

    1.9

    0,000

    Os resultados evidenciam que, embora a maioria dos profissionais de saúde nos município com AIDPI oriente as mães quando elas devem retornar imediatamente se a criança apresentar alguns sinais, poucos utilizam três ou mais sinais preconizados na estratégia. Faz-se necessário, portanto, reforçar esse aspecto na capacitação e visita de seguimento.

  • Compreensão das mães
  • Tabela 12. Perguntou algo sobre a saúde da mãe ou acompanhante.

     

    Com AIDPI

    Sem AIDPI

    p

     

    N

    %

    N

    %

     

    Sim

    71

    23,9

    88

    24,7

    0,107

    Apenas ¼ dos profissionais de saúde avaliou a saúde das mães, sem diferença significativa entre os municípios com e sem AIDPI. É possível que esse achado possa estar relacionado a pouca ênfase dada a esse aspecto nos cursos de capacitação, ou ainda porque os profissionais valorizem mais o problema da criança na consulta do que os problemas das mães. É necessário, portanto, reforçar esse aspecto nos cursos de capacitação e seguimento dos profissionais de saúde.

    Tabela 13. Acompanhante recebeu folheto explicativo, AIDPI.

     

    Com AIDPI

    Sem AIDPI

    p

     

    N

    %

    N

    %

     

    Sim

    55

    18,6

    4

    1,1

    0,000

    Uma minoria de profissionais de saúde entregou a mãe algum folheto explicativo. É possível que não haja folhetos explicativos disponíveis nas unidades de saúde ou pouca sensibilidade dos profissionais de saúde para esta tarefa durante a sua capacitação. É necessário, portanto, reforçar esse aspecto nos cursos de capacitação e visitas de seguimento.

  • Pessoal, equipamentos e insumos
  • Tabela 14. Disponibilidade de medicamentos orais.

     

    Com AIDPI

    Sem AIDPI

    P

     

    n

    %

    n

    %

     

    SMX + TMT

    46

    100,0

    42

    93,9

    0,117

    Sulfato ferroso

    44

    95,7

    42

    93,3

    0,677

    Salbutamol/fenoterol

    43

    93,5

    40

    88,9

    0,485

    Paracetamol/dipirona

    44

    95,2

    42

    98,3

    0,677

    Mebendazol/albendazol

    44

    95,7

    42

    93,3

    0,677

    Eritromicina

    45

    97,8

    34

    75,6

    0,002

    Ampicilina

    29

    63,0

    28

    62,2

    1,0

    Amoxicilina

    37

    80,4

    36

    80,0

    1,0

    Vitamina A

    28

    60,9

    23

    51,1

    0,402

    Nistatina

    31

    32,6

    9

    20,0

    0,215

    SRO

    45

    97,8

    45

    100

    1,0

    Cefalexina

    15

    32,6

    11

    24,4

    0,488

    Prednisona/prednisolona

    21

    45,7

    17

    37,8

    0,526

    Acido nalidixico

    5

    10,9

    0

    0

    0,056

    A maioria das unidades de saúde dispõe de medicamentos orais padronizados, sem diferença significativa entre os municípios com e sem AIDPI. Isso é importante, em função da baixa renda da população nas regiões estudadas, especialmente antibióticos.

    Tabela 15. Disponibilidade de medicamentos injetáveis.

     

    Com AIDPI

    Sem AIDPI

    P

     

    N

    %

    N

    %

     

    Soro fisiológico

    45

    97,8

    40

    88,9

    0,111

    Penicilina benzatina

    35

    76,1

    37

    82,2

    0,607

    Penicilina Procaina

    33

    71,7

    37

    82,2

    0,321

    Gentamicina

    8

    17,4

    10

    22,2

    0,607

    Cloranfenicol

    7

    15,2

    5

    11,1

    0,758

    Diazepan

    15

    32,6

    16

    35,6

    0,827

    Hidrocortisona

    16

    34,8

    13

    28,9

    0,654

    Adrenalina

    17

    37,0

    8

    17,8

    0,066

    Diluente

    44

    95,7

    45

    100

    0,827

    A maioria das unidades dispõe de medicamentos injetáveis padronizados, exceto gentamicina, clorafenicol e diazepan, sem diferença significativa entre os municípios. É importante lembrar que essas são unidades básicas de saúde, destinadas especialmente a prestar atenção primária. Alguns medicamentos injetáveis devem ser aplicados nos casos de doença muito grave, especialmente quando o encaminhamento não puder ser feito de imediato.

    Tabela 16. Disponibilidade de vacinas.

     

    Com AIDPI

    Sem AIDPI

    P

     

    N

    %

    N

    %

     

    Anti-Sarampo

    43

    93,5

    39

    86,7

    0,337

    DT

    32

    78,3

    30

    73,3

    0,547

    DPT

    44

    96,7

    39

    86,7

    0,256

    VPO

    43

    93,5

    40

    88,9

    0,515

    VHB

    43

    93,5

    39

    86,7

    0,337

    BCG

    35

    76,1

    27

    60,0

    0,135

    Tríplice viral

    32

    69,6

    35

    77,8

    0,153

    Tetravalente

    40

    87,0

    33

    73,3

    0,134

    Hib

    26

    56,5

    29

    64,4

    0,227

    Contra Febre Amarela

    10

    21,7

    10

    22,2

    0,547


    A maioria das unidades de saúde dispõe de mais de dois terços de todas as vacinas do calendário vacinal sem diferença siginificativa entre os municípios com e sem AIDPI, exceto "Contra Febre Amarela" que é necessário mais na Região Norte. Entretanto, é desejável que todas as unidades possam dispor de todas as vacinas com cobertura de 100%.


    Resumo

  • A maioria das mães ou acompanhantes procuram as unidades de saúde nos municípios com e sem AIDPI por problemas que incluem as doenças prevalentes na infância, e que estão contempladas na estratégia AIDPI.


  • Foram observadas diferenças significativas dos municípios com AIDPI em relação a:


  • - Avaliação dos sinais gerais de perigo.
    - Avaliação dos sintomas principais.
    - Avaliação dos sinais de desnutrição e anemia grave.
    - Avaliação do cartão da criança em relação ao peso.
    - Avaliação do esquema de vacinação da criança.
    - Avaliação da amamentação.
    - Avaliação da mudança da alimentação.
    - Explicação de quando a criança deve retornar.
    - Explicação dos sinais e sintomas para retornar imediatamente.
    - Recebimento do folheto explicativo pela mãe ou acompanhante.

  • Não foram observados diferenças significativas dos municípios com AIDPI em relação a:


  • - Medição da temperatura.
    - Interrogação das mães sobre alimentos e líquidos.
    - Pergunta sobre a saúde da mãe ou acompanhante.
    - Disponibilidade de medicamentos orais.
    - Disponibilidade de medicamentos injetáveis.

  • O estudo MCE/AIDPI mostra evidências científicas que há diferença significativa em relação ao manejo de crianças nos municípios com AIDPI, especialmente na avaliação dos sinais de gravidade que tem impacto na morbidade e mortalidade das crianças. Em ambos os municípios há disponibilidade adequada de medicamentos e vacinas.

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