ESPAÇO & ESTÍMULO
Da Psicologia Ambiental à Arquitetura Terapêutica - uma introdução
Oscar Müller
O que somos e a maneira como vivemos depende, em grande parte, do meio ambiente no qual estamos inseridos...

INDEX
Introdução
Definições
Antecedentes
Conceitos básicos
Exemplos e aplicações
Referências bibliográficas
Mais Informações
Introdução – Espaço & Estímulo
O espaço que nos cerca sempre oferece informações que captamos com nossos sentidos. Muitas vezes óbvios e outras, nem tanto, estes estímulos são todavia constantes (por isso também muito eficientes), e nos afetam durante toda nossa existência. O ser humano está sempre submetido a esta espécie de estimulação, raras vezes inócua, e os habitantes das cidades, quase que integralmente apartados do convívio com a natureza, sofrem esta influência a partir de fontes criadas pelo homem, 99% das vezes de maneira aleatória, e de efeitos insuspeitos.
É inegável que o que somos e a maneira como vivemos depende, em grande parte, do meio ambiente no qual estamos inseridos. O meio nos transforma e nos adaptamos a ele para sobreviver, em algumas vezes causa e efeito se tornam aparentes em questão de segundos, em outras o processo é cumulativo, gerando reações a longo prazo capazes até de nos transformar lentamente, geração após geração, num percurso sem retorno, de macacos ao que somos hoje, como é sabido por todos. Tem sido assim sempre, durante toda a evolução do Homem, e estamos habituados a pensar neste fato a partir de uma escala de tempo biológica, que se mensura em milhares ou centenas de milhares de anos, sem nos apercebermos que este processo se dá no dia a dia, a todo instante, com resultados que nos transformam totalmente, em todos os aspectos e em variadas graduações.
As transformações acontecem com a mesma rapidez em que somos capazes de assimilá-las, e esta velocidade é o que possibilitou a vantagem da nossa espécie sobre as demais. Embora a lentidão do processo biológico torne impossível a percepção direta das variações, numa escala de tempo psicológica sucede o oposto, aqui somos muitíssimo mais maleáveis e susceptíveis a transformações, portanto, as mudanças são instantâneas, e o meio ambiente também é fator determinante.
Definições – Da Psicologia Ambiental à Arquitetura Terapêutica
Nosso cérebro recebe e processa informações constantemente, e uma das características mais poderosas do espaço (entendido aqui como entorno, envoltório do ser humano) reside no fato de estarmos submetidos a ele durante toda a existência, não há como não estar em algum lugar. Até mesmo enquanto dormimos, qualquer ruído, a temperatura, o colchão, interferem em nosso sono ou sonho. Um pingo d’água na testa pode não ser um incomodo em absoluto, mas a continuidade e permanência do mesmo estímulo, pode metamorfosear algo tão pouco pernicioso como um alegre aviso de chuva, na mais irresistível tortura chinesa. Assim é a força dos estímulos espaciais, contínuos, permanentes, ininterruptos...
Os arquitetos, urbanistas, paisagistas e decoradores são os profissionais especificamente treinados para conceber e tratar os espaços. Como criadores e pensadores é nossa obrigação estarmos conscientes dos efeitos do nosso trabalho sobre os usuários e, dentro das possibilidades de cada um, intentar obter o melhor. É preciso considerar que, neste aspecto, nosso afazer se entremeia com a prática da psicologia, e que não somos treinados para diagnosticar, nem temos cabedal técnico suficiente para nos aventurarmos irresponsavelmente num campo desconhecido. Qual estímulo é ou não desejável para este ou aquele usuário? Decidir o que o usuário final precisa, ou o que lhe é conveniente, está muito longe das nossas atribuições, bem como a maior parte das técnicas para tanto. É preciso cooperar (no sentido etmológico da palavra) com o profissional psicólogo, tanto na concepção dos objetivos, quanto na busca de técnicas adequadas para cada caso específico.
Podemos traduzir muitas das tentativas dos profissionais da nossa área neste campo como um esforço semi-consciente para obter do espaço criado determinada função, sensação, ou experiência. Quando projetamos uma sala de espera numa clínica odontológica é conveniente que quem a utilize sinta-se tranqüilo e calmo. O espaço adequado a esta função deve transmitir segurança ao usuário ou estaremos prestando um desserviço ao nosso hipotético cliente dentista.
Trabalhando com cores e formas, com o mobiliário, sua ergonomia e posicionamento, circulação, perspectivas, iluminação, paisagem e todos os recursos que estiverem à disposição em cada caso, intentamos conseguir que o espaço atenda ao seu propósito. O esforço do arquiteto na direção do que pretende obter, no entanto, é em grande parte intuitivo e aparentemente esotérico, pois ações intuitivas são dificilmente explicáveis, ainda mais para um leigo ou para seu contratador.
Quando nos deparamos com um programa qualquer, raramente o que se objetiva como estimulação aos usuários é mencionado. O dentista do exemplo anterior vai pedir uma sala de espera com um número muito específico de lugares, mas muito raramente explicitará que os usuários daquele ambiente devem se sentir relaxados e tranqüilos, ou que ali não deve ser audível o torturante barulho do motorzinho durante a espera. Isso acontece, em primeira instância, porque o cliente não pensa nessa espécie de atributo para o espaço, porque não sabe que a arquitetura pode oferecer esta espécie de estimulação, e, em última análise, porque o profissional arquiteto não pergunta nada sobre este aspecto. É preciso considerar também que não faz parte dos conhecimentos obrigatórios de um dentista ou do arquiteto, o fato do medo ser contagioso e se espalhar com facilidade, e que, portanto, esta sala de espera não deve privilegiar a troca de olhares entre os clientes e sim entre cada um deles e um eventual acompanhante, pois este último não vai se submeter a nenhum tratamento e está verdadeiramente tranqüilo.
No comércio e nas áreas de trabalho onde acontece o atendimento ao cliente (ou público) é adequado consultar os profissionais de marketing da empresa no auxílio do desenvolvimento do programa. Da mesma maneira que um sociólogo será útil, se o objetivo for um equipamento urbano. Para cada ambiente e uso específico, há um profissional envolvido que pode direcionar melhor o trabalho que virá. Com o programa definido, o arquiteto coordenador deverá dar continuidade ao trabalho, em estreita colaboração com o psicólogo.
Este assunto precisa ser tratado por arquitetos e psicólogos juntos, pois terão de transmitir conceitos, trocar experiências e interagir de forma talvez não muito cômoda para ambos. São premissas básicas para realizar neste campo tanto esta capacidade de comunicação, como uma preocupação sempre presente de usar uma linguagem compreensível pelos dois profissionais envolvidos. A busca por uma terminologia comum fundamenta-se na troca de conceitos de parte a parte; neste micro-curso, vou partir do pressuposto que, por parte da arquitetura, o conceito de escala foi transmitido, pois acredito que qualquer arquiteto consiga passá-lo para um psicólogo...
A psicologia ambiental é um recurso que foi amplamente utilizado na história, podemos dizer que por todos, Deus e o diabo... As muitas referências podem ser tão específicas como o corredor em arcos que reverberava o aço das botinas em passo de ganso, acelerando o coração de quem entrasse na sala de Hitler, ou chegar aos nossos tempos como fórmula consagrada pelo uso, como a igreja católica, com componentes conhecidos de todos nós.
Em algum momento do passado, um arquiteto desenhou um primeiro templo, suas naves, púlpitos e confessionários. Intuitivamente ou não, proposta copiada ou transformada pelo tempo, encontramos hoje um padrão que nos faz sentir pequenos diante do altar, dada a escala e a perspectiva em que somos inseridos, que nos faz agir e nos movimentar de forma contida e respeitosa, pois os ecos multiplicam nossos passos e qualquer ação é percebida por todos. Este padrão também torna as palavras do pregador ainda mais verdadeiras, alterando nosso horizonte artificial e tornando-nos menos aptos a questionar; e tranquiliza o confessando, com uma mudança radical para um ambiente íntimo e escuro, onde ele não vê nem é visto por ninguém, parecendo estar à sós com sua consciência.
Mesmo as soluções que não foram premeditadas, ou as que não tinham bases científicas claras quando apareceram, e foram preservadas só pela funcionalidade, hoje podem ser analisadas e decodificadas à luz dos conhecimentos da psicologia moderna.
Já a arquitetura terapêutica é um conceito mais novo (minhas referências e experiências pessoais neste campo não são anteriores a 1983); mais que agir preventivamente ela usa os estímulos espaciais para o tratamento, para a terapia de um determinado usuário, visando sua evolução como ser humano, promovendo sua sanidade mental. Como arquitetos estamos mais próximos deste conceito, enquanto que como urbanistas mais próximos do anterior. As atribuições se misturam e os afazeres também, e isto determina a falta de uma fronteira específica, delimitada, com a qual não estamos acostumados, mas que é típica da psicologia. No decorrer deste texto tentarei oferecer uma ótica mais ampla, que gradativamente gravite de um extremo ao outro.
Conceitos básicos - Da prevenção à terapia
Como seres humanos percebemos a vida através de nossos sentidos; neste aspecto (salvo infelizes exceções), somos todos iguais. Enquanto escrevo posso supor que você está lendo e compreendendo minhas palavras, e que neste exato momento, está vivo, respira, etc... Se considerarmos o destino imediato deste texto como micro-curso do I CVA, muitas outras peculiaridades acontecem: somos arquitetos, estamos sentados em frente ao computador, gostamos de aprender, temos treinamento em compreensão de texto, etc... Somos iguais até onde podemos supor, enquanto desconhecidos, e em escala maior somos o mesmo. As especificidades vão aparecendo na medida em que, mudando a escala, enfocamos o particular, ou conseguimos caracterizar o usuário. Isso pode ser feito em variadas escalas: espécie, continente, língua, raça, você escolhe. De uma identidade cultural presente em um grande grupo, até a situação mais particular do "mono-usuário", vou neste texto enfocar somente a questão da escala. E aqui, desenvolver uma habitação, um ambiente comercial ou uma praça pública são processos radicalmente diferentes.
Ao percorrermos este trajeto, da humanidade até o indivíduo, ao mesmo tempo em que nos tornamos mais específicos, mais diferenciados, individualizados, também nossas particularidades em comum se tornam mais evidentes, gerando outras referências, até que, de tão diferente, reste a cada ser humano ainda ser humano, estar vivo e ser esta única identidade possível, como aliás acontece com todos os demais, fechando o círculo. Ou seja, em pequena escala, nada mais somos do que exatamente na maior escala possível: Vida. Um amigo argentino me disse, certa vez: "No somos iguales, somos lo mismo!" Uma das coisas mais verdadeiras que já ouvi...
Ao lidarmos com grupos de pessoas, com o espaço público, sem individualizar o usuário, só podemos atuar de maneira preventiva. É bom lembrar que, assim como a psicologia preventiva é matéria curricular para o psicólogo e deveria informar também sobre os estímulos espaciais, também a higiene da habitação trata, na verdade, do estudo do espaço sadio, e a sanidade mental deveria estar incluída neste conceito. Enfim, trabalhando com o projeto de uma praça, por exemplo, a ação conjunta do arquiteto e do psicólogo é muito mais técnica, limita-se em favorecer determinadas atividades e tentar impedir outras. A psicologia de massa oferecerá alguns dados e a ética, o restante; talvez nesta escala o rumo, o partido, dependa mais do diagnóstico de um sociólogo. Estas decisões significam, de certa maneira, exercer um poder, influenciar, transformar de alguma forma a vida dos usuários. O profissional que compreende essas informações passa por uma tomada de consciência que tem de ser acompanhada do maior senso de responsabilidade e ética, pois não há nenhuma lei que o oriente, nenhuma postura que seja suficiente em si mesma, só o bom senso pode ser de alguma ajuda. Um bem estruturado senso ético para não impor suas verdades pessoais, coisa aprendida pelo bom terapeuta, só pode ser abraçada de estalo com muito policiamento. Até mesmo suas mais íntimas convicções políticas podem afetar seu trabalho.
Embora a questão seja delicada, o objetivo político nos espaços públicos é facilmente alcançado. Crie-se uma sede de governo, cercado por um fosso e com um espaço vazio quilométrico em volta, e 100.000 manifestantes podem bater à porta deste governo: ele não precisará atendê-los. Mas se esta sede está numa praça circular, de menores dimensões, com 10.000 pessoas, este outro governo estaria ilhado e pressionado. Estamos tratando de escala. A escala aqui é o mais importante e então, devemos considerar o óbvio: qual a comunidade que a obra deve atender? Esta comunidade certamente terá suas particularidades, reconhecê-las e não diminuir-lhe as possibilidades de ação é uma questão ética e moral, no mínimo porque temos que atender da melhor forma nosso contratante e, em última análise, este será sempre o usuário final, direta ou indiretamente.
Vamos voltar à escala, ao nosso trajeto. Recapitulando: se de um lado da escala somos vida neste planeta (e creio que esta consciência será o próximo grande avanço da Humanidade), caminhando para o outro lado vamos nos tornando mais específicos, mas sempre nos agrupando em torno de "diferenças-iguais": deste hemisfério, daquela raça, com este credo, daquela nação...
Quanto mais se torna específico o usuário, menor o grupo, mais peculiaridades para trabalhar, e objetivos a alcançar. Há traços em comum, particulares de grandes grupos, até na escala das nações. Enquanto o traço mais desenvolvido na percepção do povo alemão é o auditivo (para saber mais veja Programação Neuro Linguística), no povo brasileiro se dá o contrário, o canal auditivo é o menos utilizado. É possível estimular este canal, e tratar esta deficiência cultural conceitualmente, oferecendo espaços coerentes, não aleatórios, de decodificação lógica aparente ou diretamente, implantando estímulos sonoros (música, água, móbiles, etc.) nos espaços públicos.
A escala! Vamos caminhar um pouco mais: grupos menores necessitarão de ambientes também menores e terão usos e usuários mais específicos, oferecerão particularidades maiores. Qualquer coisa em comum, como cultura e hábitos locais, profissão, nível cultural, oferece mais dados e mais campo para o trabalho. Os ambientes destinados a uma função determinada, como os de trabalho, são bons exemplos, podem favorecer uma dinâmica de equipe ou o trabalho individual, centrar esforços ou dividir responsabilidades, aqui a função é o mais importante.
Nesta escala intermediária, lidando mais com uma atividade (e a partir dela), o que os usuários terão em comum, e as relações entre eles e a ergonomia são os dois aspectos mais óbvios a considerar. Muitas vezes a orientação prescinde do diagnóstico, pode ser um ambiente de uso constante, diário para um grupo específico ou então um espaço de uso eventual, caracterizado tão somente pela sua função, originando-se de uma necessidade de marketing ou de produção. Lay-outs de ambientes industriais, ou salas de aula, o hall de um hotel ou a loja do magazine, devem considerar o perfil dos usuários, mas, principalmente, as relações entre eles e o que se espera que aconteça naquele ambiente.
A ergonomia é talvez o aspecto mais fácil de assimilar e pôr em prática, pois os elementos que temos para trabalhar não são tão variados. O corpo humano por um lado, e de que forma o posicionamos, por outro.
Para que se tenha uma compreensão mais completa do processo, creio que podemos, enquanto arquitetos, sem ferir a ética, fugir um pouco do aspecto introdutório deste micro-formato e invadir um pouco a área dos psicólogos aqui, pois a ergonomia neste aspecto em particular, parece ser domínio de ambos. Portanto, este é o melhor campo para aprofundar um pouco esta apresentação e oferecer um exemplo de ferramenta (resumido ao formato deste nosso micro-curso) que você possa utilizar daqui em diante, cientificamente, obtendo reações emocionais específicas em seus projetos.
Para você, mesmo como curiosidade, talvez interesse saber que a psicologia, já a partir de Reich, que chama atenção para a linguagem corporal, depois com a análise energética de Lowen, a terapia Gestalt de Perl e outras, ofereceram a Greene dados suficientes para que, em 1970, ele e seus colaboradores formulassem o Princípio Psicofisiológico (e este sem dúvida nos interessa) cujo enunciado é o seguinte: Cada modificação no estado fisiológico é acompanhada por uma mudança apropriada no estado mental-emocional; e reciprocamente, cada modificação no estado mental-emocional é acompanhada por uma mudança apropriada no estado fisiológico. O que significa que o relaxamento ou retesamento de cada músculo do corpo humano está diretamente relacionado com um estado emocional ou mental, seja este estado consciente ou não, e vice-versa.
Portanto, induzindo uma postura mental obtemos uma corporal e provocando uma determinada postura corporal obtemos um também determinado estado emocional. Fácil, não é? Para quem projeta ou mobília um ambiente, não é difícil gerar as posturas corporais adequadas. Basta para tal que saibamos o que devemos obter, e que dominemos o repertório necessário. Como já foi explicado aqui, o programa desenvolvido com o auxílio de profissionais adequados nos informará do que devemos obter e o repertório pode ser obtido diretamente do psicólogo; porém, é aconselhável que o arquiteto conheça, ao menos grosso modo, essa linguagem, para facilitar sua compreensão e comunicação com o psicólogo. A leitura de "O Corpo Fala" é mais que suficiente para tanto. Este livro, elaborado com linguajar descomplicado, oferece uma fácil leitura ao leigo, sem exigir conhecimento anterior. Mais atual, a PNL (Programação Neuro Linguística) traria a mesma informação, através, por exemplo, de expressões verbais de origem gestual presentes na língua, como "dar as costas" ou "morder os lábios". Embora essas informações sobre linguagem corporal estejam disponíveis desde a década de setenta, os designers de mobiliário parecem não tomar conhecimento deste fato e desenham peças sem nenhuma funcionalidade neste aspecto. Mesmo os móveis para escritório mais simples, que deveriam atender tão somente a função, não o fazem.
Veja no exemplo abaixo, desenhado "a lá" Tompakow (um dos autores de O Corpo Fala), como a tradicional mesa de secretária ou recepcionista tem habitualmente um projeto inverso ao que seria ideal. Por um momento, coloque-se na posição do proprietário de uma empresa e decida se preferiria que essa sua cliente fosse atendida pela moça ou pelo rapaz da ilustração.

Mesmo intuitivamente, sem conhecer o repertório, sem ter os dados que você vai adquirir lendo o livro, já é possível perceber, que na primeira figura, com a mesa posicionada convencionalmente, o anteparo inferior obriga um distanciamento maior da cliente em relação ao objeto em questão (que será o assunto ali tratado ou o centro da mesa), e facilita uma postura mais relaxada da funcionária, enquanto, no segundo caso, com a mesa posicionada ao contrário, a dinâmica é outra e a função, melhor atendida. É claro que também aconteceu a troca das cadeiras e um apoio para os pertences da cliente foi acrescentado, mas também pode ser porque a moça simpatizou mais com o rapaz...
Note que somente com esta variável já se pode atender a várias situações diferentes. Se o objetivo é afastar a cliente ou deixá-la mais retraída e menos aberta a qualquer proposta de mudança, a primeira opção é mais interessante. Atenderia melhor a um balcão de troca de mercadorias de um comerciante sem escrúpulos, por exemplo...
Quanto às relações, neste caso simples, que envolve apenas 3 pontos, as duas pessoas e o assunto a ser tratado, poderíamos representá-las assim:

Um ambiente não aleatório, configurado como o do pequeno exemplo acima, por ser eficiente e promover uma função determinada tem, no decorrer de seu uso, uma função terapêutica também. O rapaz do exemplo tem um ambiente de trabalho funcional que satisfaz suas necessidades de modo mais efetivo, e as atividades desenvolvidas ali transcorrem mais satisfatoriamente, seu tempo destinado ao trabalho tem mais qualidade, mais resultados e é mais agradável. Tudo isso se traduz não só em um benefício para o empresário, que tem sua atividade "azeitada", mas também resulta num espaço de trabalho mais sadio e em uma vivência sã de uma parcela importante do dia a dia na vida do empregado. Este espaço saudável e são, a longo prazo, tem uma função terapêutica inegável, embora não específica. Veja que aqui, mais que prevenir, a imersão diária e continuada nessa conjuntura promove, ultrapassando o caráter preventivo e assumindo uma ação, de fato, terapêutica.
Agora, como um exercício de imaginação, pense numa mesa de reuniões e seus ocupantes. Se a mesa é retangular, as relações são em direção às cabeceiras e em contraposição, ficando os participantes mais próximos, mesmo que separados por apenas um componente, impedidos de se relacionar. Se a mesa é redonda, as relações multiplicam-se, a dinâmica é muito maior, mas esta disposição pode não ser muito agradável para um chefe déspota... O Homem, desde tempos imemoriais, reúne-se em círculo e, seja o calor de uma fogueira que os protege como um grupo, ou um orador, é o que está no centro que trás um objetivo comum a todos, sem dispersão. É aquilo que os une, que os diferencia dos demais, tornando-os iguais nesta diferença. Numa mesa redonda o assunto é o que é favorecido. Se o objetivo é particular, uma mesa triangular seria a solução mais apropriada.
Considere, agora, uma sala de aula comum, aquela de modelo francês que todos um dia freqüentamos e que conta com a configuração padrão professor no tablado "versus" alunos. Muita gente, cinqüenta adolescentes sempre de costas para alguém, ao lado de outro, atrás de mais um, referências cheias de significados, relação estática e vícios sendo criados diariamente. Em contraposição, imagine uma sala octogonal, com carteiras giratórias, com quatro janelas e quatro lousas intercaladas, sem tablado. Outra dinâmica: o professor decide qual lousa usará naquele instante, ou se estará no meio de um círculo. Ninguém sempre atrás ou na frente, relações multiplicadas e favorecidas, muito mais campo de ação para um bom professor. Esta experiência foi feita em 86 no Colégio Evolução (Itanhaém, São Paulo, SP, Brasil), a partir de necessidades pedagógicas, ocasião em que me foi pedido um projeto para expansão de duas salas somente. Nos três anos seguintes mais de trinta salas foram adicionadas, todas com o mesmo lay-out!
A escala de novo! Caminhemos um pouco mais, e alcançamos um núcleo familiar, a habitação de uma família. Complicou, não é? As relações agora são muito mais complexas, impossíveis de decodificação para os nossos leigos olhos. Chegamos ao fim do nosso trajeto: uma família ou um indivíduo devem ser tratados da mesma forma. Neste nível o diagnóstico do psicólogo já é imprescindível, a família ou o indivíduo em questão terá de desejar que a qualidade terapêutica do espaço seja inserida em sua novo espaço ou residência, e colaborar conscientemente durante todo o processo. Aqui também a compreensão do todo será desconhecida do arquiteto, mesmo por questões éticas e, acredite, há coisas que é melhor não saber. Portanto, atuaremos como técnicos buscando alcançar objetivos que não são tão claros para nós. A variedade de técnicas e o repertório agora são do psicólogo, nos resta atendê-lo. Nossa ajuda no diagnóstico pode não passar da companhia para uma visita à atual habitação do cliente, ou uma conversa sobre como espera-se que transcorra o dia a dia no novo espaço...
As residências são o deleite dos psicólogos de terapia familiar, trabalhando a partir de um diagnóstico específico não há o que não se possa fazer, ou o que não se consiga obter: texturas, cores, ângulos e perspectivas, um piso de borracha ou carpete, a visão da banheira desde a cama do casal, uma simples placa de metal que amplifique o som da chuva, ou a lareira posicionada ao lado da TV, qualquer detalhe aqui é matéria prima, por excelência, para nosso intuito. O terapeuta pode pedir-lhe, por exemplo, que diminua a importância de um quadro, que na habitação atual do seu cliente ocupa uma posição de destaque na sala mais imponente acima da lareira. A figura do já falecido sisudo patriarca, sempre a olhar para todos de cima para baixo, desaprovando tudo, retratado inspirando temor, agora visto sempre de cima, pode parecer mais com um garoto emburrado. Por que criar este ou aquele estímulo, já não nos compete discutir. Quando a escala diminui até o aspecto terapêutico, só nos resta realizar.
Aqui a arquitetura se torna terapêutica mesmo e, como qualquer outro tratamento, a posologia e acompanhamento se fazem necessários. A diagnose e orientação do psicólogo, bem como uma preocupação de observação de resultados, são imprescindíveis. O mais aconselhável é procurar um profissional versado em técnicas ativas, que sempre terá ferramentas mais práticas a nos oferecer. A parceria com um profissional assim é proveitosa para todos e permite, a médio prazo, uma comunicação tácita, uma compreensão mútua de objetivos e técnicas que torna cada vez mais fácil o trabalho de ambos.
No desenvolver de nossas atividades profissionais normais, um dos aspectos onde a habilidade pessoal é mais importante em todo o processo, é quando, depois de ouvir sobre os anseios de seu cliente (discurso sempre carregado de muitos pré conceitos e pré soluções), conseguimos captar o que o cliente precisa e deseja, na realidade, traduzindo estas informações para um programa ou projeto. Esta capacidade de traduzir idéias e conceitos é comum entre o arquiteto e o psicólogo. Grosso modo, é também de um processo de tradução que o psicólogo obtém todas as informações para seu trabalho. Toda sua "matéria prima" se origina do discurso de seu cliente, e a interface com o arquiteto, sob este prisma, não tem nada de complicado. Uma tradução dupla, nada mais. Arquitetos e psicólogos tem em comum, entre outras coisas, o caráter científico-humano de suas matérias: ambos são profissionais que lidam com dados técnicos e pesquisas científicas, no entanto, o aspecto humanista é primordial nas duas áreas. Atuar no mundo real através de conceitos e idéias é nosso afazer diário e isso também facilita nossa interação.
Desde que haja profissionalismo e competência, reputo como único pecado da arquitetura a aleatoriedade. Todas as informações científicas para otimizar os estímulos espaciais já estão à disposição do psicólogo ou do arquiteto. Simplesmente manter os olhos abertos para esta questão, dar-lhe a importância devida, dedicando nossa atenção como dedicamos a qualquer outro aspecto do nosso trabalho, é o suficiente para desmistificar, aprender e incorporar estas técnicas na nossa produção.
Referências bibliográficas
Para nós, creio recomendáveis leituras que oferecerão alguma ferramenta, algum repertório, mas só para que a comunicação com o psicólogo se torne mais fluida, é preciso nunca perder de vista as questões éticas envolvidas e a necessidade de recorrer ao profissional correto para decidir nestes aspectos.
Sobre linguagem corporal:
O Corpo Fala – a linguagem silenciosa da comunicação não verbal,
Pierre Weil e Roland Tompakow
Sobre AT - Análise Transacional:
Os Papeis Que Vivemos Na Vida
Claud Steiner
Sobre PNL - Programação Neuro Linguística:
Sapos Em Príncipes
Richard Bandler e John Glinder
Para quem desejar aprofundar seus conhecimentos neste campo, existem disponíveis os autos do primeiro seminário em Psicologia Ambiental e Projeto de Arquitetura e Urbanismo, que realizou-se em Abril de 2000, no Rio de Janeiro, promovido pelo PROARQ, Programa de Pós-Graduação em Arquitetura da FAU/UFRJ.
Endereço para correspondência: [email protected]
PROARQ - Programa de Pós-Graduação em Arquitetura
Faculdade de
Arquitetura e Urbanismo, Prédio da FAU/Reitoria sala 433
Universidade Federal
do Rio de Janeiro
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www.fau.ufrj.br/proarq
Obrigado por sua atenção, estaremos sempre à disposição do leitor para qualquer esclarecimento.
Oscar Müller Kato