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| Título: Cabeça-Cubo Autora: Mariane Cara Veículo: Antologia de Contos Univap Ano: 2003 IMPORTANTE: Este texto é protegido legalmente por direitos autorais. A citação de partes só é permitida para fins acadêmicos, cumprindo a norma ABNT (NBR 10520) relacionada à Referências Bibliográficas. Cabeça-Cubo A notícia chegou rapidamente em todos os canais de comunicação. Sem mais nem menos, alguns cidadãos de Massari começaram a ter uma deformidade alarmante, repentinamente seus cérebros começaram a diminuir e seus crânios, como numa desordem óssea, tornaram-se cubos. Algumas pessoas se espantavam em ver o novo formato das cabeças, outros achavam normal a situação, pois já conheciam amigos que apresentavam os mesmos sintomas. A vigilância sanitária criou um mutirão para descobrir a causa, contratou dezenas de especialistas que não conseguiram desvendar os motivos da inexplicável ocorrência. Parecia um problema sem solução, os casos isolados da doença tornaram-se, em pouco tempo, uma verdadeira epidemia de massa. A cada mês aumentava o número de pessoas com crânios quadrados, forçando a classe médica a estudar, nomear e categorizar os principais indícios da patologia. Era finalmente patenteada a “Cabeça-Cubo”, denominação dada à enfermidade. Passado o tempo, eram pouquíssimos os habitantes de Massari que permaneciam intactos. A Cabeça-Cubo acometia professores, empresários, aposentados, autoridades, donas de casa, operários... Não escolhia credo nem classe social. A população viveu vários dias de apreensão, até que o caso chegou aos ouvidos do Dr. Antimedia, um famoso neurocirurgião que trabalhou por muitos anos na Europa, tratando distúrbios ocorridos em crianças expostas por várias horas aos meios de comunicação de massa, que tornavam-se incapazes de brincar na rua. Prontamente o médico se dispôs a investigar o caso. Após alguns meses de observação e testes, foi descoberto o processo infeccioso causador da Cabeça-Cubo: um vírus popularmente entitulado TV, com nome científico de raiz anglo-saxônica: “Tele Vision”. A doença era mais comum em indivíduos que ficavam expostos às transmissões diárias de conteúdo inútil, sem nenhum tipo de atividade intelectual, que recebiam passivamente os apelos publicitários e as ideologias de consumo. As seqüelas da doença eram profundas, incluindo fatores como: alto grau de desatenção, processo irreversível de aculturação, altas taxas de consumismo e diminuição da capacidade crítica. |
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