Vítima de Pequim 

 O Padre João Useak Chu nasceu em Pequim, capital da China, a 19 de Janeiro de 1925. Conta, portanto,  76 anos de idade. Aos 14 anos veio para Macau, terra livre, cristã e portuguesa. Freqüentou o Colégio D. Bosco, dirigido pelos filhos espirituais deste grande Santo. Tão bem impressionado ficou que quis ser como aqueles religiosos. Entrou na Congregação Salesiana, fez o noviciado e estudou durante oito anos.

Depois de ser ordenado sacerdote, trabalhava apostolicamente na sua cidade natal, dando catequese e desenvolvendo atividade social.

Na perseguição religiosa de Mao Tse Tung foi preso e mandado para um campo de concentração no Norte da China.

Foi julgado e condenado por três “crimes”:

1. “Queriam que eu obedecesse à Igreja Patriótica e não ao Papa. Eu sempre recusei, pois como católico tinha obrigação de ser fiel ao Vaticano, sobretudo ao representante de Cristo”;

2. “Assinar um pedido para que fosse expulso da China o Núncio Apostólico, representante da Santa Sé. Recusei também”.

3. “Discordar do Governo que queria dominar todas as escolas católicas, sujeitando tudo ao Marxismo”.

Durante 14 anos, no campo de concentração esteve sujeito a trabalhos forçados, ocupando-se na agricultura e em acarretar pedras. Os 12 anos seguintes passou-os um pouco mais a Sul, em trabalhos de escravos, quase como anteriormente.

Tanto ele como os colegas trabalhavam de sol a sol, durante duas semanas seguidas, até que por fim tinham um dia de descanso.

No primeiro campo de concentração estavam cerca de 100 pessoas, “todas religiosas, incluindo um Bispo”. Todos dormiram em grandes camaratas. Durante o inverno suportavam temperaturas da ordem dos 30 graus negativos. Como agüentavam o frio?

“Com umas roupas grossas e palha que enfiávamos dentro das botas para não ficarem os pés enregelados”.

A alimentação era escassa: três refeições diárias à base de farinha. Carne “só muito raramente; peixe com mais freqüência; leite, nem pensar”.

Enquanto esteve detido não o espancaram. “Como era religioso e de Pequim , tinham certa consideração pela minha pessoa”. Vários colegas não suportaram a violência do campo e acabaram por morrer.

“Não sei quantos morreram, e era mesmo impossível sabê-lo. Do meu grupo de trabalho faleceu pelo menos um sacerdote. Do Bispo não há qualquer notícia.

As famílias tinham direito a recuperar os cadáveres, mas a maior parte acabou por ser sepultada no campo. E impossível dizer qual foi a época mais dura. A razão é simples: estávamos completa­mente separados do mundo. Não sabíamos o que se passava, nem sequer o resto da China. A preocupação de todos os presos era única: cumprir o que nos mandavam fazer, para não nos matarem. Não se pensava em mais nada”.

Em 1980, depois de 22 anos de tormentos, por motivos de males na coluna, pulmões e coração, o médico autorizou que fosse para Xangai. Ali se instalou em casa de um sobrinho. As escondidas continuou a exercer as suas funções de “missionário - catequista”.

   Passados longos anos conseguiu recentemente obter autorização para se deslocar a Hong Kong, como turista, onde chegou a 10 de Agosto de 1999. Ali foi internado no Hospital de São Paulo, onde passou quase três semanas.

Um dos Bispos auxiliares alcançou-lhe licença para chegar a Macau. Chegou a essa terra, onde tinha vivido durante oito anos, os dias mais felizes da sua vida, a 3 de Setembro passado. Ali viveu tranqüilo até à declaração da independência daquela antiga colônia portuguesa. Espera que o deixem viverem paz e restaurar as suas forças tão combalidas, por cerca de 50 anos de vida de escravo.

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