Os mangues criadores de terra

    Alguns litorais são criados por árvores. Os mangues, espécies arbóreas in­vulgares, crescem em locais onde outras árvores não conseguem sobreviver — no mundo úmido e salgado dos mares tropicais e subtropicais banhados por marés. Ao longo destas costas, os mangues criaram verdadeiras florestas virgens.

Embora na sua maioria as árvores produzam sementes que não germinam imediatamente, mesmo que sejam plantadas, as de uma das várias espécies de mangues, o mangue-vermelho, possuem características excepcionais — germinam enquanto se encontram ainda ligadas ao ramo. Uma raiz irrompe através do fruto e forma uma extremidade aguçada que pode atingir 22 cm de comprimento. Quando a semente finalmente se separa do ramo, cai, implantando-se com freqüência verticalmente no fundo mole e lodoso do mangal.

A semente de um mangue flutua na água (fenômeno que é possível observar numa praia tropical), mesmo durante meses, sem ser afetada pela água salgada, pelo sol abrasador e pela rebentação das ondas, e continuando até a crescer. A extremidade afiada da raiz volta-se para baixo; se a se­mente atingir terra, produz rapidamente raízes que a fixam ao solo. Raízes novas emergem em fiadas que se estendem para fora e para baixo a partir do tronco, for­mando arcos (chamadas raízes de apoio) que se assemelham a cabos de guarda-chuva. Nos locais onde tocam o solo, as raízes de apoio podem originar o desenvolvimento de novos troncos. Os mangues­vermelhos estão tão firmemente enraizados que resistem normalmente a furacões que abatem outras árvores.

Decorridos 20 ou 30 anos, o mangue-vermelho atinge a sua altura máxima, cerca de 9 m. A profusão de raízes de apoio e de troncos de árvore novos forma uma rede entrançada densa que retém sedimentos, plantas e detritos. Em breve está formado um pântano à beira-mar. Gradualmente, à medida que mais mangues germinam, cria-se terra nova. Por esta forma todos os anos a terra avança alguns centímetros pelo mar.

Algumas espécies de mangues, incluindo o mangue-negro, embora desprovidas de raízes de apoio, produzem raízes ascenden­tes a partir do solo encharcado. Estas raízes aéreas, cuja altura pode atingir ou mesmo exceder os 30 m, absorvem oxigênio do ar quando as raízes subterrâneas se encontram cobertas.

O avanço em direção ao mar de um mangal obedece a uma seqüência definida. Nos Keys da Florida, nos E. U. A., onde os mangues formaram vastas áreas de terra e ilhas novas, os mangues-vermelhos, mais novos e de porte menos elevado e de raízes normalmente submersas, exceto durante as marés mais baixas, crescem junto à água. Por detrás destes, banhados apenas pela maré alta, erguem-se os mangues-negros, de porte mais elevado, cuja altura atinge 21 m e cujos ramos grossos e a folhagem escura e densa formam uma cobertura praticamente sólida.

Arvores e outras plantas mais típicas região crescem na zona para além mangues, que nos pântanos se sobrepõe normalmente à outra vegetação. Numerosos animais dependem dos mangues para efeitos de proteção e de sustento. As ostras prendem-se às raízes de apoio, onde cobertas pelas marés altas. À noite, os bancos de ostras são atacados pelos guaxinins. Caranguejos do gênero Uca fazem covas no lodo entre as raízes; estrelas-do-mar movimentam-se lentamente sobre a superfície lodosa. No cimo das copas densas dos mangues, empoleiram-se e nidificam por vezes colônias populosas de pelicanos e garças. E enquanto um mangal, com a vida animal dele dependente, avança lentamente pelo mar dentro, num litoral distante uma única semente pode representar o início da  formação de um outro mangal.  

(Ao encontro da Natureza; Reader's Digest)

 

 

 
Hosted by www.Geocities.ws

1