Jejum
O jejum é uma prática comum na vida da Igreja. É necessário, portanto, conhecermos o que vem a ser, porque e como ele deve ser praticado pelos cristãos.
1.
Na Bíblia, é a abstenção de alimento total ou parcial. Na Lei de Moisés
havia um dia no ano marcado como dia de jejum, o 10º dia do 7º mês, o Dia da
Expiação (Lev. 23,27). A Lei também contemplava os jejuns privados a que cada
um podia se obrigar, por ex. uma esposa só o poderia fazer com a aprovação do
marido (Num 30,14— 16). Jejuns extraordinários eram feitos por ocasião de
calamidade pública e em memória de tristezas ou desgraças particulares (Jz.
20,26; 1 Sam 14,24; 31,13; 2 Sam 12,16; 3 R.s 12,21.27; 2 Par 20,3; Esdr 8,21;
Tob 12,8; Jer 36,9; i Mac 3,47; 2 Mac 13,12; etc.). Depois da volta do exílio
babilônico, os aniversários de certos dias de desgraça nacional passaram a
ser observados com jejuns: o 9º dia do 4º mês, em memória da queda de
Jerusalém (Jer. 52,6); o 10º dia do 5º mês, em memória da destruição da
cidade e do Templo (Jer 52,12); o 10º dia do 10º mês, em memória do começo
do sítio de Jerusalém (Jer 52,4).
O espírito com que se deve jejuar para agradar a Deus é indicado pelos
profetas (Is 58,3ss; Jer 14,12). Sabemos pelos Evangelhos que os fariseus
jejuavam, como o faziam também os discípulos do Batista (Mt 9,14; Mc 2,18; Lc 5,33; 18,12); mas Jesus condenou a hipocrisia do jejum dos fariseus (Mt 6,16). Assim como Moisés jejuou 40 dias antes de receber as tábuas da Lei de Deus (Ex 34,28; Dt 9,9), assim também Cristo jejuou 40 dias antes de começar seu ministério público e de promulgar os aperfeiçoamentos da Nova Lei (Mt 4,2; 5-7). Além disso, Cristo indicou o espírito com que deveriamos jejuar (Mt 6,17—18) e exaltou o valor do jejum quando disse a seus discípulos que a pior classe de espíritos maus só poderia ser expelida pela “oração e jejum” (Mt 17,20). Imitando o exemplo do Mestre, os Apóstolos jejuavam antes de tomar importantes decisões e muito recomendaram a prática do jejum como importante fator da vida cristã. A eleição de S. Paulo e S.Barnabé, inspirada por Deus, foi preparada por um período de jejum; assim também os discípulos jejuaram antes de ordenar os dois missionários (At 13,25). Semelhantemente, S. Paulo e S. Barnabé jejuavam ao escolher os presbíteros para as igrejas que iam fundando (At 14,23). S.Paulo jejuou também muitas vezes e recomendou esse exercício às comunidades cristãs, como disciplina espiritual. Do exemplo e ensinamento de S.Paulo podemos concluir a verdadeira natureza do jejum cristão que não é tanto para torturar a carne mas para que o fiel verifique seu autodomínio e atinja a perfeição mais facilmente (cf. Col 2,16—23; 1 Tim 4,1-5). Como os judeus, os primeiros cristãos jejuavam duas vezes por semana, mas o faziam às quartas e sextas em vez de segundas e quintas. O jejum era completo e contínuo durante o dia, só terminando com a refeição da noite, a que se seguia a celebração da Eucaristia. Estes jejuns rigorosos já. estavam modificados no tempo de Tertuliano (160 - 230). Os cristãos de Roma tinham o costume de jejuar também aos sábados, quer em memória da estadia de Cristo no túmulo no Sábado Santo, quer pelo exemplo de 5. Pedro que jejuou no sábado antes do episódio com Simão Mago, narrado em At 8,14—25 e completado pela tradição.
S.
Agostinho, seguindo o conselho de S. Ambrósio, adotou uma atitude
tolerante para com este costume, permitindo que continuasse nas igrejas em que já
estivesse estabelecido. Este jejum aos sábados foi muito combatido na Igreja
Oriental, em que o sábado era outrora, como ainda hoje, honrado como um dia
santo.
2.
De acordo com a lei atual da Igreja, entende-se principalmente por jejum
a restrição na quantidade de alimento imposta pela Igreja como penitência em
certos dias, chamados dias de jejum. A
mentalidade da Igreja é que todos devem fazer penitência, de acordo com as
palavras de Jesus (Lc 13,5). Para lembrar mais eficazmente aos fiéis,
marca-lhes concretamente esses dias de jejum que, por motivos justos, poderão
ser substituídos por outra penitência. Aliás, esses poucos dias de jejum, de
si, não bastam pois são antes uma penitência simbólica ou um lembrete da
penitência que todos devemos fazer.
A disciplina penitencial regulamentada em 1917, ficou em vigor até l3 de fevereiro de 1966, quando o Papa Paulo IV, pela Constituição Apostólica “Paenitemini” de 17 de fevereiro de 1966 adaptou-a aos novos tempos, segundo as diretrizes traçadas pelo Concílio Vaticano II, e a penitência, como lei divina, atinge os homens de todas as épocas. Se por um lado, a penitência não se reduz apenas a uma atitude interior mas importa também em atos exteriores de ascese física, por outro, não bastam esses atos exteriores, pois o que mais importa é o “espírito de penitência” que o Concílio focalizou com tanta insistência e que é, antes de tudo, uma conversão interior do coração para Deus.
Além do aspecto individual da penitência, pois cada cristão é que deve tomar a sua cruz, participar dos sofrimentos do Cristo e “completarem sua carne aquilo que falta às tribulações do Cristo” (Col. 1,24), há também o aspecto eclesial ou comunitário, pelo qual cada um deverá se unir aos irmãos de penitência. Para isto muito contribui a escolha de um tempo e dias comuns a todos, para que todos se sintam mais facilmente unidos na penitência que farão não apenas ao mesmo tempo, mas também uns pelos outros à imitação do Mestre que deu sua vida pela humanidade inteira.
Para maior flexibilidade, ficaram as conferências episcopais encarregadas das adaptações locais, mas “a fim de que todos os fiéis estejam unidos numa celebração comum da penitência, a Sé Apostólica fixou dias e tempos penitenciais escolhidos entre os que no decurso do ano litúrgico, estejam mais próximos do Mistério Pascal de Cristo ou sejam reclamados por particulares necessidades de comunidade eclesial”.
Tempo
e dias de penitência
O
tempo da Quaresma retém caráter de
penitência. Os dias de penitência
que devem ser observados sob obrigação em toda Igreja são todas as
sextas-feiras do ano, e quarta-feira de Cinzas. Abstinência deve ser observada
cada sexta-feira que não seja dia santo; jejum e abstinência devem ser
observados à quarta-feira de Cinzas e Sexta-feira Santa. Católicos de outros
ritos devem observar as mesmas normas nos dias correspondentes em seus calendários.
Abstinência
A lei da abstinência proíbe o uso de carne, mas não o de laticínios ou temperos feitos de gordura de animal.
Jejum
A
lei do jejum permite uma só refeição completa ao dia, mas tolera algum
alimento pela manhã e à noite, observando-se os costumes locais em relação
à quantidade e qualidade da comida.
A
lei da abstinência obriga a todos desde a idade de 14 anos até 60. A lei do
jejum obriga a todos desde a idade de 21 até 61. Respeito aos de idade menor,
os párocos e os pais devem empenhar-se com particular cuidado para os educar no
verdadeiro espírito de penitência.
Transferência
e comutações
Cabe
às conferências episcopais:
a)
transferir, por justa causa, os dias de penitência, tendo em conta o tempo da
Quaresma; b) substituir, no todo ou em parte, a abstinência e o jejum por
outras formas de penitência, especialmente atos piedosos e obras de caridade.
Párocos
podem dispensar
Por justa causa, segundo as prescrições do bispo, os párocos podem dispensar indivíduos ou famílias, ou comutar o jejum e abstinência por outras obras.
(Dicionário
Prático de cultura católica, bíblica e geral)