O “direito dos animais”
Li numa revista de grande tiragem a respeito dos “direitos dos
animais”. Fiquei pensando no meu querido cão que fica em minha casa enquanto
estou fora. Pensei comigo: se os animais têm direito, será que meu cão tem
direito à liberdade? Seria injusto, portanto que eu o prenda para que não
escape para a rua e assim faça algo que me desagrade? Um prato meu favorito é
frango assado. Será que sou um violador dos direitos à vida dos frangos ao
comer a sua carne? Na minha casa costumo fazer limpeza todas as semanas. Sempre
limpo a paredes e tiro as teias de aranha que podem dar um aspecto de desleixo e
abandono ao meu lar. Estaria eu violando o direito de propriedade das aranhas
que acabam por perder as suas casas?
Onde é que nós estamos? Afinal, os animais têm direitos ou não? Como
é que deve ser o nosso relacionamento com os outros seres vivos? Devemos tratá-los
com desprezo e maltratá-los, uma vez que não tem direito algum? Seria lícito
para nós, “animais racionais”, perseguir uma espécie animal até a sua
extinção? Seria bom para o bem comum da humanidade o desaparecimento de uma
espécie? A nossa história já está cheia de exemplo de destruição
ambiental. Foram inúmeras as espécies extintas pelo homem, seja por caça
indiscriminada, indiretamente através da destruição do habitat, ou pela
introdução de outras exóticas que acabaram por competir com as nativas, o
que as levou à extinção.
Quando Deus criou o homem, Ele ordenou que este dominasse sobre a
natureza. Foi como mandasse um jardineiro cultivar um jardim para que este
florisse e desse frutos. As obras dos homens, quando são bem feitas, e tendem
à elevação da alma, são consideradas “netas de Deus”. Pois se Deus fez
tudo, o homem ao moldar a natureza, segundo um bom espírito, está também
contribuindo para a glória de Deus.
Porém, isto não significa que nós devemos usar de uma espécie, ou de
várias, até a extinção. Somos seres racionais. Em nosso corpo temos nossa
alma, que é capaz de amar e desejar o que é correto. Se agimos sem razão e
destruímos discriminadamente as criaturas de Deus, como está a bondade nossos
corações? Há uma passagem na Bíblia que diz:” Se encontrares no caminho,
sobre uma árvore ou na terra, o ninho de uma ave, e a mãe posta sobre os
filhotes ou sobre os ovos, não a apanharás com os filhotes. Deixarás partir a
mãe e só tomarás os filhotes, para que se prolonguem os teus dias felizes.”
(Deut. 22,6)
Portanto, não é que os animais tenham direito. Nós é que devemos ter
o bom senso e agir de acordo como Deus manda. Usar das criaturas sim. Mas com
respeito e lembrando sempre que nós prestaremos conta do uso delas. Extinguir
uma espécie pode significar uma glória a menos a Deus.
São
Tomás de Aquino nos explica de modo esplêndido, o valor da diversidade das espécies
no Universo: “Nos seres naturais vemos que as espécies são gradativamente
ordenadas: assim, os compostos são mais perfeitos do que os elementos, as
plantas do que os minerais, os animais do que as plantas e os homens do que os
outros animais; e em cada uma dessas classes encontram-se espécies mais
perfeitas do que as outras. Sendo, pois, a Divina Sabedoria a causa da distinção
das coisas para a perfeição do Universo, também será causa da sua
desigualdade. Pois não seria perfeito o Universo se nas coisas só se
encontrasse um grau de bondade’
De fato, não seria condizente com a perfeição de Deus criar um só ser.
Pois nenhum ser criado, por excelente que se o imagine, teria condições de,
por si só, refletir adequadamente as infinitas perfeições de Deus.
Assim, as criaturas são necessariamente múltiplas. E não apenas múltiplas,
mas também necessariamente desiguais. E esta a doutrina do Santo Doutor:
“Haver muitos bens finitos é melhor do que haver um só, pois eles
teriam o que tem este, e ainda mais. Ora, é finita a bondade de qualquer
criatura, pois é deficitária da infinita bondade de Deus. Logo é mais
perfeito o Universo havendo muitas criaturas, do que se houvesse um único grau
delas. Ao sumo Bem toca fazer o que é melhor. Logo, era-Lhe conveniente fazer
muitos graus de criaturas.
“Além disso, a bondade da espécie excede a do indivíduo, como formal
excede o material; logo, mais acrescenta à bondade do Universo a multiplicidade
das espécies, do que a dos indivíduos de uma mesma espécie. Por isso, para a
perfeição do Universo contribui não só haver muitos indivíduos, mas haver
diferentes espécies e, por conseguinte. diferentes graus de coisas.
As desigualdades não são, pois, defeitos da Criação. São qualidades
excelentes dela, nas quais se espelha a infinita e adorável perfeição do seu
Autor. E Deus compraz-se contemplando-as: “A diversidade e a desigualdade das
criaturas não procede do acaso, nem da diversidade da matéria, nem da intervenção
de algumas causas ou méritos, mas procede da própria intenção de Deus, que
quis dar à criatura a perfeição que lhe era possível ter. Daí dizer-se no Gênesis:
‘Viu Deus tudo o que tinha feito, e era excelente’ (Gen. 1, 31)”.
E então, o homem é o “rei da criação”? Claro que é! Mas assim
como um bom rei deve ser o “pai de todos os súditos”, assim devemos ser com
as outras criaturas. Sermos bons para elas. Sabermos respeitá-las e amá-las,
como Deus as ama. Afinal, Deus ama a todos e a tudo.