O universo e o tempo, do início ao fim

Guilherme Bittencourt


Os títulos dos dois livros de divulgação científica do físico carioca
Marcelo Gleiser
, professor em Dartmouth College (EUA) e articulista da Folha de São Paulo, colocados lado a lado – A Dança do Universo, dos Mitos de Criação ao Big-Bang (Companhia das Letras, 1997) e O Fim da Terra e do Céu, o Apocalipse na Ciência e na Religião (Companhia das Letras, 2001) – deixam clara uma semelhança entre as obras que é também uma originalidade: ambos tratam de física, mas têm a religião e os mitos como uma de suas preocupações centrais, fato bastante raro em livros sobre física. Os títulos Marcelo Gleiser - Divulgaçãomostram ainda a complementaridade dos livros: um trata do início e o outro do fim, mais especificamente como o início e fim do mundo e do universo foram entendidos ao longo da história, primeiramente do ponto de vista religioso e mais tarde do ponto de vista científico.

Para contar sobre o início, em A Dança do Universo, Gleiser começa com os mitos cosmogônicos das civilizações oriental e ocidental, desenhando inclusive uma espécie de classificação de mitos, em que cada tipo de mito de criação é curiosamente semelhante a uma possibilidade de teoria científica que explique o universo. Somos levados ainda a conhecer quais idéias sobre a origem do mundo eram aceitas na Idade Média, no Iluminismo e finalmente nos tempos modernos. O interessante é que para contar sobre as idéias, o autor escolheu falar sobre os cientistas que as criaram na condição de pessoas: "Não só explicarei as idéias desses vários indivíduos, mas também explorarei suas motivações, sucessos e lutas travadas no desenrolar desse longo drama." Este lado pessoal termina por incluir detalhes ligados à vida do próprio autor, relacionados a uma certa foto autografada de Albert Einstein que lhe foi presenteada, aos 13 anos, pela mãe de sua madrasta. O livro inclui, além de seus dez capítulos divididos em cinco partes, um glossário, notas, bibliografia e índice.

O segundo livro, O Fim da Terra e do Céu, trata do fim. Já pelo tema, este leva vantagem: o início, seja lá como for que aconteceu, é certo que ocorreu há muito tempo, já o fim ainda não chegou e para torná-lo ainda mais misterioso e interessante, ele pode estar próximo. As histórias sobre os diversos anúncios não confirmados do fim do mundo, em geral ligados a aparições de cometas ou a datas específicas citadas em textos religiosos ou proféticos, e sobre as ameaças reais que podem, por exemplo, destruir a terra ou grande parte dela a qualquer momento, são certamente mais emocionantes do que a discussão sobre quão literal deve ser considerada a narrativa do Gênesis. Uma pequena parte da descrição da queda de um meteoro de 10 km de diâmetro que dizimou os dinossauros há 65 milhões de anos dá uma idéia do tipo de emoção envolvida: "o impacto foi tão violento que uma coluna de água e rochas elevou-se até a metade da distância entre a Terra e a Lua, despencando com uma fúria terrível que devastou uma área de milhares de quilômetros quadrados." O livro tem oito capítulos divididos em quatro partes e inclui notas, bibliografia e índice. Algumas seções do capítulo quatro, chamado Impacto!, têm seus títulos, de gosto um tanto duvidoso, inspirados em nomes de filmes: Apocalipse agora?, Caça aos assassinos celestes, Guerreando nas estrelas. Recurso que não acrescenta muito ao livro. Já o encarte de imagens de alta qualidade em cores (38 ao todo) acrescenta bastante: as imagens incluem de Abracurcix, o chefe de Asterix, que só teme que o céu lhe caia sobre a cabeça, até as fotos do satélite Cobe, passando por pinturas de diversas épocas, mapas e esquemas explicativos.

Reprodução

Supõe-se que um livro sobre o apocalipse não é publicado no primeiro ano de um novo milênio por mera coincidência, mas a própria existência do primeiro livro, seu complementar publicado em 1997, aponta antes para um projeto de longo prazo, do que para uma tentativa oportunista de aproveitar o momento. No entanto, os recentes atentados de 11 de setembro tornaram-no desagradavelmente atual, ao lembrar-nos a fragilidade do equilíbrio social (e psíquico) diante de guerras e catástrofes. Um trecho do livro chega a assustar: "(...) Vamos elaborar essa imagem utilizando um exemplo mais concreto. Imagine que você esteja em Nova York, se deleitando com a vista do topo das torres gêmeas do World Trade Center. Após muitas fotografias você entra no elevador com dezenas de outros turistas, de armênios a zambianos. (...) De repente, você ouve uma explosão: os cabos do elevador foram cortados por terroristas." É apenas uma explicação a respeito da equivalência entre um campo gravitacional e a força exercida por uma cabine acelerada, mas esta cabine em particular não está mais lá...

Para além da originalidade de levantar questões religiosas lado a lado com questões científicas e procurar nas vidas pessoais do grandes cientistas respostas e inspirações, os livros têm ainda uma grande qualidade: são ótimos livros de divulgação científica, mais especificamente da física, mas também da geologia, biologia, química etc. O autor tem um talento especial para criar metáforas e experimentos mentais que nos permitem entender os complexos conceitos que fundamentam essas ciências. Em particular, a relatividade e a mecânica quântica recebem descrições que apesar de simples captam a natureza dos fenômenos envolvidos. A esse talento alia-se um sincero entusiasmo a respeito da ciência e seu papel no desenvolvimento da humanidade.

Guilherme Bittencourt é professor e pesquisador na área de inteligência artificial.

 

 

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