Crônicas de Den, o velho bardo místico!

A primeira viagem

Parte III - A procura pelos elfos (início)


-Estamos atrasados!!!
Foi a primeira coisa que ouvi na manhã em que partimos da casa de Estur. Quando acordei estavam todos prontos, arrumando as coisas na carruagem, e quem me acordou foi Fiarn, não estava muito bravo, pois ele sempre era muito calmo, e mesmo assim não estávamos mais atrasados do que combinamos estar.
Mas, já que não queria atrapalhar, fui até a cozinha peguei um pedaço de bolo e logo entrei na carruagem, lá já estava Kiensai o clérigo, fazendo alguma oração, Ifelios e Airok estavam arrumando tudo lá dentro, e Fiarn estava ajudando Estur com os cavalos.

Não demoramos muito e partimos. Preferimos pegar a estrada, pois as criaturas poderiam estar em qualquer lugar, e era muito fácil se perder naquela região pra quem segue fora da estrada. A viagem foi tranqüila durante os três primeiros dias, nosso plano era seguir a estrada, mas não passar por Sihn, e ir direto para Clannorian, para assim conseguir fazer o percurso em quinze dias.
- Se pararmos em Sihn, com certeza nos irão interrogar na entrada da cidade e perderemos muito tempo! - exclamou Airok.
- Bom, mas assim é melhor que pediremos ajuda! - retrucou Fiarn.
- Ajuda? Para que? - indagou Ifelius, o elfo azul. - Não precisamos de um exército para descobrir a relação entre essas criaturas, os fatos estranhos no Deserto, na Terra do Sol, e a Espada de Kitario. Precisamos apenas de um elfo de Clannorian. E há um lugar melhor para ir se não direto à Clannorian?
- Ifelius está certo! - interrompeu Kiensai, clérigo de Shinkarí - Perderíamos muito tempo explicando tudo para o regente de Sihn, isso sem contar o tempo que demoraríamos para conseguir falar com ele e passar pelos seus portões. Perda de tempo! Está decidido, vamos contornar Sihn.
E assim ficou decidido, sem nem perguntarem a minha opinião, que não seria de nenhuma valia.

E foi na tarde do terceiro dia, quando vimos ao longe o Palácio Real de Sihn, que demos uma primeira parada para acampar. Antes, todos revezavam a direção trocando o condutor cada vez que um sentia sono ou fome, desta forma não paramos de correr durante dois dias seguidos.
- Então se vamos contornar Sihn, é melhor sairmos da estrada agora. - disse Fiarn, o condutor no momento, colocando a cabeça para dentro da carruagem, porém todos estavam dormindo, menos Airok, e eu que tinha acordado naquele momento.
Com isso Fiarn virou a carruagem e saiu da estrada, e ele tinha a cidade de Sihn como referencia para fazer seu contorno e voltar para estrada já na direção de Clannorian. Passando-se alguns minutos fora da estrada, Airok levantou assustado e falou com Fiarn:
-Não está sentindo... O cheiro da morte de novo!?!?!!?
-Nunca poderia esquecer o cheiro desses miseráveis, acorde todos - respondeu Fiarn pegando sua espada.
Com isso Airok voltou-se para dentro da carruagem, mas não teve tempo de acordar ninguém antes de dar o seu grito de terror quando uma daquelas criaturas o agarrou por trás e o puxou para o chão com apenas uma mordida. Todos acordaram e saíram com suas armas, viram Airok se debatendo com a criatura nas suas costas, e Fiarn lutando com mais quatro delas, numa maestria de ataque e defesa simultâneos com a espada. Ifelios, sem pensar duas vezes, pegou seu arco, e pulou atirando uma flecha certeira ainda no ar na cabeça da criatura que segurava Airok - e nesse momento ele realmente pensou que ia morrer - ao chegar ao chão Ifelius já pegou outra flecha e atirou contra uma das criaturas que estava lutando com Fiarn, Kiensai logo pegou sua espada e escudo e partiu para o lado de Fiarn.

Apenas eu permaneci na carruagem e me virei para procurar alguma coisa pra bater na criaturas, quando o fiz duas outras criaturas apareceram de lugar algum para dentro da carruagem, eles pareciam saber que eu estava com medo, e me cheiraram enquanto eu estava imóvel, e como que falassem "carne fresquinha essa não?" tocaram-me com aqueles dedos podres e bocas fedorentas, e eu não conseguia fazer nada. Nesse momento eu olhei de relance para fora, e vi Kiensai olhando para mim enquanto a luta prosseguia lá fora, ele parecia falar alguma coisa dentro de mim, mesmo que eu não entendesse o que era, aquilo me dava uma coragem estranha, foi quando eu peguei uma das sacolas mais pesadas e acertei com um bom golpe uma das criaturas, esta caiu e ficou presa à sacola por alguns segundos, suficiente para eu acertar com um soco a outra que estava a olhar seu companheiro caído no chão, um soco tão forte que nem eu tinha acreditado. Aproveitei para fugir e peguei a espada de Ifelius que ele deixará do lado de fora da carruagem - pois agora ele usava seu arco mesmo na luta corpo-a-corpo - peguei-a mesmo sem saber ao certo o que fazer e ataquei uma das criaturas enquanto a outra pulava sobre meu pescoço, não consegui acertá-la, mas joguei a que estava sobre mim para longe com tanta força que ela demorou a levantar, mas quando voltei a olhar para a outra, esta já estava segurando minha mão com a espada e sua boca estava quase na minha cabeça, o sangue dele cobriu todo meu rosto, pois mais uma flecha e Ifelius acertou sua cabeça antes que a criatura comesse a minha. Airok matou a criatura que eu tinha arremessado longe.

Continuamos a viagem, depois de arrumarmos tudo, o resto do pessoal tinha matado muitas outras criaturas que apareceram depois, Ifelius cuidava do ferimento de Airok nas costas, enquanto Kiensai sentava do meu lado e eu não pude deixar de perguntar:
-O que foi aquilo?
-Aquilo o que? - respondeu Kiensai - mesmo sabendo do que se tratava.
-Aquelas palavras que você me disse, eu não entendi o que era, mas eu as ouvi claramente. E aquilo de alguma forma me deu mais força e... coragem...
-Pois foi exatamente isso - respondeu Kiensai - Foi só uma palavra de apoio.
-Não, pois eu não as entendia. É magia não é, aquilo que todos contam, mas que poucos viram e fizeram, você lançou um feitiço em mim não foi?
Kiensai riu e disse:
-Não exatamente, foi só uma prece a Shikarí, para lhe fazer florescer sua força e coragem, mas elas sempre estiveram em você, eu só fiz acordá-las. Magia é uma coisa que poucos tem hoje e dia, infelizmente.
-Eu diria felizmente!!! - interrompeu de repente Ifelius - Hoje a magia foi muito difundida, e muito mal usada. Tenho saudades no tempo que apenas os elfos azuis no Norte conheciam a magia.
-Isso quer dizer que você solta magias? - Perguntei a ele - Você sabe usá-las? Mostre-me uma por favor!!
-Sim eu sei - Respondeu Ifelius - Mas não poderei mostrar agora para você, "Nunca use seu poder arcano em vão, só em extrema necessidade!!" é uma das regras que aprendemos quando ainda somos novos no mundo, e foi por causa de alguns elfos azuis que desobedeceram essas ordens que todos sabem o que é , e todos querem aprender a arte mágica.
Na verdade aquilo já me satisfez, aprender regras dos elfos azuis, sobre como usar (ou não usar) suas magias, aquilo foi uma experiência incrível para mim, que nunca esqueci.

Com o cair da noite, todos estavam exaustos do combate e eu tive que conduzir a carruagem. Só tinha-o feito uma vez durante a viagem, mas, como conduzia muito mal - saindo da estrada várias vezes e fazendo os animais empacarem a todo tempo - me tiraram as rédeas uma hora depois da primeira tentativa. Mas agora todos precisavam descansar, e eu tinha que ser útil para alguma coisa.

- Não esqueça, sempre que sentir que está se afastando do Norte, volte os cavalos para a direção das luzes de Sihn. - aconselhou-me Fiarn.

Durante a noite pensei várias coisas para tentar esquecer a batalha de hoje à tarde, principalmente na magia dos elfos azuis, e percebi que minha cidade era tão estranha, para não dizer palavra pior, que mesmo a magia tendo se difundido, como Ifelius falou, eu nunca tinha visto uma magia sequer. Tentei criar alguns versos sobre o mistério da magia dos elfos azuis, mas nada de bom saía naquela noite.

Na manha seguinte, tínhamos avançado um bocado, mais do que o esperado, e fizemos a segunda parada logo ao amanhecer.
- Conduziu bem esta noite Den. - elogiou espreguiçando-se Airok. Foi uma das poucas palavras gentis que ele havia referido à minha pessoa durante a viagem até aquele momento.
- Obrigado senhor, e o seu ferimento, está melhor?
- Um pouco, Ifelius deu um jeito, mas não conseguirei lutar bem com todas essas ataduras.
- Então reze para que não precisemos lutar durante um longo tempo, isso não cicatrizará até o dia em que chegarmos à floresta presumo eu.
Nos permitimos fazer um belo desjejum naquela manhã, e tive o trabalho de arrumar tudo depois, queria ter alguma serventia, já que era o único que não sabia lutar e senti isso na pele na última tarde, se não fosse Kiensai não sei do que seria de mim.
Estava a carregar as pequenas panelas, copos e talheres que usamos quando fui importunado pelo meu melhor amigo na viagem:
- Calma Den, não precisa fazer tudo e tão depressa, descansaremos um pouco antes de partir ainda. - Disse Fiarn ajudando-me a carregar a chaleira e os copos que só eu me preocupei em trazer.
- É não precisa me ajudar Fiarn, descanse, precisaremos de você se essas criaturas vierem novamente. Ou melhor, só eu precisarei, acho que todos aqui sabem se virar sozinhos...
- Está tentando ser útil em alguma coisa arrumando tudo sozinho? Só por que não sabe lutar? - indagou Fiarn enquanto Ifelius e Airok discutiam qual seria a melhor maneira de se entrar em Clannorian e Kiensai parecia dormir sentado.
- Sim, é claro! - respondi colocando os talheres dentro de minha pequena sacola dentro da carruagem. - Você não viu na última luta? Eu quase morri. Acho que seria melhor se tivesse seguido o conselho de Airok e não ter vindo atrapalhar vocês.
- Ora, não ouviu o que Kiensai falou naquele dia? Está mais seguro aqui do que na sua pequena cidade, reze para que Estur esteja bem. Além disso, não lembra o que EU disse?
- "Que eu serei a única pessoa que vai contar os seus feitos", tudo bem Fiarn, obrigado por tentar me consolar, ficarei bem, não se preocupe.
- É, mas tem outra coisa. Você diz "Eu quase morri". Mas você não morreu. E apesar de você pensar que Kiensai te salvou, não foi ele e sim você que lutou contra aquelas criaturas, mesmo que tenha usado uma sacola como arma! Aquilo não era magia Den, ele apenas fez despertar uma coisa que já existe dentro de você.
Aquilo parecia um grande jargão para eu não desanimar, mesmo assim ele falava com uma certa segurança estranha, como quem sabe de alguma coisa que eu não sei.
- Você acha mesmo? Sabe, me perguntei esta noite por que você quis que eu viesse. Por que não me impediu, está claro que isto tudo aqui é muito perigoso, eu garanto que Estur está bem. Seria melhor se tivesse ficado lá, sim. Não que eu esteja reclamando, o que estou vivendo agora é tudo que eu sempre sonhei durante toda minha infância, mas me sinto desconfortável e um peso morto, você consegue entender?
- Sim, é claro. Realmente, aquela história de estar em maior segurança aqui é uma tolice. Foi um erro tentar enganá-lo desta maneira, na verdade foi ridículo. - ele entrou na carruagem e sentou-se lá no fundo me chamando para sentar ao seu lado. - Eu não sou um sábio como Ifelius e o clérigo Kiensai, mas eu senti algo no momento em que vi você naquela estação de uma cidade longínqua do mundo, algo me fez lembrar uma das velhas lições, que nós, guerreiros do Deserto, aprendemos na nossa formação, são velhas lições dadas pelo nosso Deus Shinkarí, e que não só os clérigos aprendem mas todos os homens que defendem o bem. Essa lição diz que Shinkarí muda o destino dos seus filhos - nós, Homens do Deserto - através das outras pessoas, e essas pessoas mudam o seu destino através dos filhos de Shinkarí, e são mudanças como estas que dão os marcos na história da nossa Lendell. Pois, o destino de cada um está entrelaçado com o rumo da história, e esta não é escrita por apenas um deus, mas depende de todos eles, e dos seus filhos. Eu tenho certeza que você foi uma pessoa colocada no meu caminho que mudará o meu destino, e com toda essa coisa acontecendo à nossa volta, mudará também o destino de Lendell. Pois todas as grandes pessoa da nossa história eram pequenas, e de lugares pequenos, e com vidas pequenas como você. Eu não sou um profeta, Den - disse ele com um sorriso para tirar a tensão - mas alguma coisa me diz que você será de grande ajuda para todos nós. Kiensai diria algum ditado neste momento, e diria que nós, Homens do Deserto, temos esta sensibilidade, e que ela geralmente não falha. Mas não esquente com isso. Agora, descanse.

Continua... Voltar



Hosted by www.Geocities.ws

1