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O Cerco
"Cerco - 1. ato ou efeito de cercar; 2. assédio militar,
sítio" - Gran Dicionario y Compendium de Valkar, segundo
a última atualização do Centro de Estudos
Lingüísticos da Sacra Ordem de Tanna-Toh, a Mãe
da Palavra
O mundo de Arton é riquíssimo
no que se pode dizer a respeito de raças. Seres das mais
variadas formas andam, voam rastejam sobre (e também abaixo)
da terra. A vida floresce e adquire diversas formas, muitas vezes
inusitadas. Não apenas animais, mas também monstros
e raças inteligentes, que chegam a formar nações
majestosas ao longo de grandes áreas territoriais. E entre
estas raças, talvez não exista uma tão odiada
pela humanidade quanto os kobolds...
...
"Muito bem, então temos
um acordo!", bradou o nobre humano, Lord Galvanor, deixando
que pequenas gotículas de saliva saltasse de sua boca. "Vocês
fazem o cerco contra aqueles malditos seres e, comprovada a destruição
de todos, será entregue a outra metade da recompensa."
Lord Galvanor de Ghorandor, uma vila relativamente grande de Nova
Ghondriann, balançava sua longa trança enquanto falava
com o grupo de aventureiros que contratara.
"Mas, me diga, senhor, eles chegaram a atacar alguém
diretamente?" questionou Celeborod, um jovem elfo que trajava
um longo robe.
"Bom, han, bem...", murmurou, meio sem jeito, o nobre,
"nunca matou ninguém, mas sempre nos rouba parte da
colheita, além de várias cabras e ovelhas, e são
um grande estorvo, dão-me nos nervos aqueles cachorros desgraçados!",
gritou, erguendo seu dedo.
"Hã, senhor, kobolds são, tecnicamente, répteis.
Possuem escamas e reproduzem-se através de ovos, apesar de
sua língua se assemelhar a latidos." disse o mago elfo,
"Acredita-se que possuem um certo parentesco com dragõ..."
"Sim, sim! Que seja!" interrompeu o nobre, "Mas diga
logo, aceitam ou não???"
"Claro. O combinado.", adiantou-se o guerreiro Angadolion,
líder do grupo, exibindo a típica ganância humana,
"kobolds não são grandes adversários,
conseguimos destruir a tribo em questão dentro de poucos
dias."
"Mas quero TODOS mortos, ouviu?", berrou novamente Lord
Galvanor, demonstrando novamente sua falta de etiqueta, "que
não reste nem uma fêmea ou filhote vivo, nem ovo algum."
O coração do sacerdote anão de Khalmyr, Naugotil,
que acompanhava o grupo começou a pesar neste momento...
...
Os aventureiros consistiam em um
guerreiro humano, Angadolion, um mago elfo, Celeborod, um sacerdote
anão, Naugotil, e um pequenino halfling ranger, conhecido
como Drogo Peligero. Estavam de passagem pela vila, rumando à
capital, para se alistarem no exército que seria enviado
à Trebuck como auxílio na investida contra a Tormenta.
Estavam precisando de dinheiro para renovar seu arsenal, e quinhentos
Tibares de ouro para cada um era uma oferta difícil de se
resistir, uma oferta estranhamente alta para uma missão simples
como derrotar um grupo de kobolds.
Não lhes fora dado informação alguma sobre
a localização do covil da tribo em questão,
teriam que descobrir sozinhos. Rumaram, então, para o depósito
de grãos da fazenda principal do vilarejo, alvo constante
dos "ataques" dos "terríveis" kobolds.
"Estou preocupado, amigo." desabafou o Naugotil para Celeborod,
"me parece que nossos alvos jamais feriram alguém da
cidade. Creio que seja um pouco exagerado o cerco a que fomos designados
a realizar."
"Não sei..." respondeu o elfo, "mas nossas
finanças estão em baixa. Além do mais, kobolds
são malignos, não importando se feriram inocentes
ou não."
Os olhos atentos do pequenino Drogo logo encontraram um rastro reptiliano.
"Como não pensei nisso antes!" pensou consigo mesmo,
"as colinas!".
Rumaram os quatro para as colinas. Eram montes muito baixos, sem
qualquer habitação humana, de relva baixa em sua maior
extensão e pequenas florestas em pontos isolados. Daria um
bom trabalho ao halfling e seus companheiros encontrar a entrada,
mas era fazia parte do trabalho que tinham que realizar.
...
Krutulmak estava caminhando pela
floresta apanhando frutas silvestres para sua família quando
avistou, na base da colina em que se encontrava, um grupo formado
pelo "povo grande". Ficou muito agitado, o que eles poderiam
querer por ali? Correu até a sua cidade para avisar seu pai.
Encontrou-o na entrada, dizendo: "Ó pai, grande Kloak,
membros da povo grande ruma para cá! Carregam objetos longos
de metal, e um deles tem até uma daquelas ferramentas com
que cortamos madeira, só que muito maior! O que eles querem?!"
Kloak, que trajava longas vestes de pele mal curtida, semicerrou
os olhos na direção de onde o filho viera, concentrando-se.
"Filho," disse, finalmente, "utilize seu Dom e verá
o que os traz até aqui."
O jovem Krutulmak faz o mesmo que o pai e, adivinhando os propósitos
dos invasores, grita: "Não! Por que vêem para
cá perturbar nossa paz? O ouro fez com que se voltem contra
nós. Será que os grãos que pegamos os ofendeu?".
O kobold não contem uma lágrima que escorre pelo seu
rosto reptiliano.
"Vamos avisar os irmãos." diz, finalmente, Kloak,
"tentaremos fazer alguma coisa para nos proteger."
Enquanto adentravam pelo buraco na rocha que servia de portal para
sua cidade, Kloak lembrou-se do tempo em que atacava humanos, até
o dia em que aprendeu a controlar os dons que a Mãe Dragoa*
concedeu a ele. De alguma forma, podia realizar feitos semelhantes
aos magos que várias vezes enfrentou e, encarando isso como
um sinal, resolveu organizar uma tribo pacífica nas colinas.
O grupo crescera muito nos últimos anos, membros remanescentes
de outras tribos que foram arrasadas e cansaram-se de levar uma
vida vil e desprezível. Com alguns grãos e gado roubados
de fazendas da região, conseguiram montar um rebanho razoável
para sua subsistência, além do cultivo de vegetais
em clareiras da floresta que rodeia a entrada para a rede de câmaras
subterrâneas em que consiste sua "cidade" e a mineração
da pequena reserva de ouro existente sob a colina, um metal que
os kobolds julgam ser muito belo.
Chegaram à câmara principal, onde costuma ser servida
a comida aos membros da tribo. Pediu às fêmeas que
chamassem os homens que estivessem fora da caverna e aos outros
que haveria uma reunião à noite, urgente.
"Estamos no meio de um cerco.", disse, pesaroso, Kloak,
ao ser questionado por uma fêmea sobre o motivo da reunião.
...
O crepúsculo tomara conta
do céu. Azgher terminava seu turno dando lugar a Tenebra.
O grupo de aventureiros decidiu parar a busca pelos kobolds para
descansar. O halfling conseguira seguir os rastros até a
metade da altitude da colina, onde pararam. Chegou a encontrar uma
clareira estranha: havia uma horta, com couve, alface e outros vegetais,
além de um pouco de milho. "Como estas plantas vieram
parar aqui?", pensou consigo mesmo, "só pode ter
sido através das mãos de algum ser inteligente, não
haveria outra razão...".
"Melhor dormirmos agora, pessoal." disse Angadolion, com
um tom de liderança em sua voz, "vamos nos revezar em
turnos de vigia durante o sono, não sabemos se os kobolds
mudarão de idéia quanto a atacar humanos..."
Continua...
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