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O Cerco (continuação)
Ao cair da noite, Kloak tinha todos
à sua frente para ouvir o que tinha a dizer. Estavam deveras
alvoroçados com a reunião, que o que não ocorria
há semanas, desde quando decidiram enviar um grupo de espionagem
para aprender como os humanos cultivam maçãs. Cerca
de sessenta kobolds, contabilizando fêmeas e excluindo-se
os filhotes, estavam reunidos na grande câmara.
"Irmãos!", começou, "estou aqui para
dizer que estamos no centro de um cerco. Meu Dom me informou que
os membros do povo grande que está atrás de nós
desejam muito ouro. Acredito que devemos dar todas as nossas antigas
jóias e o ouro que obtivemos durante este tempo em nossa
mina. Talvez estejamos recebendo um castigo dos deuses, que exigem
um tributo do que possuímos deste metal.", ao citar
os deuses, todos os presentes ficam ainda mais agitados, "então
peço que reunamos tudo o que temos para ofertar a eles em
nome da manutenção da paz."
Todos aceitaram prontamente a proposta do líder. Kloak, assim
como seu filho, demonstrava uma grande sabedoria e inteligência,
presentes da Mãe Dragoa, ao longo deste tempo em que os guiou.
Como bons mineradores que são, os kobolds sabiam que a reserva
aurífera do monte ainda perduraria por muitos longos anos
e, apesar da ganância natural aos membros de sua raça,
aprenderam com sua ajuda que antes de tudo a sobrevivência
e as boas relações com os outros povos são
mais importantes. O líder sempre desaprovou roubos desnecessários
e proibiu atos de violência contra os humanos ou qualquer
outra raça. Em várias ocasiões chegou a ordenar
que alguns de seu homens deixassem ovelhas e cabras recém
nascidas de seu rebanho dentro do território humano, em sinal
de agradecimento pelo que foi "emprestado". Tais presentes
eram encarados como sendo provenientes dos deuses, devido a ignorância
com relação às reais intenções
dos kobolds.
Decidiram, então, que no dia seguinte enviariam uma comissão
diplomática com todo o ouro que possuíam aos membros
do povo grande.
...
À hora em que Azgher exibiu
novamente sua face em Arton, os aventureiros levantaram-se para
continuar sua exploração. O halfling Drogo decidira
que seguiriam pequenos rastros que encontrara ao norte da clareira
em que viu a pequena plantação misteriosa. Todos os
seus companheiros julgaram o local muito estranho para aquela região,
principalmente após encontrarem um objeto semelhante a uma
pequenina enxada largada.
"Quem teria feito isso?", murmurou o sacerdote anão,
"que mãos teriam plantado tudo isso neste local?".
"Também estou intrigado, caro Naugotil.", respondeu
o pequeno ranger halfling, "pensei que apenas kobolds viviam
por aqui, mas jamais ouvi falar de membros desta raça que
cultiva seu próprio alimento."
"Kobolds agricultores?", disse, com sarcasmo, Angadolion,
"Bela piada!!! Kobolds NÃO plantam nada, em lugar nenhum.
Aqueles seres foram criados apenas para servir de estorvo para humanos
e comida para minha espada!"
"Hã, bem, não há nada que prove a inaptidão
dos kobolds para atividades agrícolas.", colocou o mago
elfo, "eles podem ser tão inteligentes quanto seres
humanos, o que não impede que cultivem seu alimento. É
verdade que a maioria deles são seres repugnantes e malignos,
mas sempre há uma exceção para qualquer regra."
"Não me encha com essa baboseira de mago.", retrucou
o guerreiro, "ouro nos trouxe aqui, não importando se
os kobolds usam enxada ou não, são bons ou maus."
Ao dizer isso, foi interrompido por um barulho próximo. Subitamente,
um grupo de seis kobolds carregando pepitas de ouro surgiu do meio
do mato. O maior e mais velho deles se adiantou, começando
a emitir latidos e ganidos em sua língua. O mago elfo, versado
na língua antiga dos dragões, conseguira compreender
algumas coisas que o pequeno humanóide dizia.
"Viemos em paz trazer estas oferendas em ouro para os arautos
dos deuses. Peço que aceitem em sinal de nossa amizade."
Porém, antes que o elfo pudesse fazer ou dizer qualquer coisa,
Angadolion sacou sua espada longa e dividiu o kobold em duas metades,
em seguida atacando o seguinte. Sem que algum outro, aliado ou kobold,
pudesse reagir, em poucos segundos dizimara o pequeno grupo. Rindo-se,
o humano pegou todo o ouro dos kobolds e colocou em sua bolsa.
"Por que atacara?", questionou, muito bravo, o elfo, "se
nem compreendera o que ele disse?"
"Já estou cheio destes cachorros!", berrou o guerreiro,
"não importa o que dizem. E veja se você e o anão
atacam também na próxima vez. Agora vamos para o covil
deles, quero acabar com isso logo."
Assustados com a atitude do líder, o restante do grupo seguiu-o,
procurando a entrada para as câmaras dos kobolds.
...
No exato momento em que Kloak fora
morto, Krutulmak sentiu que algo de errado ocorrera. O Dom lhe disse
que não estavam livres do cerco e que algo muito ruim aconteceu
ao seu pai. Preocupado, procurou os machos da tribo, dizendo:
"Armem-se com pedras e ferramentas. O Dom me disse que algo
aconteceu ao meu pai. Devemos resistir ao cerco do povo grande antes
que seja tarde para todos nós. Posicionem-se: somos fracos,
mas uma emboscada é nossa única chance contra eles!"
Todos correram para armar-se. As fêmeas se esconderam em uma
câmara com os filhotes e ovos, além de alguns pergaminhos
outrora pertencentes a Kloak com poderes mágicos que Krutulmak
aprendera a usar em caso de emergência.
"Acalmem-se, por favor. Acho que meu pai não voltará,
mas o Dom há de nos proteger. Cuidarei de vocês todos."
Abraçou-as, rumando depois para um esconderijo próximo
à entrada da caverna. Chegava a hora em que precisaria usar
todas as habilidades que possuía e desenvolvera com seu pai.
Os aventureiros se aproximaram da
entrada subterrânea. Todos os machos da tribo aguardavam,
ansiosos, esperando que a afirmação de seu novo líder
estivesse correta. Para sua infelicidade, ela estava.
"À luta!!!", latiram, saltando sobre seus inimigos
com enxadas, pás e picaretas. Outros, de longe, arremessavam
azagaias improvisadas e pedras. Krutulmak observava os seus com
receio, esperando escondido.
Foi um verdadeiro massacre. Angadolion retalhava mais de um em apenas
um movimento de sua espada, o pequeno halfling atingia vários
na cabeça com sua flecha, Naugotil, apesar do receio, atingiu
apenas dois com seu machado ancestral, enquanto Celeborod disparava
rajadas de energia mística pelos dedos. Krutulmak correu
para a câmara onde as fêmeas se encontravam, para auxiliar
os guardas que lá deixara, caso os membros do povo grande
conseguissem ultrapassar a primeira defensiva. Lá aguardaram
e, ao primeiro sinal de aproximação, pedras foram
arremessadas. Pego de surpresa, Drogo ficou inconsciente com uma
pedra que lhe atingiu o topo da cabeça. Celeborod teve seu
braço esquerdo ferido, enquanto Angadolion retalhava os kobolds
mais próximos. Sua espada se movia com fluência, varrendo
o ar em cortes inacreditáveis. Naugotil ficou na defensiva,
atacando apenas quando atacado primeiro. Vendo que aquela era sua
hora de agir, Krutulmak concentrou-se. Resolveu usar um dos poderes
mais grandiosos concedidos pelo seu Dom. Murmurando algumas palavras
na língua ancestral dos dragões, acumulou uma grande
energia luminosa em suas mãos e, a um sinal de seus dedos,
a luz se dividiu em mil feixes menores, atingindo dezenas de vezes
todos os inimigos. Uma dor imensa atingiu todos eles e uma grande
luminosidade atingiu a câmara, tornando desnecessários
os anéis da visão do anão possuído por
Angadolion, Celeborod e Drogo, que continuou inconsciente. A moral
dos kobolds aumentou depois dessa manifestação de
poder de seu líder, mas isso apenas os deixou mais vulneráveis
e descuidados.
"Por Wynna, como este ser conseguiu invocar energias arcanas
tão poderosas?!", pensou consigo Celeborod, "senti
minha pele queimar como o fogo!".
Abismado com o ocorrido, e um pouco ferido, Naugotil invocou as
bênçãos de Khalmyr, pedindo o auxílio
do Grande Juiz para que curasse seus companheiros. Para seu espanto,
suas preces não foram atendidas. O que ocorrera? Será
que seu receio era real?
Antes que sequer pudesse pensar, ele e seus companheiros foram atingidos
por outra magia vinda do pequeno kobold. Era como se estivessem
amarrados por uma corda muito resistente! Quanto mais tentava se
livrar das amarras invisíveis, mais ficavam presos.
"Obrigado, Mãe Dragoa, pelo Dom!", rejubilou, mentalmente,
Krutulmak. "Venham, vamos para cá!", gritou aos
companheiros, aproveitando o instante em que os inimigos se encontravam
aprisionados, correndo com os aliados restantes para a câmara
onde escondeu as fêmeas. Lá adentrado, pegou um dos
pergaminhos de seu pai e leu-o em voz alta. A língua dos
dragões converteu-se em vigor a seus aliados, todos curados.
Agora pôde ver em quanto estavam: oito, sem contar a si mesmo.
Dois para um, mais ele e seus poderes. Apesar disso, sabia do grande
poder do povo grande e sabia que seria uma batalha muito difícil.
Antes que pudessem sair de lá para proteger as fêmeas,
seus inimigos chegaram. Drogo estava consciente novamente e Celeborod
encontrava-se com uma armadura de energia em torno de si. Angadolion
avançou perante os inimigos e Drogo flechava-os de longe,
enquanto as fêmeas e filhotes se encolhiam no canto da câmara.
Naugotil permaneceu passivo, revidando aos ataques apenas. Celeborod
e Krutulmak iniciaram um verdadeiro duelo de honra.
Poucos segundos se passaram até que Drogo e Angadolion dizimassem
os kobolds restantes, tempo este em que energias atravessaram a
câmara, entre kobold e elfo. Magias ancestrais e poderes selvagens
combateram entre si, tentando selecionar um vencedor até
que, em um pequeno vacilo de Celeborod, Krutulmak arremessou-o contra
a parede. Nesse instante, Angadolion aproveitou a chance e trespassou
Krutulmak com sua espada. A dor tomava conta do corpo do pequeno
e jovem kobold. Ele não entendia o porquê daquele ataque
ou da recusa do ouro que ofereceram. Em um último suspiro,
perguntou em sua língua: "Por que??..."
Pouco antes de desfalecer-se em seu mar de dor, ainda pôde
ouvir o grito desesperado de uma fêmea atacada pela mesma
espada pela qual foi morto.
...
O grupo seguiu viagem rumo a Trebuck,
com suas mochilas pesadas pelo ouro ganho. Desde que deixaram as
colinas dos kobolds, Naugotil não emitiu mais nenhuma palavra
e recusou sua parte dos espólios.
"Por que está assim, amigo? O que te aflige? Atingimos
o objetivo, afinal: acabamos com aqueles seres desprezíveis
e ainda enchemos as sacolas de ouro. O que mais poderia querer?",
questionou-o Angadolion, com uma faixa na cabeça devido aos
ferimentos, fora do êxtase guerreiro.
"Amigo, o maior poder de um guerreiro não está
na força do golpe de sua espada ou nas batalhas que venceu,",
começou o anão, "mas sim em sua capacidade de
escolher quais batalhas deve combater. À exceção
de uma batalha perdida, não há nada mais triste do
que uma batalha ganha..."
Por Sir Togo Bolseiro
([email protected])
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