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Fábula do Demônio Cartesiano - Parte V

 

PENUMBRA

"A vida inteira que podia ter sido
[e que não foi."

Manuel Bandeira
Libertinagem
Pneumotórax


Penumbra voltou para a gruta com o amanhecer em seus calcanhares, sempre pensativo, afinal, quando imaginaria que um dia voltaria a ver gente de Ébano?
De volta à escuridão profunda, um rio murmura uma cantiga de conforto, o ar é fresco e puro, muito melhor que ser enterrado, pelo menos, não precisa se preocupar com minhocas tentando entrar pelo seu nariz, como aconteceu da última vez.
Diferente do grande abismo onde se escondera, há vida neste lugar, mas ainda não conseguiu decidir se os sons o irritam ou confortam. Isso, no entanto era irrelevante, uma infeliz tentativa de desviar-se para outros rumos, no entanto seus pensamentos tomam asas e se dirigem a locais, onde não se queria estar e nem se lembrar.

Porém... era impossível escapar.

A desgraça começou durante a festa de aniversário de seu melhor amigo, aquele com quem junto cresceu e agora só resta a lembrança de seu sorriso e seu nome esquecido. Mas, fora naquela noite, entre a sétimo ou a oitavo copo de vinho, quando todos estavam alegres e a música espiralava entre os convidados.

Nesse exato momento ela chegou, enlaçou seus braços sobre seu pescoço, acariciando seu peito por dentro da camisa, com mãos suaves como seda, sussurrando coisas doces, exalando um perfume muito mais embriagante que o vinho.

Quando se deu conta... havia deixado festa de seu primo-irmão, o seu melhor amigo, para encontrar-se em um lugar estranho, jogado em uma cama, sua língua se enroscando com a dela em beijos apertados e apressados, ela roçando a ponta de seus seios contra sua pele... não existia mais nada além daquele momento... perdido em meio ao deleite.

Então foram flagrados.

Quem era ela?
Ninguém... nada além da concubina de um deus. Mas não um deus qualquer... era justamente o deus da Luz, o segundo maior do panteão, não era uma posição ruim, se o regente para quem perdeu, não fosse o deus das Trevas, seu antigo rival.

Como se mede o poder de um deus?
Através do seu número de devotos.

Qual era a fatia que faltava para o deus da Luz?
O povo do reino Ébano, o maior e mais próspero reino depois dos portões marfim da estrada leste de Salém, o SEU povo.

E como conseguir tal prêmio?
Fácil, basta enganar o caçula da família real.

E o que ele exigira por indenização?
Nada de mais, apenas um sacrifício, uma maldição e eterna devoção.

Sua irmã mais velha deveria ser sacrificada, mas seu melhor amigo, primo-irmão de sangue jurado, tomou seu lugar e derramou sua vida sobre o altar da Luz.

Então, coube a ela amaldiçoá-lo.

"Você ofendeu a Luz, meu jovem irmão, agora a luz irá feri-lo." proferiu, lançando-o aos braços da escuridão.

Foram meses de agonia, rastejando em desgraça pelos campos, fustigado pelo sol e a lua, temendo até as estrelas, enlouquecido de dor, chorando e jurando vinganças, fugindo até os confins da terra, encontrando abrigo no cerne do abismo, onde um deus deposto o acolheu...

Ao pai coube a devoção e o povo seguiu seu último grande rei para os braços da Luz.

Então os demais deuses foram banidos do reino, o rei assassinado e os sacerdotes eleitos soberanos, finalmente destronou o deus mais forte do Panteão e coroou a si mesmo como novo regente, mesmo assim, a guerra nunca acabou.

Tudo graças à tolice de um jovem.

Uma dinastia perdida por causa do tolo filho mais novo, que não percebeu como o mundo gira em torno de planos perversos.

Agora, só lhes restam o sal de suas lágrimas.


De volta ao rio, onde Cartesiano e seus amigos ainda permaneciam, o destino do alado finalmente chegara ao seu juízo.

No início era apenas escuridão, então o céu azul, a relva verde sob seus pés, uma golfada de sangue, então a dor de uma lâmina serrilhada rasgando sua carne, caindo, caindo, caindo de volta ao céu azul, a relva verde sob seus pés, uma golfada de sangue, então a dor de uma lâmina serrilhada rasgando sua carne, caindo, caindo, caindo de volta ao céu azul, a relva verde sob seus pés, uma golfada de sangue, então a dor de uma lâmina serrilhada rasgando sua carne...

Até que finalmente... a luz.

Continua... Voltar

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