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Fábula do Demônio Cartesiano - Parte V (continuação)

O alado, lentamente, abriu seus olhos, seu corpo dolorido, mal conseguia respirar, inclina a cabeça para o lado, uma garota mestiça de lince deitada o abraçando, do outro a mesma coisa, tudo para que o frio da morte não alcançasse seu coração.
Ali perto, um homem com uma barba de no mínimo cinco meses, dormindo recostando em uma árvore, em seu colo uma criança loura com uma cobra esmeralda enrolada em seu pescoço.
Então uma criatura apareceu, arrastando um cervo pelos pés traseiros. Como reagir diante daquela criatura desconhecida?
Não que fosse realmente desconhecida ou de todo conhecida, já havia ouvido falar inúmeras vezes a respeito daquela coisa, mas nunca pensou que um dia a iria encontrar.
Ledo engano.
E agora? Apesar de, até hoje, soar absurdo, saber que uma coisa existe e vê-la, ser algo totalmente diferente. Isso fez sentido? Não importa, os pensamentos dançavam em uma velocidade impossível de se acompanhar.
Durante esse período em que o tempo parou, apenas ficaram se encarando, como se cada um buscasse dentro de si mesmo, uma razão, um mínimo de sanidade para esboçar uma reação. Não foi fácil. Pelo menos para o alado.
Cartesiano sentou-se e começou a preparar o fogo. Ninguém poderia imaginar que sua reação diante seu antagônico fosse tão pacífica. Ele desconhecia a essência daquele demônio, teria de fato caído? Ou aquele realmente era um ser diferente dos quais enfrentara a vida inteira?
Jamais saberia a resposta. Por mais que quisesse ou buscasse, era algo que estava além de sua capacidade ou destino. Único jeito era conformar-se.
"Olá..." murmurou uma tímida saudação.
Cartesiano rapidamente se virou e sorriu.
"Olá, estrela-cadente... tá melhor?" indagou do modo das crianças.
"Estrela... cadente?" franziu sua testa.
Sim, era verdade. Havia caído, seu deus já não via mais utilidade para sua existência. Descartado de modo tão simplório, como uma poeira batida de um manto, havia sido reduzido a mesmo que nada. As feridas em seu corpo não eram nada se comparadas à nova que se abriu em seu peito. O choro tentou subir por sua garganta, conseguiu segurá-lo, mas não antes que duas lágrimas puras como cristais escorressem de seus olhos cor de terra vermelha, tornando-se duas tristes lembranças.
Não havia pedido para se tornar um servo-guerreiro, mas mesmo assim, os sacerdotes olharam para ele, o despiram, rasgaram sua carne e de dentro de suas costas puxaram dois pares de asas, foi um misto de dor e glória, trocaram seus olhos castanhos - ou eram azuis? - e marcaram seu espírito com ferro em brasa.
Agora... agora, tudo isso havia acabado de modo abrupto. Perdera a utilidade e fora descartado como um brinquedo quebrado. Ou será que não? O destino ainda poderia ter-lhe reservado algum resto de glória? Alguma recompensa por ter dispendido a vida inteira a serviço deste deus? Ou a morte seria sua única recompensa? Talvez sua única resposta.
As semanas passaram, o alado se recuperara, enquanto que Penumbra não havia dado nenhum sinal de vida durante todo esse tempo.
"Será que ele abandonô a gente?" indagava Cartesiano com cara de choro.
"Sissi disse que não." era Laura, sempre.
"Melhor que fosse... melhor que fosse...." resmungava Dagan em seu canto.
Dagan observa o grupo um tanto afastado. Não sabia mais há quanto tempo estava acompanhando este grupo sempre crescente, às vezes, divagava.
Jamais imaginaria que um dia teria a companhia de um Demônio, uma garota que fala com uma cobra, duas irmãs mestiças de lince e agora um anjo... havia Penumbra, mas não tinha afinidades para com aquele elfo.
Tudo isso parecia um conto de fadas, um sonho. Será.... será que isso é real? Ou seria.... talvez tivesse morrido, talvez tivesse sido executado e esse fosse o céu, ou seria o caminho para o Paraíso? Talvez todos estivessem mortos e Penumbra fosse o guia para o além-morte.
Esses pensamentos o consumiam dia e noite, desde que encontraram o anjo, sentia-se incomodado, um desconforto qual não conseguia nomear, às vezes sentia vontade de chorar ou gritar, espernear e se debater... mas, como por mágica, tudo se dissolve quando vê Georgia cantarolar em uma língua estranha, sua irmã acompanhar o ritmo com palmas e Laura a rir e rodopiar, dançando uma dança de criança. Um sorriso desabrocha em seus lábios e por alguns minutos seu coração fica terno e aquecido.
Dagan e Cartesiano, construíram um improvisado abrigo, apenas para não se molharem quando chovesse, uma armação feita de galhos, coberta com o manto de Penumbra, que se mostrou impermeável e extremamente esticável, como se pudesse cobrir o mundo inteiro, se houvesse necessidade. Mas, como não podiam cortá-lo, Dagan se arriscou ir para a cidade, rezando para que ninguém mais o reconhecesse, trocou duas ou três penas do alado por roupas, cobertores, panelas, suprimentos, uma lamparina, uma carroça com cavalo e outras coisas miúdas.
Não sabiam quanto tempo estavam esperando Penumbra, para Cartesiano, foram alguns dias, para Laura e as gêmeas, semanas, para o anjo, dois ou três meses, para Dagan foi quase um ano.
Cada um ocupava o tempo a sua maneira, Cartesiano e Laura passavam o dia a brincar, Dagan pescava ou caçava algo para comer, as gêmeas cozinhavam, bordavam ou cantarolavam durante o dia, à noite cuidavam de Laura, penteando seus cabelos, ninando-a e coisas assim. O anjo passava o dia a observar o céu e ouvir o vento sobre a relva ou copa das árvores, como se ouvisse mensagens carregadas por ele.
Uma noite, Penumbra voltou, seus olhos estavam avermelhados, como se houvesse chorado dias a fio, parecia mais pálido e sombrio. Ninguém teve coragem para lhe perguntar nada.
"Vamos embora." disse apontando para o leste.

Por Robin Leonor ([email protected])

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