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A Lenda de Arkânis - Parte II (continuação)

David pensou por alguns instantes e então respondeu.
-Nossas crianças são nosso futuro, se ao menos pudesse ensina-las um pouco de sua sabedoria, elas poderiam reagir no futuro, nós mantemos uma escola em segredo aonde tentamos ensina-las um pouco, mas não sabemos o suficiente…
E então Arkânis respirou fundo, e pensando na enorme responsabilidade que teria de assumir respondeu:
-Se é de meu conhecimento que precisam, ensinarei tudo o que sei. E que esse conhecimento possa trazer paz a nossa tão devastada terra. - E assim aconteceu, nos cinco anos que se seguiram, Arkânis passou a ensinar as crianças sua sabedoria, em pouco tempo, as crianças trouxeram os pais que por sua vez trouxeram seus pais. Logo as aulas precisavam ser dadas em espaços maiores e com mais freqüência. Sua fama se espalhou pelo reino trazendo pessoas de vários vilarejos para escutar os sábios conselhos da “sacerdotisa”. Essas pessoas a veneravam e lhe traziam presentes, diziam que era ela a salvadora e que o mal iria acabar. Tal tipo de tratamento incomodava Arkânis, que não se considerava uma profetisa. Seu amor por David cresceu e dois anos depois da fuga, se casaram secretamente.
Quanto a Gregory, enlouqueceu após o sumiço da filha. Ele acreditava que sua filha havia sido assassinada por camponeses e constantemente enviava equipes de busca que quando nada encontravam prendiam, matavam e queimavam as vilas impiedosamente. O caos se estabeleceu nos dois primeiros anos, porém após essa época, os tais vilarejos começaram a reagir ferozmente aos ataques, aos gritos de “longa vida a sacerdotisa”. Os camponeses atacavam ferozmente os soldados que muitas vezes saiam bastante feridos. Insurreições surgiam por todo o reino e gradativamente o dia do Tributo foi perdendo adeptos á medida que o povo compreendia o quanto os milagres do rei Andrew eram arranjados. Relatório após relatório um nome sempre se repetia… “sacerdotisa”.
O rei impaciente convocou em uma tarde uma reunião com seus principais generais na sala do trono. Andrew estava como de costume, sentado em seu imponente trono banhado a ouro, porém se sentia desconfortável, apesar das macias e felpudas almofadas cor de vinho que revestiam seu assento. Ao soar da quarta badalada, seus generais começaram a chegar e um a um foram se postando ao redor da longa mesa de carvalho sólida instalada no local. Sobre ela um imenso mapa do reino com dezenas de pequenos marcadores. Pequenos soldados esculpidos em marfim utilizados pelo rei quando montava suas estratégias nesse grandioso mapa, porém havia algo novo, havia pequenos soldados, grosseiramente esculpidos, feitos as pressas como se as peças antigas não estivessem prontas para esse jogo que o rei agora enfrentava. Andrew estava com um ar visivelmente cansado, grandes olheiras sob suas pálpebras e uma excessiva quantidade de rugas para sua idade. Muitas conseqüências das noites em claro a espera da volta de sua filha. Parecia incrível, mas aparentemente Andrew revelava enfim que tinha um coração.
Quando se passaram vinte minutos da entrada do primeiro general, o último se sentou a mesa. Andrew, apoiando seu braço nos braços de seu trono, fez algum esforço para colocar a si mesmo de pé. E então começou a falar.
Senhores, peço que observem o mapa a sua frente, e me digam o que vêem.
Os generais estranhando o pedido observaram por alguns instantes o grandioso mapa, mas permaneceram num silêncio repleto de expectativas, até que um deles arriscou.
Vejo que o mapa de nosso reino está repleto de marcadores.
Andrew com uma voz sarcástica respondeu:
Como você é perspicaz Comandante Barry!!! Mas sabe o que significam? - Sua voz com uma ponta de ódio - Sabe o que querem dizer?
E mais uma vez o silêncio percorreu a sala, uma gota de suor escorreu pela testa do ousado comandante quando ele mais uma vez interviu.
Representam os vilarejos com boa coleta de impostos?
Um sorriso amarelo se abriu em seu rosto, acompanhado pela expressão de Andrew que rapidamente mudou de uma aparente calma, para uma raiva forçosamente controlada. Este então respondeu:
Impostos??? Você gostaria de que fosse isso não é Barry? Mais riquezas, mais luxo e é claro maiores salários, não é? Pois bem meu caro comandante, foi uma observação boa, mas ERRADA!!!
O grito ecoou pelos corredores do palácio juntamente com o barulho produzido pelo murro dado pelo rei na sólida mesa derrubando os marcadores. O silêncio tomou conta da sala, o jovem comandante se sentou vagarosamente, o suor lhe escorria por todo o corpo, sua boca se tornou seca e seus olhos vitrificados, os instantes que se seguiram pareciam horas infindáveis enquanto Andrew falava:
SEU TOLO… IMPOSTOS… EU LHE DIGO O QUE REPRESENTAM, SÃO MARCOS DE INSURREIÇÕES, REVOLTAS E GUERRAS. TANTAS QUE MEU EXÉRCITO NÃO PODE CONTER. TANTAS QUE NÃO TENHO PEÇAS PARA MARCÁ-LAS. E TUDO POR CAUSA DE QUEM? DE UMA TAL DE SACERDOTIZA
Os generais murmuravam entre si, á medida que o rei retomava o controle, todos haviam ouvido falar dela, mas nunca haviam dado importância. O rei um pouco mais calmo questionou:
Há quanto tempo vocês têm ouvido esse nome? Quantos foram os relatórios em que ele foi omitido?
Um dos comandantes se ergueu ligeiramente da cadeira e respondeu baixinho:
Dois anos senhor…
Então Andrew visivelmente nervoso resmungou:
Dois anos??? Vocês omitiram essa informação de mim por dois anos? E por que?
Barry ergueu-se nervoso e respondeu:
Nós não nos preocupamos com esses boatos senhor, ela parecia apenas uma agitadora condenada a…
SILÊNCIO SEU TOLO!!! SOU EU QUEM DEVE DECIDIR QUEM É PERIGOSO E QUEM É SUBJULGÁVEL!!!
O soldado calou-se imediatamente e novamente sentou-se. Andrew prosseguiu:
Quer dizer que vocês idiotas se julgaram superiores a mim, para julgar quem me oferece perigo? Vocês ignoraram uma pessoa que mês após mês virou meu povo contra mim. Bem, imagino que nesses anos, vocês recolheram informações a seu respeito, enviaram espiões. Não é???
Um dos generais profundamente assustado murmurou:
- Não senhor… nós não o fizemos...
O rei mais uma vez foi tomado pela fúria:
COMO NÃO? E O QUE OS IMPEDIU DE FAZEREM ISSO SEUS IMBECIS???
Bem senhor, haviam outros assuntos de Estado mais importan…..
Andrew interrompeu:
MAIS IMPORTANTES??? MAIS IMPORTANTES DO QUE UMA GUERRA INTERNA? MAIS IMPORTANTES DO QUE A SEGURANÇA DO REINO???
Bem senhor…
SILÊNCIO… VOCÊS JÁ DERAM SUFICIENTES PROVAS DE INCOMPETÊNCIA PARA UM DIA. NÃO TENTEM SE EXPLICAR OU LHEs ENVIAREI AO CALABOUÇO.
Pouco a pouco, o rei foi retomando a calma e então resmungou:
Me escutem com atenção, se vocês querem preservar seus empregos e suas vidas medíocres façam o que mando. Eu quero que vocês descubram tudo sobre essa amaldiçoada sacerdotisa, onde vive, com quem se relaciona, e até o que come no almoço, será que fui suficientemente claro???
Várias cabeças acenavam em sinal positivo. Enquanto o rei pronunciava:
Quando soubermos, nos infiltraremos entre os camponeses e armaremos uma cilada, faremos parecer que tudo foi por uma rivalidade, nada de guardas ou soldados, um camponês dará cabo de sua vida. Afinal, não queremos um mártir para dar mais força ao povo. Vocês compreenderam?
E mais uma vez as cabeças baixavam afirmativamente.
Agora saiam, e descubram tudo o que podem, estou cansado e preciso repousar, eu quero essas informações o mais cedo possível, agora vão.
O rei então se dirigiu a porta lateral com algum esforço enquanto os generais se retiravam pela porta central, em suas mentes apenas um pensamento, o fim daquela que ameaçava suas vidas e carreiras. A lenda viva que Andrew tanto odiava. A Sacerdotisa.
Mais um dia amanheceu no pequeno vilarejo. Arkânis, como de costume, levantou-se cedo, lavou o rosto e colocou seu agora surrado manto branco com capuz. Desde as recentes buscas reais, o capuz se tornou necessário, escondendo sua beleza.
Demorou apenas alguns minutos até que saísse para a rua, o que há alguns anos era motivo de surpresa e algumas vezes medo, hoje já lhe fazia parte do cotidiano. Ruas sujas, pessoas maltrapilhas, fome, miséria, mas com uma diferença, agora as pessoas haviam aprendido a lutar. E, no entanto apesar de toda essa miséria, Arkânis se sentia estranhamente em casa, lhe ocorreu por um instante que ela não mais servia para ser princesa, havia se tornado um deles, uma camponesa...

Por Claudio Villa ([email protected])

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