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A Lenda de Arkânis - Parte I (continuação)

Já se aproximava do fim do dia, quando uma família cruzou aqueles portões, eram três indivíduos, o pai um velho fraco e já arqueado com a idade caminhava com dificuldade, a mãe também idosa ainda caminhava de forma natural, porém o cansaço era visível em seus olhos negros e sem vida. Atrás dos dois, vinha aquele que deveria ser o filho do casal, tinha algo em torno de vinte e três anos era um jovem alto e muito forte, seus cabelos ruivos e bem curtos contrastavam com seus olhos negros como de sua mãe. Arkânis percebeu a expressão gentil no rosto do rapaz, apesar de bem ocultada na sua expressão desgastada e cansada. O jovem se ajoelhou, num claro ato de submissão e falou:
- Majestade, nossa colheita foi ruim, meu pai está terrivelmente doente e o único que pode trabalhar em casa sou eu, não temos um pão há dias e temo que não possamos lhe oferecer nada...
O rei olhou indignado:
- Nada, você ousa entrar em meu castelo sem carregar nada? Bem, será o habitual, masmorra e execução para todos...
O jovem levantou, surpreso, sua expressão de terror ante a frieza de seu lorde, deu dois passos para trás tentando proteger seus pais, os guardas em movimento vagarosamente cercavam a indefesa família, Arkânis ficou assustada e sem mesmo perceber gritou:
- Nãooooooooo, parem!!!!!!!
Os guardas se detiveram por alguns instantes, olhando em direção ao trono
- Parem - questionou o rei - O que quer dizer com isso?????
A percepção veio em um instante, ela engoliu em seco e balbuciando respondeu:
- Ah, vocês não.... podem fazer isso...
- E por que não - disse Andrew indignado - do que você esta falando minha filha?
As idéias corriam rapidamente em sua mente, ela tentava ter uma idéia do que falar, mas somente uma coisa lhe veio a mente:
- Ahhh..., observe esse rapaz,... ele... é bem forte não é papai, ele daria um excelente....huh....servo. por que desperdiçar tamanha força de trabalho
Andrew pensou por um momento, coçou suas costeletas e então respondeu:
- Tem razão, ele seria útil, acho que o deixarei viver... mas e quanto a esses velhos inúteis?
- Ahhh, eles estão velhos, deixe-os ir, não sobreviverão por muito tempo...
- Tudo bem, você me convenceu, liberte os velhos e leve o rapaz para o treinamento...
Treinamento pensou Arkânis, masmorras...
- Ah, pai, só uma coisa... será que poderia me emprestar esse servo, eu necessito de alguém forte, quero mudar parte de minha mobília de lugar...
- Tudo bem, pode leva-lo....
Arkânis relaxou, era ao menos uma vida salva, seus músculos relaxaram á medida que a tensão baixou, ela saiu pela porta lateral sendo seguida pelo rapaz ruivo que apesar de aliviado mantinha um olhar triste e sem vida. Ele a seguiu através da escada, através do corredor e finalmente dentro do quarto, ele então parou após entrar alguns metros no quarto e sem erguer os olhos perguntou:
- O que deseja que eu faça senhora?
Arkânis então, com sua voz doce respondeu:
- Não quero nada de você, fiz isso apenas para que não fosse enviado para o calabouço, fique aqui um tempo, logo meu pai se esquece dessa bobagem toda e você irá para seus aposentos.
Um fraco sorriso surgiu no rosto do rapaz, enquanto ele erguia o rosto e dizia:
- Obrigado por salvar minha família. Lhe serei eternamente agradecido.
- Tudo bem, não foi nada.
Não fora a primeira vez que ela havia feito isso, já havia outros rapazes e moças salvos da mesma forma, sempre com uma desculpa esfarrapada. Porém esse tinha algo de especial, Arkânis se sentia atraída por sua simpatia, seu jeito de olhar, de se mover até mesmo seu sorriso tão fraco e sem vida lhe encantava.
- Como você se chama rapaz?
O jovem então respondeu:
- Meu nome é David senhora.
- Percebo, sua família vai ficar a salvo. Mas eu lhe darei uma ajuda, meu pai desconhece a quantidade de servos que possui, e certamente não dará falta de ninguém. Aproveite a noite, enquanto os sentinelas bêbados e irresponsáveis dormem em seus postos e fuja de volta para sua família.
David empertigou-se, seus músculos contraíram diante de tais palavras, ele ainda com um olhar de espanto perguntou:
- Fugir???, Daqui? Mas como? Sou seu escravo, não posso fugir...
- Não rapaz, você não é meu escravo, não é escravo de ninguém. Você foi preso na teia da tirania, mas ainda pode escapar das garras de Gregory, eu ao contrário estou aprisionada aqui, presa a essa família, a esse nome e as regras que meu pai criou...
- Mas senhora...eu...
- Chega de conversa, você deve partir, a tarde está caindo e logo será noite...
Falando isso, Arkânis puxou de uma das dobras de seu manto um pequeno pedaço de papel, ela abriu a mão do rapaz e o entregou:
- Tome, leve isto. É um pequeno mapa de como sair daqui... agora vá...
Fazendo isso, David virou as costas e partiu, ainda ressentido por Arkânis. Como podia uma jovem de tamanha beleza, uma jovem sábia e bondosa presa entre as grossas paredes desse castelo. Ele deu uma boa olhada no mapa e se retirou dos aposentos, as pesadas portas de madeira bateram as suas costas enquanto ele tomava o rumo para o dormitório dos servos. "tão bela jovem, presa entre as paredes do castelo"....
A noite caiu rapidamente, se seguiram apenas seis horas desde seu encontro com David. Arkânis havia ficado simplesmente encantada com o rapaz, foi algo repentino e além de seu próprio controle. Era quase meia noite, quando Arkânis resolveu descansar. Retirou o longo vestido azul, já bastante amarrotado por toda a atividade diária. E colocou sua macia e delicada camisola de seda. Ela puxou as cobertas e se deitou embaixo delas, seu corpo cansado afundou parcialmente no colchão macio, sua cabeça recostada sobre o macio travesseiro de penas de ganso não tinha o descanso que merecia, em sua mente milhares de pensamentos se processavam ao mesmo tempo, e entre cada um desses pensamentos ela via surgir o maltratado rosto de David, e a cada minuto se perguntava: "O que em fascina tanto nesse rapaz?". A sono começo a se aproximar, suas pálpebras a pesar quando de repente ela ouviu um som:
Toc toc toc...
Alguém batia na porta, mas a essa hora - se perguntava - quem poderia ser?. Somente meu pai viria, mas ele costuma dormir cedo. Ela se levantou, calçou os chinelos que se encontravam ao pé de sua cama e andou em direção a porta. Assim que tocou a maçaneta e virou foi empurrada para dentro, um vulto entrou no quarto e rapidamente fechou a porta atrás de si. A escuridão do aposento não permitia que ela distinguisse muito bem o que estava acontecendo quando:
- David??? É você??? O que está fazendo aqui, eu lhe disse para fugir...
O rapaz tinha uma respiração ofegante, o suor lhe escorria pela testa enquanto ele falava:
- Eu vim busca-la senhora...
- Arkânis surpreendeu:
- Me buscar??? Para que???
- Eu vim liberta-la de sua prisão de pedra, vim ajuda-la a fugir...
Arkânis assustou-se, esse jovem era louco, se arriscando a vir aqui para me levar com ele:
- Você enlouqueceu, não posso ir com você, se eu for, meu pai ficará doido e vai se aproveitar disso para castigar os camponeses ainda mais.
Pouco a pouco, David recuperava sua respiração a medida que sua adrenalina baixava.
- Você não compreende, não há nada aqui que você possa fazer, mas a muito lá fora para ser feito. Você é sábia, venha comigo e ajude o povo a sair das trevas da ignorância. Se ele perceber o quanto é explorado se revoltará e destronará o tirano, com você usando a coroa estaremos salvos. Venha comigo...
- Mas eu não...
Antes que Arkânis terminasse a frase, David a abraçou. Foi como algo natural, um momento como nenhum outro. Em segundos estavam abraçados, seus lábios se tocaram gentilmente e se beijaram por alguns instantes. Na cabeça de Arkânis milhares de pensamentos corriam descontroladamente, um momento de lucidez lhe veio a mente e ela finalmente percebeu o que sentia por David, foi uma paixão a primeira vista, a solidão imposta por seu pai naquele sombrio castelo desapareceu por completo, ela via naquele jovem um fio de esperança, ela via um futuro fora das trevas para todo o povo de Landemar. Pouco a pouco a realidade foi lhe voltando a mente, ela abriu os olhos e ainda pode ver os doces olhos de David a fitá-la, era a hora de uma decisão, e o tempo corria...
- Você tem razão, não a nada aqui que eu possa fazer. É uma decisão difícil, mas se sou necessária lá fora então é para lá que irei.
Um sorriso se abriu no rosto de David, Arkânis correu, agarrou algumas roupas, calçou seus sapatos e rabiscou um pequeno bilhete:

"Papai,

Não posso mais suportar essa vida, sua tirania contra o povo me revolta e não posso mais conviver com pessoas morrendo a minha volta. Estou partindo hoje, para nunca mais voltar. Espero que me compreenda e aceite minha decisão.

Com amor,

Arkânis".

E assim eles partiram, Arkânis segurou o pulso esquerdo de David e foi o arrastando através dos inúmeros corredores do castelo, como ela adivinhara, os guardas boêmios estavam em seu quartel bebendo até cair, seu pai nunca fora muito rígido no treinamento desses guardas...

Por Claudio Villa ([email protected])

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