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A Lenda de Arkânis - Parte II

Na manhã seguinte, os guardas bêbados da noitada anterior, acordavam vagarosamente, suas roupas e seu hálito cheirando a vinho barato. O rei por sua vez acordou cedo, colocou sua túnica e como de costume dirigiu-se ao salão de jantar real para seu desjejum... Sentou-se na cabeceira e com um grito chamou uma de suas inúmeras criadas.
-Sim meu lorde, o que deseja???
O rei, visivelmente impaciente falou:
-Onde está minha filha Arkânis? Ela não costuma se atrasar para o café. Vá chamá-la imediatamente.
O rei aguardou, e enquanto esperava se serviu de uma generosa fatia de melão de Lankadia, vagarosamente saboreou a fruta que derretia em sua boca. Em poucos minutos a criada voltou, seus olhos mostravam um medo que ela inutilmente tentava disfarçar olhando para baixo. Caminhava vagarosamente à medida que se aproximava de Gregory.
-E então, onde ela esta, por que ainda não desceu?
A criada apavorada, murmurou baixinho:
-Bem, senhor... É que...
-E então?
A criada tremia, o suor a escorrer pela sua testa, um gosto amargo na boca a medida que as palavras insistiam em ficar.
-Ela não estava no quarto Milorde....
Gregory, rapidamente se levantou, a doce fruta em sua boca já não parecia tão doce, ele então gritou:
-O QUE? COMO NÃO ESTÁ? ENLOUQUECEU?
A criada gemeu, com suas mãos trêmulas ela retirou um pequeno pedaço de papel das dobras de sua túnica, com muita dificuldade ela estendeu o bilhete ao alcance do rei e murmurou:
-No lugar, eu encontrei isso...
Andrew tomou o bilhete das mãos da mulher e rapidamente o leu, a cada linha, a cada palavra sua face se enchia de ódio e de rancor, ele leu a ultima linha e soltou um forte grito, em seguida, tomado pela fúria colocou seu braço sob a mesa posta e num único movimento derrubou tudo no chão causando um grande estrondo e sujando todo o chão, rapidamente a criada a seu lado ajoelhou-se e começou a catar os cacos e a sujeira do chão numa tentativa de desviar a atenção do rei para com ela. Andrew berrava como doido pelos guardas que rapidamente atenderam seu chamado:
-TRAGAM-ME TODOS OS GUARDAS DA ÁREA LESTE AGORA!!!!!!!!!
-Sim senhor.
E os guardas rapidamente se retiraram voltando cerca de vinte minutos depois acompanhados por cerca de dezoito homens fardados. Eram os soldados da área dos dormitórios, eles estavam visivelmente apreensivos, o rei nunca mandava chamar seus guardas dessa forma a menos que algo estivesse errado. Andrew respirou fundo tentando retomar a calma, e então gritou:
-Aproximem-se senhores...
E os guardas vagarosamente se aproximaram, formando uma fila diante de seu rei, o rei se aproximou, passando em revista enquanto os guardas em rígida posição de sentido aguardavam o motivo da reunião. Andrew passou por todos medindo-os dos pés a cabeça e então numa aparente calma perguntou:
-Guardas, qual o seu dever para comigo???
E os guardas como cãezinhos treinados responderam em coro:
-O de proteger e guardar o senhor, sua família e suas posses...
-Compreendo, e eram o que faziam na noite passada não é???
E mais uma vez o coro soou cadenciado e chato
-Sim senhor...
Rapidamente o rei mudou de uma postura aparente calma e deixou a raiva mais uma vez florescer na sua pele.
-COMO EXPLICAM QUE MINHA FILHA TENHA DESAPARECIDO???
Os guardas se entreolharam confusos, davam de ombros, mas visivelmente assustados tentavam balbuciar desculpas e acusar um ao outro, Andrew se aproximou, suas narinas se dilataram com o forte odor de álcool nas roupas de seus homens e voltando a uma parente calma respondeu.
-Agora compreendo tudo... Uma festinha noturna.
-Não senhor... bem... é que....
-SILÊNCIO!!!, muito bem, gostam de festas não é? Então irão festejar, no inferno... GUARDAS, LEVEM ESSES IMUNDOS AO CALABOUÇO E FAÇAM COM QUE SE DIVIRTAM BASTANTE...
Logo de todas as partes surgiram dezenas de guardas, cada quatro segurando um dos condenados. Os poucos que tentaram resistir foram mortos ali mesmo. Andrew então voltou seu olhar para a criada que ainda se mantinha ajoelhada recolhendo os restos jogados no chão, ele então falou:
-Quanto a você... Esqueça essa tolice e chame meu conselheiro imediatamente.
E a criada, ainda meio que desajeitada correu a chamar o homem enquanto o rei impaciente sentou-se em seu trono e pensou “alguém pagará por isso”...
Arkânis acordou com os primeiros raios da manhã, suas costas doíam devido a cama dura que haviam conseguido para ela, mas apesar de dura a cama era a mais confortável do lugar, onde rapidamente se improvisou um abrigo.
Sua cama estava cheia de lençóis e vários travesseiros que apesar de magros se tornavam confortáveis quando colocados um sobre o outro. Ela se ergueu e então se aproximou de uma pequena bacia d’água sobre um rústico criado mudo. Tudo parecia estranho até ela se dar conta de que faltava toda aquela agitação do palácio, as pessoas correndo em seus aposentos. Apesar disso ao perceberem que havia acordado, um grupo de três mulheres se aproximaram e tentavam ajuda-la a se vestir, aquilo parecia rotineiro até ela se dar conta da situação, gentilmente Arkânis dispensou a ajuda com uma frase:
-Não estamos mais no castelo, e vocês não são minhas criadas, não precisam fazer isto.
-Mas senhora...
-Ainda assim agradeço a ajuda.
As mulheres se retiraram silenciosamente, enquanto Arkânis colocava seu manto branco e dourado, por um instante passou por sua mente o quanto aquele simples gesto de se vestir lhe parecia ao mesmo tempo tão novo e excitante, uma nova experiência numa vida que estaria cheia de novidades. Depois de alguns instantes, David adentrou-se nos rústicos aposentos, fez uma rápida saudação e pronunciou:
-Majestade!!! Espero que esses rústicos aposentos estejam de seu agrado.
Arkânis então, com uma doçura em sua voz, a mesma que o encantara desde o primeiro instante respondeu:
-Não precisa de todas essas formalidades David, não estamos mais no palácio, e por favor me chame de Arkânis.
-Sim... Senh....digo Arkânis
-Assim está melhor, a e quanto ao quarto, é muito agradável, obrigado pela preocupação.
-Teve uma boa noite de sono?
-Sim, uma das melhores, mas me diga, onde estamos exatamente?
-Estamos na pequena vila de Arusk…a alguns quilômetros do palácio real.
Naquele momento um estalo de compreensão surgiu na mente da jovem.
-Mas todos aqui correm grande perigo, meu pai decerto mandará várias de suas tropas para me procurar, e se me encontrarem todos morrerão.
David respirou fundo e então respondeu:
-Não tema princesa, esta tudo preparado, um esconderijo foi devidamente preparado no fundo desse assoalho para esse caso, não há perigo.
-Compreendo… mas você havia dito que tinha uma missão, retirar o povo da ignorância, como posso faze-lo?

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