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Lenda de Arkânis - Parte I
"O
que você deve compreender, é que a melhor maneira de
controlar um povo, é mantê-lo na escuridão.
Um povo que não conhece a luz da sabedoria não reclama
de sua falta. Deixe o povo no escuro e poderá controlá-los
facilmente..."
Rei
Andrew III - diário de um governante.
Era
mais uma linda manhã de sol, passava alguns minutos das oito
horas da manhã. A jovem lentamente despertou de seu sono.
Havia sido uma noite conturbada, os gritos no corredor não
a deixavam dormir. Mais um prisioneiro havia escapado - pensou -
que Deus tenha piedade dele. A jovem retirou as cobertas de seda
de cima de seu corpo e tocou a sineta a seu lado. Passaram-se apenas
alguns segundos até que seu quarto fosse invadido. Dezenas
de empregados em instantes já trabalhavam à sua volta.
Ela se levantou da cama e em pé aguardou alguns segundos.
Logo três camareiras a cercaram, vestindo-lhe um lindo vestido
branco. Ela naquele momento se deu conta que nunca havia se vestido
sozinha. Estava com vinte e um anos e nunca havia feito nada sem
que algum empregado a ajuda-se. Era uma vida fácil, extenuantemente
fácil.
Logo estava vestida, seu quarto arrumado e o batalhão de
criados retirados, tão rapidamente quanto haviam entrado.
Uma camareira entrou em seu quarto e com uma voz baixa e sem vida
murmurou:
- Minha senhora, seu pai a aguarda no salão principal para
o café...
- Diga-lhe que estarei lá em um minuto.
A criada consentiu com a cabeça, virou-se e se retirou. A
jovem observava seu quarto mais uma vez antes de se retirar. Móveis
de madeiras raras, os mais finos tecidos e roupas, os mais belos
adornos. Uma incalculável fortuna. Mas o que mais a perturbava
era pensar quantas vidas foram perdidas para se obter toda essa
riqueza. A incomodava pensar que enquanto ela tinha o melhor, o
povo de seu pai morria de fome. Não gostava quando esse pensamento
lhe vinha a mente. Era duro para ela encarar que seu pai era um
tirano com sua gente, ele era um pai superprotetor, não admitia
que sua única filha e herdeira se arriscasse. Era por isso
que ela fora criada e educada entre essas muralhas, tinha todos
os confortos que o dinheiro pode comprar, menos um, a liberdade.
Ela
rapidamente desceu as longas escadas de granito que separavam seu
quarto do hall principal do palácio, no chão, um mosaico
criado com milhares de pequenas pedras coloridas formavam o brasão
de sua família, um livro e uma pena. Eram conhecidos como
os sábios, e em parte estavam no poder devido a essa lenda.
Ela cruzou o hall até atingir a porta dupla que dava para
o salão. As portas se abriram sozinhas com a sua aproximação.
Ela entrou no salão que era composto por uma grande mesa
de banquetes feita do tronco de uma única árvore,
o longo salão era adornado por várias cortinas que
cobriam as a compridas janelas triangulares, tapetes coloridos tornavam
o chão de granito um pouco mais quente deixando o ambiente
mas aconchegante. As cortinas estavam fechadas deixando o ambiente
escuro, apenas iluminado pelas velas. Seu pai não gostava
da luz natural. E lá estava ele, sentado na cabeceira da
mesa, com uma imensa taça na mão ele bebia um gole
do vinho, era uma figura realmente assustadora ainda mais sobre
a penumbra da luz das velas. Tinha cabelos de um tom louro-escuro
e longas costeletas. Estas se ligavam ao seu grosso bigode que servia
para cobrir seus lábios finos e retos. Tinha olhos escuros
escondidos debaixo de grossas sobrancelhas. Sua roupa era um casaco
verde escuro com detalhes em dourado e uma grande gola, embaixo.
Uma camisa de cor crua mostrava uma larga mancha de vinho que deveria
estar lá há pelo menos dos dias. O homem ergueu seus
olhos para observar quem entrava na sala, um leve sorriso se abriu
em seus lábios quando falou:
Arkânis, minha filha, entre. Junte-se a mim nessa deliciosa
refeição
- Obrigada senhor.
- Já lhe pedi para que não me chame assim, não?
- Sim senh..., digo, pai...
Ela não conseguia chamá-lo de pai sem sentir uma estranheza
em sua voz. Seu pai era tratado por todos como senhor e ela simplesmente
não conseguia tratá-lo de forma diferente.
Arkânis se sentou, seus cabelos loiros encaracolados presos
num rabo de cavalo. Ela puxou uma cadeira ao lado de seu pai e sentou-se.
Andrew tocou a sineta e rapidamente dezenas de criados entraram
na sala carregando bandejas. Eles cercavam os dois carregando todo
tipo de comida: frutas exóticas, frios, sucos e vinhos. Seus
rostos pareciam apáticos e sem vida ao lhe oferecer o conteúdo
de suas bandejas.
Logo veio a Arkânis a lembrança de que todos estes
criados eram prisioneiros que foram amansados nas masmorras e agora
trabalhavam duramente para conquistar a liberdade perdida. Somente
ela e seu pai sabiam que nunca deixariam o castelo com vida.
Enquanto o rei se servia de todo tipo de comida, a jovem se limitou
a aceitar uma maçã, apesar das insistências
dos criados que temerosos de sua comida não estar agradando
a princesa viam castigos e punições. Andrew, que também
observava a cena curioso, perguntou:
- Por que não come minha filha? Sabe que será uma
longa manhã...
Arkânis deu uma mordida na maçã, degustando
cada mastigada, cada gota do suco que saia da fruta e então
respondeu:
- Não tenho fome meu pai, obrigada...
- A comida não está lhe agradando? - lançando
um olhar sob os criados - posso trazer outro cozinheiro se quiser.
- Não meu pai, a comida esta ótima, eu apenas não
tenho fome.
- Você sabe que hoje é o dia em que recebemos nossos
súditos com seus tributos, deve estar pronta para recebê-los...
Ela então parou por um momento, deu outra mordida na maçã
e enquanto mastigava pensou. Então indagou:
- Como pode um povo miserável como o nosso, um povo que sofre
com a fome e com as doenças virem até aqui oferecer
tributo?
- Ora minha filha, eles acreditam ser essa a única razão
de estarem vivos, eles culpam seu Deus por sua miséria, acreditam
que sou o escolhido para governar e que me agradando, seu Deus os
concederá piedade.
- Mas eles continuam na miséria, e ainda acreditam?
- Mas minha filha, para que uma lenda seja sustentada, deve haver,
digamos algumas intervenções divinas. Digamos que
faço com que alguns "milagres" aconteçam
após o dia dos tributos, meus guardas que secretamente salgam
plantações para que as plantas morram, as fertilizam
após esse dia para que cresçam. Compreende agora?
Eu fabrico milagres para os que se curvam a mim, e maldições
para os que se recusam. Assim sustento a lenda e o governo.
Usar tais trapaças para que o povo acredite nele. Aquelas
palavras pronunciadas por seu pai de forma tão fria enojavam
Arkânis. Sua doce maçã perdeu todo seu sabor.
"Um
povo governado pela ignorância..." pensou ela. Indignada,
deixou o resto da maçã sobre a mesa e se levantou.
- Onde você está indo minha filha? - Indagou o rei
- Vou me retirar para meus aposentos papai, vou me aprontar para
o dia do tributo.
- Tudo bem, mas não se demore, a primeira família
chegará em breve.
E a princesa se retirou. Subiu as escadarias até seu quarto
e como era desejo de seu pai, escolheu o mais belo vestido que tinha,
um lindo vestido azul, sem alças e com um discreto decote
em V. O vestido havia sido confeccionado com a mais fina seda de
Mirr e lhe caia muito bem. Enquanto retirava a roupa do cabide,
uma de suas camareiras já entrou correndo a fim de ajudá-la.
Ela se pôs atrás da moça e rapidamente começou
a amarrar o complicado laço do vestido. Porém na mente
de Arkânis ela só podia ouvir a frase de seu pai ressoando
em sua cabeça...
"A ignorância é a forma mais sutil, e também
a mais forte de se comandar".
A camareira acabava de passar o cordão pela ultima casa quando
Arkânis lhe perguntou:
- O que você acha do dia do Tributo?
- Não me é permitido opinar minha senhora.
Aquela frase foi dita sem ânimo e sem vida. Uma ladainha decorada
ensinada a ferro e fogo pelos carrascos que controlavam as masmorras.
A mulher atrás de mim estava morta, sua alma estava morta,
era apenas um zumbi que apenas sabia amarrar meu vestido e retirar-se
aos seus aposentos sujos e apertados, e um dia ela partiria, morreria
tão silenciosamente como está agora, sem um gemido
de dor, uma lembrança ou conforto, apenas cairia morta e
seria substituída por outra múmia adestrada, outro
ser inerte. E meu pai sempre diz, "observe como é fácil
subjuga-los minha filha, aprenda como controla-los e nunca terá
problemas, você sabe que um dia estará em meu lugar,
é a herdeira do trono e deve saber como comandar seu povo."
Sim, é verdade, eu era a herdeira - pensou- e o dia que tivesse
a coroa sobre minha cabeça libertarei o povo, só espero
não ser tarde demais, espero que meu pai deixe um povo para
ser governado e não marionetes....
- Minha senhora, seu pai a chama na sala do trono...
- Diga-lhe que estou descendo...
Era chegada a hora, era nessas poucas horas que seu pai se tornava
mais cruel, e isso a assustava. Por sorte sua influencia por vezes
conseguia salvar a vida de um ou outro camponês infeliz, pelo
menos até o mês seguinte. Arkânis desceu rapidamente
as escadas e virando a direita no saguão central chegou até
a pequena porta lateral, que devidamente escondida daria ao trono,
uma passagem secreta criada para uma fuga que nunca existiu. Ao
atravessar a pequena porta, ela saiu por trás do trono de
seu pai, já devidamente ocupado, ela deu a volta e ocupou
seu trono ao lado, uma bela peça de marcenaria, toda talhada
e revestida em ouro, ouro o suficiente para matar a fome de dezenas
de famílias, mas estava lá apenas como uma peça
de decoração. A sala era estreita, porém muito
longa, um felpudo carpete vermelho cobria o frio chão de
granito. Ao longo das altas paredes, meia dúzia de longas
janelas iluminavam o lugar. Diretamente a sua frente a grande porta
dupla por onde os miseráveis deveriam entrar, a porta estava
apropriadamente disposta entre duas gigantescas estátuas
na forma de dragões. Eram assustadoras e era esse seu propósito.
Pareciam que ao menor gesto das mãos dos reis, as estátuas
criariam vida e engoliriam aquele que atravessasse as portas.
E o
espetáculo começou, dezenas de famílias entravam
individualmente no salão, o rei com um olhar sábio
recebia os tributos e abençoava a seu modo aqueles que cumpriam
seu papel. Como um verdadeiro teatrinho ensaiado as famílias
abençoadas saiam com um fraco sorriso no rosto, imaginando
como Deus era piedoso. Já aquelas famílias que se
recusavam a ajudar sofriam as piores torturas, pais e filhos separados,
carregados para os calabouços para serem adestrados, e aqueles
que reagiam eram mortos ali mesmo, sem dó ou perda de tempo,
rapidamente os guardas retiravam o corpo para a próxima família
entrar, o tapete vermelho tinha sua razão de ser...
Continua...
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