O
Invasor
Marçal Aquino
Geração Editorial, abril 2002
232 páginas
Escrito originalmente em 1997, O Invasor é a primeira novela adulta do autor. Tendo São Paulo como cenário, seu tema central é o conflito que se estabelece entre três amigos, sócios numa construtora, a partir do momento em que dois deles resolvem lançar mão da violência para solucionar um impasse profissional surgido entre eles. Logo após sua conclusão, a novela foi transformada em roteiro de longa metragem com direção de Beto Brant.
O
livro traz a novela e o roteiro de cinema em que se transformou “O Invasor”, um livro onde não há um tiro, mas onde a violência e o descontrole está presente em gestos, atitudes, olhares e entonação da voz. Não por acaso o filme “O Invasor”
venceu o Festival de Sundance de 2002, traduzindo para a tela um suspense que mantém a respiração presa do início ao fim.
Trecho:
“Vamos falar de coisas mais agradáveis. Você quer que eu tire a roupa?
E antes que eu dissesse qualquer coisa, Mirna repetiu os movimentos de quadris para livrar-se da calça apertada.
Quero mostrar uma coisa pra você, ela disse, enquanto tirava a camiseta num movimento rápido.
Quando Mirna despiu a calcinha, pude ver uma pequena tatuagem colorida, que se misturava aos pêlos aloirados de seu púbis, ficando semi-oculta. Um dragão.
Meu pai tinha um símbolo tatuado no ombro esquerdo, um círculo, no interior do qual havia uma serpente enrolada numa espécie de punhal. Uma coisa sinistra. Mas eu só descobri isso quando fui ajudar meu tio a banhá-lo, no dia em que ele se matou. Foi então que eu me toquei de que, até aquele dia, nunca tinha visto meu pai sem camisa. Mesmo quando viajávamos para a praia, nas férias, ele permanecia o tempo inteiro de camiseta, dizendo que não gostava de pegar sol. Semanas depois de sua morte, perguntei à minha
mãe sobre aquela tatuagem. O assunto pareceu perturbá-la e ela desconversou, como se aquele símbolo estivesse ligado ao seu suicídio.
E aí, não gostou do meu dragão?
Mirna estava tão próxima que eu podia sentir o perfume discreto de seu corpo.
É bonito, eu disse. Tão bonito quanto a dona dele”.

FAROESTES
Editora Ciência do Acidente, São Paulo
fevereiro de 2001
Nas onze histórias que compõem Faroestes há uma evidente radicalização de procedimentos que apareciam nos livros anteriores do autor. São histórias do Brasil contemporâneo em que, tanto no cenário urbano quanto no rural, a violência física e moral parece mediar as relações entre os personagens.
Trecho:
“Você passa a prestar muita atenção na mulher que veio morar na casa amarela da vila. Morenos, ela e o marido, ele um pouco mais escuro. Você sabe que ele trabalha à noite, no pesado. Já escutou, no bar, neguinho dizendo que homem que tem trabalho noturno não dá conta do recado em casa. Então você olha com mais capricho toda vez que a mulher passa em frente à oficina: a caminho da padaria ou do mercadinho de verduras ou, de banho tomado, à
tarde, na direção do ponto de ônibus para o centro. Até que um dia ela olha de volta, curiosa. Você cumprimenta, fingindo respeito. Bem nesse dia ela veste uma calça vermelha, justa. Infernal. Na próxima vez, você já sabe, deve sorrir na hora do cumprimento. O marido trabalha à noite, não dá conta do recado. Pelo menos é o que você pensa. Até descobrir que não é bem assim. Mas aí será um pouco tarde. Como é que você ia adivinhar que o cara é da PM se não fosse a mulher contar, rindo, na cama?” (do conto
Dez maneiras infalíveis de arranjar um inimigo)

O amor e outros objetos pontiagudos
Geração Editorial, São Paulo, 1999
140 páginas
Reunindo onze contos, O amor e outros objetos pontiagudos recebeu, em 2000, o Prêmio Jabuti, atribuído pela Câmara Brasileira do Livro. Em resenha na Folha de S.Paulo, o crítico José Geraldo Couto assinalou: “Os contos são geralmente narrados em primeira pessoa, mas Aquino evita sabiamente o excesso de coloquialismo, o acento regional, a gíria que envelhece rapidamente. O texto tem um tom de conversa calorosa, mas organizada e
objetiva – ainda que se trate, às vezes, de uma conversa truncada e fragmentária, por conta de violentos cortes e elipses”. “Sete epitáfios para uma dama branca” foi transformado em roteiro de longa-metragem, que terá a direção de Beto Brant.
Trecho:
“Você vivem escrevendo sobre coisas que não conhecem, ela diz. É, escritores têm essa mania, eu digo. Talvez até para tentar conhecer as coisas. Eu vou aparecer no seu livro?, ela pergunta. Talvez. Aí ela se levanta e diz: Ah, então deixa eu pelo menos me vestir. Não quero aparecer assim, sem roupa”. (do conto
Bianca, 17)

As Fomes de Setembro
Editora Estação Liberdade, São Paulo, 1991
90 páginas
Estréia de Marçal Aquino na prosa adulta, As Fomes de Setembro apresenta uma reunião de doze contos em que predomina a temática urbana. O volume foi o vencedor, na categoria conto, da 5ª Bienal Nestlé de Literatura (1991). Escrevendo sobre o livro, a crítica Bella Jozef destacou: “As Fomes de Setembro é composto de flagrantes do cotidiano, reiterada fonte de motivação, com pequenas coisas a que não se dá importância, que
apresentam acabamento final inesperado – característica do bom escritor – e que muitas vezes reverte a ação”.
Trecho:
“Antes de ir para casa, permaneci algum tempo sentado numa praça perto do edifício, vendo os vagabundos e velhos que circulavam por ali àquela hora. E depois de um bom tempo sem fumar, acendi um cigarro e traguei longamente, o que me deu até uma certa vertigem. Um velho que estava sentado próximo perguntou se eu não sabia que fumar faz mal. Eu olhei para o seu rosto enrugado, seus olhos pequenos e brilhantes e para o chapéu em suas mãos. E tive
vontade de dizer a ele que viver também faz mal. Mas fiquei com receio de estragar as possíveis ilusões que ele ainda tinha. E fui embora”. (do conto
Onze Jantares)

Miss Danúbio
Scritta Editorial, São Paulo, 1994
130 páginas
Premiado no Concurso de Contos do Paraná, Miss Danúbio é composto por onze narrativas em que o cenário se alterna entre a metrópole e pequenas cidades perdidas nos confins do Brasil. O livro inclui o conto que deu origem ao filme Os
Matadores, de Beto Brant, que recebeu diversos prêmios em festivais de cinema no Brasil e no exterior e foi apontado pela crítica como um dos destaques da retomada do cinema brasileiro
na década de 1990. Sobre Miss Danúbio, o crítico Jerônimo Teixeira escreveu no jornal Zero Hora: “O melhor de Marçal Aquino está na ação direta, linear. As quatro narrativas curtas reunidas sob o título comum Jogos Iniciais são de um fôlego narrativo ímpar: incisivas, inusitadas e cheias de tensão erótica”.
Trecho:
“Permaneci abaixado, segurando o cão e afagando sua cabeça. Até que ele teve uma espécie de convulsão, esticou-se todo e parou de respirar, mantendo os olhos abertos. Eu me levantei e fiquei parado no acostamento da rodovia deserta, olhando o dia clarear. Era uma manhã de luz baça, cheia de nuvens cinzentas. A minha respiração saía como fumaça por causa do frio. Senti que aquele momento continha um tipo de ensinamento, mas eu não sabia dizer
qual era. Então apenas fiquei olhando a vegetação úmida, o céu cinzento e a luz aumentando. Lembro que fiquei em silêncio. Que, feito dizia minha mãe, é como a gente deve ficar diante das coisas que não compreende direito”. (do conto
Visita)

Abismo - Modo de Usar
Poesia – 1990


Por bares nunca dantes naufragados
Poesia - 1985
RG Editores - Campinas
