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Foi uma façanha esperada para quem se decidiu pela literatura dez
anos antes, mas não para ganhar dinheiro. "Não tenho ilusões quanto
a viver como escritor no Brasil", conforma-se. "Os leitores
brasileiros formam uma confraria de 3 mil. Não dá para sobreviver."
Casado e com uma filha, Aquino mora em São Paulo num modesto
apartamento do bairro de Vila Mariana. "Não tenho nem carro",
gaba-se, porque a ausência de automóvel revelou-se a fonte maior de
inspiração. Apesar de pacato, Aquino faz questão de parar em bares,
boates e muquifos para ouvir as pessoas. "Nunca tive a ilusão da
objetividade, nem como repórter", explica. "O que me interessa é a
provocação do real, o impacto que a realidade tem sobre mim, e não a
realidade." As andanças pelo bas-fond rechearam sua ficção de
figuras populares. "Não saberia escrever sobre ricos", jura.
"Precisaria pesquisar, e não gosto disso. Meu negócio é uma boa
história de gente comum."
A coleta não deixa de ser tradicional. Em tempos e lugares
diversos, seus colegas Honoré de Balzac, Fiodor Dostoiévski e João
Antônio caçavam histórias nas ruas. Aquino faz a mesma coisa, sem
deixar de carregar o trio de autores na mochila de influências. No
entanto, ele pertence a outro tempo e a uma metrópole diferente da
Paris de Balzac, da São Petersburgo dostoievskiana e mesmo da São
Paulo de João Antônio. E como a realidade anda rompida, o novo
andarilho informa que não há nada para aproveitar em shopping
centers e nos vazios da cidade. "A gênese das minhas histórias é o
boteco." Prefere ir aonde se concentram multidões. Lá, depara com a
violência e o crime. "Não me considero autor policial", comenta.
"Exploro os conflitos entre as pessoas. Não tenho culpa se elas se
metem em casos de polícia e sua vida é triste." Adianta que seu
próximo livro será de amor. Quem sobreviver verá.
| TRECHO |
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O primeiro tiro atingiu Carlito no peito. O susto
e o impacto, uma fração de segundo depois, fizeram com
que caísse da cadeira.
Munição pesada.
O radialista viu as pernas do homem contornando a
mesa e ergueu os olhos. Um rosto sem nenhuma expressão.
Quase metálico, como a voz. Carlito levantou um braço,
quis dizer que não era justo, não naquele momento. Mas
só teve forças para murmurar Flávia. Já estava morto
quando tomou o segundo tiro.
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TÍTULO Cabeça a
Prêmio
AUTOR Marçal Aquino
EDITORA Cosac & Naify
PREÇO E PÁGINAS R$ 29/192
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