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LIVROS

Pesadelo em letras de fôrma

Luís Antônio Giron

» Conto do livro Famílias Terrivelmente Felizes, de Marçal Aquino  

Foi uma façanha esperada para quem se decidiu pela literatura dez anos antes, mas não para ganhar dinheiro. "Não tenho ilusões quanto a viver como escritor no Brasil", conforma-se. "Os leitores brasileiros formam uma confraria de 3 mil. Não dá para sobreviver." Casado e com uma filha, Aquino mora em São Paulo num modesto apartamento do bairro de Vila Mariana. "Não tenho nem carro", gaba-se, porque a ausência de automóvel revelou-se a fonte maior de inspiração. Apesar de pacato, Aquino faz questão de parar em bares, boates e muquifos para ouvir as pessoas. "Nunca tive a ilusão da objetividade, nem como repórter", explica. "O que me interessa é a provocação do real, o impacto que a realidade tem sobre mim, e não a realidade." As andanças pelo bas-fond rechearam sua ficção de figuras populares. "Não saberia escrever sobre ricos", jura. "Precisaria pesquisar, e não gosto disso. Meu negócio é uma boa história de gente comum."

A coleta não deixa de ser tradicional. Em tempos e lugares diversos, seus colegas Honoré de Balzac, Fiodor Dostoiévski e João Antônio caçavam histórias nas ruas. Aquino faz a mesma coisa, sem deixar de carregar o trio de autores na mochila de influências. No entanto, ele pertence a outro tempo e a uma metrópole diferente da Paris de Balzac, da São Petersburgo dostoievskiana e mesmo da São Paulo de João Antônio. E como a realidade anda rompida, o novo andarilho informa que não há nada para aproveitar em shopping centers e nos vazios da cidade. "A gênese das minhas histórias é o boteco." Prefere ir aonde se concentram multidões. Lá, depara com a violência e o crime. "Não me considero autor policial", comenta. "Exploro os conflitos entre as pessoas. Não tenho culpa se elas se metem em casos de polícia e sua vida é triste." Adianta que seu próximo livro será de amor. Quem sobreviver verá.

TRECHO

O primeiro tiro atingiu Carlito no peito. O susto e o impacto, uma fração de segundo depois, fizeram com que caísse da cadeira.

Munição pesada.

O radialista viu as pernas do homem contornando a mesa e ergueu os olhos. Um rosto sem nenhuma expressão. Quase metálico, como a voz. Carlito levantou um braço, quis dizer que não era justo, não naquele momento. Mas só teve forças para murmurar Flávia. Já estava morto quando tomou o segundo tiro.

TÍTULO
Cabeça a Prêmio

AUTOR
Marçal Aquino

EDITORA
Cosac & Naify

PREÇO E PÁGINAS
R$ 29/192



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Edição 274 - 18/08/03



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