| Cesar Diniz/Divulgação |
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NA RUA O paulista Marçal Aquino busca
histórias na vida da cidade |
O escritor Marçal Aquino goza do status de xamã das novas
gerações de ficcionistas que abordam a violência na megalópole
caótica. Outra função que cumpre é a de alma do cineasta Beto Brant:
tanto O Invasor como Ação entre Amigos, filmes de êxito de
Brant, têm roteiros de Aquino. Um novo romance, Cabeça a
Prêmio, e uma antologia de 16 contos, Famílias terrivelmente
Felizes, vêm à luz em caprichadas edições e coroam a trajetória
do escritor, que publicou 11 títulos nos últimos 12 anos, entre
coletâneas de contos, histórias juvenis e um volume de poesia. Se
Famílias mostra duas décadas de devoção à narrativa curta,
Cabeça a Prêmio é seu primeiro romance e o texto de maior
fôlego que já realizou. Narra a vertiginosa perseguição de um jovem
casal de amantes por dois matadores profissionais pelo interior do
Brasil. O enredo começa com o contraponto de dois blocos narrativos.
Os personagens se defrontam no final espantoso. No tiro ao alvo da
existência, quase ninguém sobrevive.
Cabeça a Prêmio proporciona uma leitura irresistível,
embora possa desagradar a quem queira pinçar dali alguma lição
edificante. Isso porque a obra de Aquino padece do bom e velho
niilismo, pois não observa valores, nem mesmo ocultos. Seus
personagens são criaturas medonhas, seres sanguinários que matam,
fazem sexo, traem e morrem às pencas. O motor de seu pesadelo em
letras de fôrma é movido a sexo e dinheiro. A frase bruta dispensa
timbre literário; é seca como um tiro de pistola com silenciador.
Os temas de Aquino viraram chavão na supernova literatura
brasileira, talvez demasiadamente presa à realidade. Seu jeito
contaminou até o memorialismo carcerário em moda. Os críticos o
condenam por nunca ter pensado em final feliz. "O que posso fazer,
se nada me mostra a felicidade?", ironiza. Tal desencanto supremo
foi a sopa que faltava ao mel dos cineastas. Hoje, Aquino tem
trabalhado em roteiros para cinema. Fornece conteúdo para duas
produções de Brant e adaptou Crime e Castigo, de Dostoiévski,
para um filme de Heitor D'Alia. Os novos autores aprenderam com ele
a fixar um olho na tela. O escritor, porém, não se reconhece na
fama. "Ao imaginar uma história, não penso que vai dar um bom
filme", revela. "Imagino um livro. Faço literatura. Roteiro de filme
está para o livro assim como o sexo explícito está para o erotismo.
Na literatura, vale a ambigüidade."
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TÍTULO Famílias
terrivelmente Felizes
AUTOR Marçal Aquino
EDITORA Cosac & Naify
PREÇO E PÁGINAS R$ 32/323
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Cinema é uma paixão que o assaltou em criança, na cidade
paulista de Amparo, onde nasceu, há 45 anos. Apesar de figurar como
paradigma de ficcionista urbano, Aquino criou-se em uma fazenda,
numa família pobre que não possuiu televisor até 1970. "Não fui
marcado pela televisão, e nisso me diferencio de minha geração",
orgulha-se. "Devo muito ao ambiente do interior. Lá, aprendi a ouvir
histórias." Amparo, recorda, foi palco de crimes tétricos durante
sua infância. A educação pouco sentimental se completou com a
experiência como repórter policial no Jornal da Tarde entre
1986 e 1991. "Não reclamo do jornalismo como alguns colegas. A
redação me ensinou a concisão e o olhar de repórter." Treinou
redigir no susto, sem método, a marteladas da imaginação. Só escreve
à mão. "Escrever é ler", diz. "Foi assim com Cabeça a Prêmio.
A surpresa do leitor é a mesma que tive." Produziu o romance em dois
cadernos, varando 54 noites, entre maio e julho de 2001.
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