LIVROS

Pesadelo em letras de fôrma

Em seu primeiro romance, Marçal Aquino submete violência urbana a trama imprevisível

Luís Antônio Giron

» Conto do livro Famílias Terrivelmente Felizes, de Marçal Aquino  

Cesar Diniz/Divulgação
NA RUA
O paulista Marçal Aquino busca histórias na vida da cidade

O escritor Marçal Aquino goza do status de xamã das novas gerações de ficcionistas que abordam a violência na megalópole caótica. Outra função que cumpre é a de alma do cineasta Beto Brant: tanto O Invasor como Ação entre Amigos, filmes de êxito de Brant, têm roteiros de Aquino. Um novo romance, Cabeça a Prêmio, e uma antologia de 16 contos, Famílias terrivelmente Felizes, vêm à luz em caprichadas edições e coroam a trajetória do escritor, que publicou 11 títulos nos últimos 12 anos, entre coletâneas de contos, histórias juvenis e um volume de poesia. Se Famílias mostra duas décadas de devoção à narrativa curta, Cabeça a Prêmio é seu primeiro romance e o texto de maior fôlego que já realizou. Narra a vertiginosa perseguição de um jovem casal de amantes por dois matadores profissionais pelo interior do Brasil. O enredo começa com o contraponto de dois blocos narrativos. Os personagens se defrontam no final espantoso. No tiro ao alvo da existência, quase ninguém sobrevive.

Cabeça a Prêmio proporciona uma leitura irresistível, embora possa desagradar a quem queira pinçar dali alguma lição edificante. Isso porque a obra de Aquino padece do bom e velho niilismo, pois não observa valores, nem mesmo ocultos. Seus personagens são criaturas medonhas, seres sanguinários que matam, fazem sexo, traem e morrem às pencas. O motor de seu pesadelo em letras de fôrma é movido a sexo e dinheiro. A frase bruta dispensa timbre literário; é seca como um tiro de pistola com silenciador.

Os temas de Aquino viraram chavão na supernova literatura brasileira, talvez demasiadamente presa à realidade. Seu jeito contaminou até o memorialismo carcerário em moda. Os críticos o condenam por nunca ter pensado em final feliz. "O que posso fazer, se nada me mostra a felicidade?", ironiza. Tal desencanto supremo foi a sopa que faltava ao mel dos cineastas. Hoje, Aquino tem trabalhado em roteiros para cinema. Fornece conteúdo para duas produções de Brant e adaptou Crime e Castigo, de Dostoiévski, para um filme de Heitor D'Alia. Os novos autores aprenderam com ele a fixar um olho na tela. O escritor, porém, não se reconhece na fama. "Ao imaginar uma história, não penso que vai dar um bom filme", revela. "Imagino um livro. Faço literatura. Roteiro de filme está para o livro assim como o sexo explícito está para o erotismo. Na literatura, vale a ambigüidade."

TÍTULO
Famílias terrivelmente Felizes

AUTOR
Marçal Aquino

EDITORA
Cosac & Naify

PREÇO E PÁGINAS
R$ 32/323

Cinema é uma paixão que o assaltou em criança, na cidade paulista de Amparo, onde nasceu, há 45 anos. Apesar de figurar como paradigma de ficcionista urbano, Aquino criou-se em uma fazenda, numa família pobre que não possuiu televisor até 1970. "Não fui marcado pela televisão, e nisso me diferencio de minha geração", orgulha-se. "Devo muito ao ambiente do interior. Lá, aprendi a ouvir histórias." Amparo, recorda, foi palco de crimes tétricos durante sua infância. A educação pouco sentimental se completou com a experiência como repórter policial no Jornal da Tarde entre 1986 e 1991. "Não reclamo do jornalismo como alguns colegas. A redação me ensinou a concisão e o olhar de repórter." Treinou redigir no susto, sem método, a marteladas da imaginação. Só escreve à mão. "Escrever é ler", diz. "Foi assim com Cabeça a Prêmio. A surpresa do leitor é a mesma que tive." Produziu o romance em dois cadernos, varando 54 noites, entre maio e julho de 2001.



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Edição 274 - 18/08/03



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