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Directorium Inquisitorum, o Manual dos Inquisidores.

Parte II – Prática Inqusitorial

 

 

Até a mentira é uma arma do inquisidor


“[...] o próprio inquisidor irá com esses fiéis [pessoas que falavam com os acusados de heresia, a pedido dos inquisidores, com o intuito de fazê-los confessar] até a presença do herege e ele mesmo fará a promessa de perdoar-lhe – e lhe perdoará, efetivamente, pois tudo o que se fizer para a conversão de hereges é perdão; e as penitências são perdão e remédio. E, se o réu pedir perdão e confessar, deve-se responder que farão por ele ainda mais do que pede. A coisa se passará da seguinte maneira: com palavras vagas [grifo nosso] e generosas, de modo a obter a confissão completa e a conversão do herege, a quem farão, então, a gentileza de ministrar o sacramento da penitência.
[...] Se o herege teimar em negar, o inquisidor mandará para junto dele um de seus antigos cúmplices que se tiver convertido e for bem aceito pelo réu. O inquisidor providenciará tudo para que conversem. O convertido poderá contar que é ainda um herege [ou seja, vai mentir], que só abjurou por medo e que foi por isso que contou tudo ao inquisidor. Quando o réu tiver adquirido confiança, o convertido fará tudo para prolongar a conversa até o anoitecer. Dirá, então que é muito tarde para ir embora e pedirá permissão ao réu para passar a noite na prisão com ele. Vão conversar, ainda, durante a noite, e falarão, obviamente, do que fizeram juntos. Colocam-se as testemunhas, além do escrivão inquisitorial, num bom lugar, na escuta – com a cumplicidade da escuridão” (Eymerich, que escreve em finais do séc. XIV,  p. 126)


“Um comentário se impõe: não se há de objetar que malícia é sempre proibido? Deve-se fazer uma distinção entre mentira e mentira, malícia e malícia! A malícia cuja finalidade é enganar deve ser sempre proibida e não tem nada a ver com a prática do Direito; mas a mentira que se prega judicialmente, em benefício do Direito, do bem comum [grifo nosso] e da razão, é absolutamente louvável. Quanto mais, a mentira que se preza para detectar a heresia, erradicar os vícios e converter os pecadores. Lembremo-nos do julgamento de Salomão!”  (La Peña, que escreve em finais do séc. XVI ,p. 126)

 

 

 

 

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