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Eunice Tomé, do grupo de Leitura Mania de Ler, consta da edição IV do livro Momento do Autor, projeto da Secretaria de Cultura, da Prefeitura Municipal de Santos. Lançado no mês de março de 2009. O livro conta com 10 poemas da autora, sendo que dois desses trabalhos divulgamos:

Concepção

No balanço das ondas, dormi no teu colo,

Na maciez dos lençóis, sonhei com teu corpo,

Com a clareza do sol, acordei como pássaro,

Leve, livre e solto, mais vivo do que morto.

 

O verde da relva traçava o caminho,

Os passos de garça deixavam seu rastro,

Seu cheiro de ventre estava no ar,

Muito presente no ato de amar.

 

O falo florido jorrando a vida,

A vulva risonha, receptiva,

Vale de brasas rolando a planície

Era um vulcão em eclipse.

 

Queimou toda a terra. Frutificou...

Futuro Promissor

Coloquei o calendário na janela.

O vento avançou no tempo.

 

Cheguei ao futuro primeiro,

E lento antevi pensamento.

 

Estava bela mais velha.

Meu peito enlaçado de jeito.

 

Seu semblante estava áureo.

Feito menina, deitava-me no leito.

 

Como entender esses códigos:

Sem argumento e sem documento.

 

Era eu mais feliz no vir a ser.

Esse tempo, marcarei no firmamento,

 

E correr para que ele chegue breve,

De ventre perfeito e gozo refeito.

 

Quero viver nesse tempo.

Mãos

(do livro Construções, lançado em março pela Realejo)

Lacy Pires de Andrade

O que posso com minhas mãos.

Infinitamente falando, posso muita coisa.

É com as mãos que escrevo versos, faço carinho

E também dou adeus.

Bordo, corto, costuro, e faço crochê.

Preparo os alimentos e ponho pra cozer.

Faço massagem se alguma parte sinto doer.

Mãos, minhas queridas mãos!

Nunca havia refletido sobre a importância das mãos.

De hoje em diante vou cuidar mais delas, agora que sei o quanto me são importantes.

Mãos não servem só para trabalhar, servem também para abençoar...

Gostoso é sentir uma mãozinha de criança acariciando o rosto da gente, ver as mãozinhas do bebê que aprende segurar as coisas... quanta maravilha é feita com as mãos!

Com tristeza, observo ainda o fato de se usarem as mãos para o mal. São mãos que puxam o gatilho de armas para a vida tirar. Mãos são usadas para desviar pessoas do bom caminho, para as drogas, para o crime.

Mãos que conduzem os semelhantes ao roubo, à falsificação de documentos e a coisas piores ainda.

Mãos abençoadas são as que num gesto de carinho afagam uma pessoa velhinha.

As mãos que operam e fazem sarar uma doença, quanta alegria trazem ao paciente!

Amo minhas mãos e preciso valorizá-las muito mais.

Santos, 13/06/05

Lacy Pires de Andrade

 

A Secretaria da Cultura do Paraná (SEEC) publicou os nomes dos vencedores do Concurso Nacional de Haicai Nempuku Sato, promovido em conjunto com a Associação Beneficente e Cultural Nipo-Brasileira de Curitiba. Neiva Maria Pavesi, do Grêmio de Haicai Caminho das Águas, de Santos, ganhou o primeiro lugar e também uma menção honrosa, com os seguintes haicais:

 1º lugar 

Seguram a enxada
As mãos que escrevem haicais --
Chuva criadeira 

Menção honrosa:

No ventre da terra
Repousa o velho imigrante
Cala-se a cigarra

No concurso estadual Masuda Goga, Santos também marcou forte presença, com  três vencedoras pertencentes ao Grêmio de Haicai Caminho das Águas:

1º lugar: Marly Barduco Palma

 

Nas mãos da menina

ramalhete de crisântemos -

Ainda em botão.

2° lugar: Regina Alonso

O gongo ressoa --

As flores de cerejeira

por todo o caminho.

4º lugar: Mahelen Madureira

Será este sol

O mesmo lá do Japão?

E estes caquis ...

Lembranças de janelas

(5º lugar do Concurso de Poesia da Prefeitura de Santos para a terceira idade.)

Marly Barduco Palma

Uma janela lembra o vento,

uma janela lembra o amor...

lembra também um mistério,

uma paixão muito ardor.

Uma janela lembra o passado,

uma janela lembra serenata...

lembra também o presente,

uma chuva fina, uma cascata.

Lembra a moça enamorada,

seguindo seu amor com o olhar,

até na curva ele sumir.

Lembra a cortina esvoaçante,

dançando junto com a lua,

e mil estrelas a seduzir.

Marly Barduco Palma - Poetisa.

Rotina

Cynira Antunes de Moura

Raiando o dia, eu me ponho de pé

para cumprir toda a minha rotina –

paro um momento na oração de fé,

organizando a minha disciplina.

Sou a doméstica do dia-a-dia

e então sou tudo o que preciso ser,

rainha e dona, cultivo alegria

sem me dar conta deste meu poder. 

O fone toca e sou a secretária,

Pagando as contas, sou a financista.

prego e martelo, sou a operária,

penduro o quadro com o dom de artista. 

Sou a babá que cuida com carinho,

sou pai e mãe, avó que conta história.

Sou motorista, reduzo o caminho,

sou professora para minha glória. 

Fico feliz quando tudo consigo,

e ao fim do dia, sou como Deus quer,

pois em teus braços eu encontro abrigo

e volto novamente a ser mulher!

Cynira Antunes de Moura - Professora, contista, poetisa e trovadora.

Primeiro poema...

Sônia Adhariass Soares

Em 1968, 69, 70? sob o jugo de uma implacável ditadura, o país atravessava uma fase de descrença, de funda tristeza e surda revolta. Isto latejava nas universidades, no conflito entre capital - donos - e cultura, mestres e alunos, imbuídos do desejo de expressão, mas amordaçados. Um dia, eu ia para a faculdade a pé, e era longe. Havia chovido e as poças se sucediam. Ao contornar uma delas, com leves sementes de ipê, que boiavam, mentalizei o primeiro poema:

Ipê

 Gosto de ver

as sementes de ipê

boiando na poça d'água.

E fico pensando

quantas delas serão árvores

a florir canários enfeitiçados

encantando com seu canto

mudo e dourado

essa gente sem cor

de minha terra

desencantada.

O páragrafo inicial explica o tom do poema. O ipê amarelo é a árvore símbolo da brasilidade, na época tão desalentada, por outros motivos. Mas tudo passa e voltamos a florescer...Principalmente se tivermos por escudo a pureza e a força da poesia.

Sônia Adhariass Soares - Publicada no site.

 Adoçando

Madô Martins

 Chocolate meio-amargo.

Meu homem se aquietando

mudando devagarinho

seu jeito de ser no mundo.

Você me amansa - me diz.

e sua língua ferina

se ocupa em me dar prazer

se cala pra não ofender

se deixa morder.

Madô Martins - Adoçando, poema extraído do livro de poemas Doce destino.

 No cio

Eunice Tomé

Giro e reviro,

Lambo e lambuzo.

O dorso, o ventre,

As pernas, o púbis.

Som sem rancor,

Escuro de velas.

Espaço sem frestas,

Boca de beijos.

Amplexo  reverso,

Aroma de âmbar.

Vermelho corado,

Sangue e desejo.

 Amparo teu jorro,

Recebo teu sexo.

Sou fera ferida,

Raivosa...em gozo.

Eunice Tomé - Jornalista, mestre em Comunicação, escritora.

Unidade

Regina Alonso

 Galho esguio aponta para o alto

No tronco samambaias

Folhas pendem em direção ao centro

Terra-umbigo

 

Em arco, céu e terra conjugados

Círculo-vida eternamente consagrados

 

Alados pássaros em vôo alto

O azul atingem

E planam suavemente no gramado

 

Acima abaixo completam seu destino

E sabem porquê e para quê foram criados

 

Também caminho no círculo fim-início

Sou eu mesmo e Tu, um só corpo

Juntos, amalgamados

 

Tua pele também meu revestimento

E teus pensares, junto aos meus, encantamento

 

Uno indivisível somos

Não plurais

Mesma carne mesmo sangue mesmos ais

Regina Alonso - Escritora - prosa e verso.

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