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Fernando Pessoa (Álvaro de
Campos)
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Apontamento
A minha alma partiu-se como um vaso
vazio.
Caiu pela escada excessivamente
abaixo.
Caiu das mãos da criada
descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça
no vaso.
Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me
sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho
por sacudir.
Fiz barulho na queda como um vaso que se
partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da
escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de
mim.
Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?
Olham os cacos absurdamente
conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes
deles.
Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada
involuntária.
Alastra a grande escadaria atapetada de
estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso,
entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha
vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não
sabem por que ficou ali.
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Machado de
Assis
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Um
Apólogo
Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de
linha:
— Por que está você com esse ar, toda cheia de si,
toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste
mundo?
— Deixe-me, senhora.
— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo
que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre
que me der na cabeça.
— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é
agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual
tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos
outros.
— Mas você é orgulhosa.
— Decerto que sou.
— Mas por quê?
— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de
nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você
ignora que quem os cose sou eu e muito eu?
— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo
um pedaço ao outro, dou feição aos babados...
— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou
adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e
mando...
— Também os batedores vão adiante do
imperador.
— Você é imperador?
— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel
subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o
trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo,
ajunto...
Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da
baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma
baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás
dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da
linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam
andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas,
entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para
dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:
— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há
pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo;
eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando
abaixo e acima...
A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela
agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe
o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo
que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era
tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o
plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira
dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no
outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o
baile.
Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A
costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no
corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o
vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui
ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da
agulha, perguntou-lhe:
— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no
corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é
que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para
a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas?
Vamos, diga lá.
Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete,
de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre
agulha:
— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para
ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de
costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me
espetam, fico.
Contei esta história a um professor de melancolia, que
me disse, abanando a cabeça:
— Também eu tenho servido de agulha a muita linha
ordinária!
Texto extraído do livro Para Gostar de Ler - Volume
9 - Contos, Editora Ática - São Paulo, 1984, pág.
59.
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Mário
Quintana ------------------------------
"Mario por
ele mesmo
... Minha
vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi
uma vírgula que não fosse uma confissão. Ah! mas o que querem são
detalhes, cruezas, fofocas... Aí vai! Estou com 78 anos, mas sem
idade. Idades só há duas: ou se está vivo ou morto. Neste último
caso é idade demais, pois foi-nos prometida a
Eternidade...
(Texto
escrito pelo poeta para a revista IstoÉ de
14.11.1984)"
Trecho
acima foi extraído do site comemorativo centenário
Mario Quintana
em 2006
www.estado.rs.gov.br/marioquintana
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Cecília Meireles
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De aspecto tão suave, marcou
fortemente o século XX com seu verso mais que perfeito:
indispensável e essencial; e com sua crônica, fluida e intimista.
Além disso foi uma figura importante na Educação e, como jornalista,
além de educadora, emissária do Brasil em vários países, recebendo
honrarias por seu trabalho. Sobre ela, diz Walmir Ayala: “Seguindo a
linha ondulante de seus poemas, encontramos respostas até para o que
nunca perguntamos, mas cuja indagação era essencial no nosso
exercício do passar.”
Em
Morena, Pena de Amor, de 1939, Cecília exercita a trova, com
extraordinária sensibilidade:
“Eu
estou sonhando contigo,
tu estás sonhando com ela,
e ela com o
teu amigo,
e ele comigo ou com ela”
(Tema
retomado por Drummond em Quadrilha)
De
Romanceiro da Inconfidência, toma as dores da Pátria e dos
heróis fortes e românticos chefiados por
Tiradentes:
“Já
vem o peso do mundo
com sua fortes sentenças.
Sobre a mentira
e a verdade
desabam as mesmas penas.”
De Poemas
III, agosto, 1964 – três meses antes da morte:
“As
orquídeas do mosteiro fitam-me com seus olhos roxos.
Elas são
alvas, todas de pureza,
Com uma leve mácula violácea para uma
pureza de um sonho triste, um dia.
Que dia?
Que dia? Dói-me a sua brevidade.
Ah! não vêem o mundo. Ah! Não me
vêem como eu as vejo.
Se fossem de alabastro seriam mais
amadas?
Mas eu amo o eterno e o efêmero e queria fazer o efêmero
eterno."
E assim
foi: amando o efêmero e o eterno, fez-se eterna em sua poesia e no
coração dos leitores.
A Arte de Ser
Feliz
Houve um tempo em que minha
janela se abria
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma
época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
e, em
silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual,
para
que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o
homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu
coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e
encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens
espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que
pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com
pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no
espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de
Lope de Vega.
Ás vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião
passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu
destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo
dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada
janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só
existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é
preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.
Canteiros
Quando penso
em você fecho os olhos de saudade
Tenho tido muita coisa, menos a
felicidade
Correm os meus dedos longos em versos tristes que
invento
Nem aquilo a que me entrego já me traz
contentamento
Pode ser
até manhã, cedo claro feito dia
mas nada do que me dizem me faz
sentir alegria
Eu só queria ter no mato um gosto de
framboesa
Para correr entre os canteiros e esconder minha
tristeza
Que eu
ainda sou bem moço para tanta tristeza
E deixemos de coisa,
cuidemos da vida,
Pois se não chega a morte ou coisa
parecida
E nos arrasta moço, sem ter visto a
vida.
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Carlos Drummond de Andrade
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Poemas Para Todas as
Mulheres
No teu
branco seio eu choro.
Minhas lágrimas descem pelo teu ventre
E
se embebedam do perfume do teu sexo.
Mulher, que máquina és, que
só me tens desesperado
Confuso, criança para te conter!
Oh,
não feches os teus braços sobre a minha tristeza não!
Ah, não
abandones a tua boca à minha inocência, não!
Homem sou
belo
Macho sou forte, poeta sou altíssimo
E só a pureza me ama
e ela é em mim uma cidade e tem mil e uma portas.
Ai! teus
cabelos recendem à flor da murta
Melhor seria morrer ou ver-te
morta
E nunca, nunca poder te tocar!
Mas, fauno, sinto o vento
do mar roçar-me os braços
Anjo, sinto o calor do vento nas
espumas
Passarinho, sinto o ninho nos teus pêlos...
Correi,
correi, ó lágrimas saudosas
Afogai-me, tirai-me deste
tempo
Levai-me para o campo das estrelas
Entregai-me depressa
à lua cheia
Dai-me o poder vagaroso do soneto, dai-me a
iluminação das odes, dai-me o cântico dos cânticos
Que eu não
posso mais, ai!
Que esta
mulher me devora!
Que eu quero fugir, quero a minha mãezinha
quero o colo de Nossa Senhora!
(Poema extraído do livro Vinicius de Moraes -
Poesia completa e Prosa. Rio de Janeiro. Editora Nova Aguillar.
1998, p. 262.)
A Falta Que Ama
Entre areia, sol e grama
o que se esquiva se
dá,
enquanto a falta que ama
procura alguém que não
há.
Está coberto de terra,
forrado de
esquecimento.
Onde a vista mais se aferra,
a dália é toda
cimento.
A
transparência da hora
corrói ângulos obscuros:
cantiga que não
implora
nem ri, patinando muros.
Já
nem se escuta a poeira
que o gesto espalha no chão.
A vida
conta-se inteira,
em letras de conclusão.
Por que é que revoa à toa
o pensamento, na
luz?
E por que nunca se escoa
o tempo, chaga sem
pus?
O
inseto petrificado
na concha ardente do dia
une o tédio do
passado
a uma futura energia.
No
solo vira semente?
Vai tudo recomeçar?
É falta ou ele que
sente
o sonho do verbo amar?
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Marina Colasanti
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Frutos e Flores
Meu amado
me diz
que sou como maçã
cortada ao meio.
As sementes eu
tenho
é bem verdade.
E a simetria das curvas.
Tive um certo
rubor
na pele lisa
que não sei
se ainda tenho.
Mas se em
abril floresce
a macieira
eu maçã feita
e pra lá de
madura
ainda me desdobro
em brancas flores
cada vez que sua
faca
me traspassa.
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Affonso Romano de Sant'Anna
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Antes Que
Eles Cresçam
Há um período em que os pais vão ficando órfãos de
seus próprios filhos.
É que as crianças crescem independentes de nós, como
árvores tagarelas e pássaros estabanados.
Crescem sem pedir licença à vida.
Mas não crescem todos os dias, de igual maneira,
crescem de repente.
Um dia sentam-se perto de você no terraço e dizem uma
frase com tal maneira que você sente que não pode mais trocar as
fraldas daquela criatura.
Onde é que andou crescendo aquela danadinha que você
não percebeu?
Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de
aniversário com palhaços e o primeiro uniforme do
maternal?
A criança está crescendo num ritual de obediência
orgânica e desobediência civil. E você está agora ali, na porta da
discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas
apareça...
Ali estão muitos pais ao volante, esperando que eles
saiam esfuziantes e cabelos longos, soltos.
Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá
estão nossos filhos com uniforme de sua geração.
Esses são os filhos que conseguimos gerar e amar,
apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias, e da
ditadura das horas.
E eles crescem meio amestrados, observando e
aprendendo com nossos acertos e erros.
Principalmente com os erros que esperamos que não se
repitam.
Há um período em que os pais vão ficando um pouco
órfãos dos filhos.
Não mais os pegaremos nas portas das discotecas e das
festas.
Passou o tempo do ballet, do inglês, da natação e do
judô. Saíram do banco de trás e passaram para o volante de suas
próprias vidas. Deveríamos ter ido mais à cama deles ao anoitecer
para ouvirmos sua alma respirando conversas e confidências entre os
lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto
cheio de adesivos, posters, agendas coloridas e discos
ensurdecedores.
Não os levamos suficientemente ao Playcenter, ao
shopping, não lhes demos suficientes hambúrgueses e refrigerantes,
não lhes compramos todos os sorvetes e roupas que gostaríamos de ter
comprado.
Eles cresceram sem que esgotássemos neles todo o nosso
afeto. No princípio iam à casa de praia
entre embrulhos, bolachas, engarrafamentos, natais, páscoas,
piscinas e amiguinhos.
Sim havia as brigas dentro do carro, a disputa pela
janela, os pedidos de chicletes e cantorias sem
fim.
Depois chegou o tempo em que viajar com os pais
começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar
a turma e os primeiros namorados. Os pais ficaram exilados dos
filhos. Tinham a solidão que sempre desejaram, mas, de repente,
morriam de saudades daquelas "pestes".
Chega o momento em que só nos resta ficar de longe
torcendo e rezando muito para que eles acertem nas escolhas em busca
da felicidade.
E que a conquistem do modo mais completo possível. O
jeito é esperar: qualquer hora podem nos dar
netos.
O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não
exercido nos próprios filhos e que não pode morrer
conosco.
Por isso os avós são tão desmesurados e distribuem tão
incontrolável carinho.
Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso
afeto.
Por isso é necessário fazer alguma coisa a mais, antes
que eles cresçam.
Intervalo Amoroso
O que fazer
entre um orgasmo e outro,
quando se abre um intervalo
sem teu
corpo?
Onde estou,
quando não estou
no teu gozo incluído?
Sou todo
exílio?
Que
imperfeita forma de ser é essa
quando de ti sou
apartado?
Que neutra
forma toco
quando não toco teus seios, coxas
e não recolho o
sopro da vida de tua boca?
O que fazer
entre um poema e outro
olhando a cama, a folha
fria?
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Jorge Amado
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Nem a Rosa, Nem o Cravo
As frases perdem seu sentido, as palavras
perdem sua significação costumeira, como dizer das árvores e das
flores, dos teus olhos e do mar, das canoas e do cais, das
borboletas nas árvores, quando as crianças são assassinadas
friamente pelos nazistas? Como falar da gratuita beleza dos campos e
das cidades, quando as bestas soltas no mundo ainda destroem os
campos e as cidades?
Já viste um loiro trigal balançando ao vento? É
das coisas mais belas do mundo, mas os hitleristas e seus cães
danados destruíram os trigais e os povos morrem de fome. Como falar,
então, da beleza, dessa beleza simples e pura da farinha e do pão,
da água da fonte, do céu azul, do teu rosto na tarde? Não posso
falar dessas coisas de todos os dias, dessas alegrias de todos os
instantes. Porque elas estão perigando, todas elas, os trigais e o
pão, a farinha e a água, o céu, o mar e teu rosto. Contra tudo que é
a beleza cotidiana do homem, o nazifascismo se levantou, monstro
medieval de torpe visão, de ávido apetite assassino. Outros que
falem, se quiserem, das árvores nas tardes agrestes, das rosas em
coloridos variados, das flores simples e dos versos mais belos e
mais tristes. Outros que falem as grandes palavras de amor para a
bem-amada, outros que digam dos crepúsculos e das noites de
estrelas. Não tenho palavras, não tenho frases, vejo as árvores, os
pássaros e a tarde, vejo teus olhos, vejo o crepúsculo bordando a
cidade. Mas sobre todos esses quadros bóiam cadáveres de crianças
que os nazis mataram, ao canto dos pássaros se mesclam os gritos dos
velhos torturados nos campos de concentração, nos crepúsculos se
fundem madrugadas de reféns fuzilados. E, quando a paisagem lembra o
campo, o que eu vejo são os trigais destruídos ao passo das bestas
hitleristas, os trigais que alimentavam antes as populações livres.
Sobre toda a beleza paira a sombra da escravidão. É como u'a nuvem
inesperada num céu azul e límpido. Como então encontrar palavras
inocentes, doces palavras cariciosas, versos suaves e tristes? Perdi
o sentido destas palavras, destas frases, elas me soam como uma
traição neste momento.
Mas sei todas as palavras de ódio, do ódio mais
profundo e mais mortal. Eles matam crianças e essa é a sua maneira
de brincar o mais inocente dos brinquedos. Eles desonram a beleza
das mulheres nos leitos imundos e essa é a sua maneira mais
romântica de amar. Eles torturam os homens nos campos de
concentração e essa é a sua maneira mais simples de construir o
mundo. Eles invadiram as pátrias, escravizaram os povos, e esse é o
ideal que levam no coração de lama. Como então ficar de olhos
fechados para tudo isto e falar, com as palavras de sempre, com as
frases de ontem, sobre a paisagem e os pássaros, a tarde e os teus
olhos? É impossível porque os monstros estão sobre o mundo soltos e
vorazes, a boca escorrendo sangue, os olhos amarelos, na ambição de
escravizar. Os monstros pardos, os monstros negros e os monstros
verdes.
Mas eu sei todas as palavras de ódio e essas,
sim, têm um significado neste momento. Houve um dia em que eu falei
do amor e encontrei para ele os mais doces vocábulos, as frases mais
trabalhadas. Hoje só o ódio pode fazer com que o amor perdure sobre
o mundo. Só o ódio ao fascismo, mas um ódio mortal, um ódio sem
perdão, um ódio que venha do coração e que nos tome todo, que se
faça dono de todas as nossas palavras, que nos impeça de ver
qualquer espetáculo - desde o crepúsculo aos olhos da amada - sem
que junto a ele vejamos o perigo que os cerca.
Jamais as tardes seriam doces e jamais as
madrugadas seriam de esperança. Jamais os livros diriam coisas
belas, nunca mais seria escrito um verso de amor. Sobre toda a
beleza do mundo, sobre a farinha e o pão, sobre a pura água da fonte
e sobre o mar, sobre teus olhos também, se debruçaria a desonra que
é o nazifascismo, se eles tivessem conseguido dominar o mundo. Não
restaria nenhuma parcela de beleza, a mais mínima. Amanhã saberei de
novo palavras doces e frases cariciosas. Hoje só sei palavras de
ódio, palavras de morte. Não encontrarás um cravo ou uma rosa, uma
flor na minha literatura. Mas encontrarás um punhal ou um fuzil,
encontrarás uma arma contra os inimigos da beleza, contra aqueles
que amam as trevas e a desgraça, a lama e os esgotos, contra esses
restos de podridão que sonharam esmagar a poesia, o amor e a
liberdade!
(Publicado no
jornal
Folha da Manhã, edição de 22.04.1945, e consta do
livro Figuras do Brasil: 80 autores em 80 anos de Folha,
PubliFolha - São Paulo, 2001, pág. 79, organização de Arthur
Nestrovski.) Grupo de leitura Mania de Ler, 15 de agosto
de 2006.